Liderar é saber quando acelerar

Em 2005, aos 23 anos, Caio Fernandes deixou Campinas e mudou-se para o Rio de Janeiro para assumir sua primeira posição de liderança na Expeditors, multinacional americana de logística. Até então trainee nas áreas de importação e exportação, passaria a comandar 12 profissionais responsáveis pelo atendimento a clientes do setor de óleo e energia em uma operação que funcionava 24 horas por dia, sete dias por semana.

O convite partiu de um vice-presidente da Expeditors, que enxergou em Caio capacidade de aprendizado, comprometimento com a operação, disposição para assumir responsabilidades e maturidade para enfrentar novos desafios. A oportunidade representava um salto importante em sua trajetória: além da mudança de cidade, ele assumiria, pela primeira vez, a responsabilidade pela gestão de uma equipe.

Caio ainda concluía a graduação em Administração de Empresas, iniciada em 2001 na Universidade Paulista, e precisaria conciliar a etapa final do curso com o início dessa nova experiência profissional.

Ele aceitou. Considerou que aquela oportunidade talvez não voltasse a aparecer. Concluiu a graduação ainda em 2005 e transformou o episódio em uma metáfora para interpretar a própria trajetória: uma carreira se parece com uma corrida de Fórmula 1. Há retas em que é preciso acelerar, mas também curvas que exigem redução de velocidade, ajustes e preparo para o trecho seguinte.

Nascido em Campinas, em 1982, Caio havia ingressado na Expeditors quatro anos antes, aos 19 anos. Escolheu Administração por ser uma formação ampla, capaz de ajudá-lo a compreender como as empresas funcionam, tomam decisões e geram resultados. Naquele momento, não planejava trabalhar com logística. O setor surgiu como oportunidade profissional e, com o tempo, tornou-se uma paixão.

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A transferência para o Rio seria a primeira de uma série de mudanças dentro da empresa. Caio passaria por áreas operacionais, comerciais e de gestão no Brasil e na Costa Rica antes de retornar ao país. Em julho de 2019, 18 anos depois de ter entrado como trainee, tornou-se vice-presidente da operação brasileira, a maior da Expeditors na América Latina.

A primeira reta

Nos quatro primeiros anos na empresa, Caio conheceu os processos de importação e exportação, acompanhou as demandas dos clientes e se aproximou da cultura de crescimento orgânico da Expeditors, baseada na formação interna dos profissionais que depois assumem posições de liderança.

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Na promoção para o Rio, colocou esse modelo em prática. Até então, seu desempenho dependia principalmente do conhecimento técnico e da capacidade individual de execução. Na nova função, os resultados passaram a ser construídos por uma equipe que precisava responder a imprevistos a qualquer hora do dia.

No início, tentou reproduzir a forma de gestão que conhecia em Campinas. Logo percebeu que a cultura local e a maneira de se comunicar eram diferentes. Para conduzir os profissionais, precisaria adaptar a forma de orientar, cobrar e acompanhar o trabalho.

A experiência mostrou que não existe uma fórmula única para liderar. Na visão de Caio, o gestor precisa compreender as características, as motivações e os pontos fortes de cada pessoa antes de definir como ajudá-la a evoluir.

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Da operação à visão regional

Caio permaneceu no Rio de Janeiro até dezembro de 2008. No mês seguinte, voltou a São Paulo para assumir a gerência de Soluções para Clientes da América Latina. Depois de atuar em uma estrutura voltada ao setor de óleo e energia, passou a acompanhar demandas de diferentes mercados e a relacionar necessidades locais às diretrizes regionais da companhia.

A trajetória ganhou uma dimensão internacional em fevereiro de 2010, quando se transferiu para San José, capital da Costa Rica, como gerente de Despacho Aduaneiro, área responsável pelos procedimentos necessários à liberação de mercadorias no comércio exterior. A empresa o escolheu para participar de uma transformação da unidade, com foco no desenvolvimento de profissionais locais, na organização dos processos e na melhoria do desempenho.

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Permaneceu no cargo até agosto de 2011. No mês seguinte, tornou-se gerente distrital de Vendas. A passagem para a área comercial ampliou sua compreensão do negócio: além dos processos operacionais, passou a lidar diretamente com as necessidades dos clientes e com as oportunidades de crescimento da empresa.

Em outubro de 2012, assumiu como gerente distrital da Costa Rica e passou a responder pelo conjunto da operação no país. Sob sua responsabilidade estavam seis filiais e aproximadamente 250 colaboradores. Depois de conhecer a companhia pelas perspectivas técnica, operacional e comercial, passou a integrar essas diferentes frentes na condução da estratégia local.

A transformação na Costa Rica

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Na convivência com as equipes costarriquenhas, Caio encontrou profissionais marcados pela cordialidade, pela humildade e pela disposição para ajudar. A expressão “pura vida”, associada a uma maneira positiva de encarar o cotidiano, também aparecia nas relações de trabalho. Ainda assim, percebeu que alguns colaboradores não reconheciam o próprio potencial para assumir responsabilidades mais estratégicas.

Um de seus desafios foi ajudá-los a olhar além das atividades diárias. Isso exigia delegar, acompanhar o desenvolvimento e abrir espaço para que novas lideranças participassem das decisões. Para ele, formar pessoas não significava apenas oferecer treinamentos, mas criar situações nas quais cada profissional pudesse testar capacidades ainda não demonstradas.

A experiência aprofundou o aprendizado iniciado no Rio de Janeiro. Na visão de Caio, bons líderes identificam talentos distintos e formam equipes nas quais competências analíticas, operacionais, comerciais e de gestão de pessoas se complementam. Na Costa Rica, passou também a avaliar o próprio desempenho pela autonomia dos profissionais que ajudava a preparar.

Em 2012, no mesmo ano em que assumiu o comando da unidade, conquistou a certificação Black Belt em Six Sigma, metodologia voltada à análise de processos, à identificação das causas de problemas, à redução de falhas e à melhoria contínua.

A formação representou uma das curvas de sua corrida profissional. Em meio ao aumento das responsabilidades, Caio continuava investindo na ampliação do repertório e na preparação para desafios mais complexos.

Em 2015, a filial da Costa Rica recebeu o reconhecimento interno District of the Year – Americas. A unidade se destacou pela excelência operacional, pelo desempenho financeiro e pelo crescimento sustentável, resultados que a transformaram em referência entre as operações da Expeditors na região.

A conquista reforçou uma convicção que Caio levaria para os anos seguintes: reservar tempo para estudar, rever processos e desenvolver novas competências também é uma forma de avançar.

O retorno ao Brasil

Caio permaneceu na Costa Rica até outubro de 2017. No mês seguinte, voltou a São Paulo para assumir a gerência de Operações da Expeditors no Brasil. A mudança encerrou uma experiência internacional de quase oito anos, período em que passou pelas áreas de despacho aduaneiro, vendas e gestão geral, e ampliou sua compreensão do negócio.

Em julho de 2019, foi promovido a vice-presidente da Expeditors no Brasil. Atualmente, lidera cerca de 450 colaboradores distribuídos em seis escritórios e responde pelas áreas de Finanças, Contabilidade, Operações, Comercial e Desenvolvimento de Pessoas.

A estrutura brasileira é a maior da empresa na América Latina e está entre os mercados considerados de maior potencial de crescimento. Além do peso econômico que tem, o Brasil ocupa uma posição estratégica na expansão regional da Expeditors.

A chegada à vice-presidência não interrompeu a busca por formação.

De março de 2021 a outubro de 2022, Caio participou do programa C-Level da Fundação Getulio Vargas, voltado ao desenvolvimento de competências em administração e gestão. O curso ampliou sua visão estratégica em um momento em que suas decisões já envolviam diferentes áreas da organização.

Para Caio, alcançar uma posição executiva não significa estar preparado para todas as exigências do cargo. Quanto maior a responsabilidade, mais necessário se torna rever conceitos, reconhecer limitações e buscar novos instrumentos para tomar decisões.

A confiança antes do cargo

A trajetória construída dentro da mesma empresa moldou a forma como Caio observa o crescimento profissional. Ele vê com cautela o chamado job hopping, expressão usada para definir mudanças frequentes de emprego em intervalos curtos.

Isso não significa defender a permanência a qualquer custo. Uma transição pode ser necessária quando a cultura da empresa deixa de fazer sentido para o profissional ou quando não há mais espaço para desenvolvimento. O problema, na visão de Caio, aparece quando a pressa pelo próximo cargo interrompe aprendizados que ainda não foram consolidados e resultados que não tiveram tempo de aparecer.

Como participa de processos de contratação e promoção, Caio considera a confiança um dos atributos mais importantes. Para ele, a credibilidade é construída pela combinação entre entrega, responsabilidade e constância. Em sua própria trajetória, as promoções vieram depois de períodos de aprendizado e de ampliação gradual das responsabilidades. Mais importante do que crescer rapidamente, afirma, é adquirir a experiência necessária para sustentar a oportunidade quando ela surgir.

A presença também desenvolve

A tecnologia ampliou as possibilidades de comunicação, mas Caio não acredita que ela substitua a convivência entre líderes e equipes. Quando visita um dos escritórios da Expeditors, procura concentrar a atenção nas pessoas e nos desafios daquela unidade. Em reuniões presenciais, evita dividir o foco com o computador ou o celular.

Indicadores e relatórios ajudam a medir o desempenho, mas, na visão de Caio, não revelam tudo. O potencial de um profissional, suas dificuldades e a maneira como se relaciona com os colegas aparecem com mais clareza nas conversas espontâneas e no acompanhamento cotidiano. Para ele, é nessa proximidade que o líder consegue identificar talentos, compreender limitações e apoiar o desenvolvimento.

Com o aumento das responsabilidades, Caio também percebeu que algumas decisões se tornam mais solitárias. Nem todas agradam a todos, mas ele procura explicar os motivos de suas escolhas e avaliar os efeitos para colaboradores, clientes e para a organização. Para ele, a transparência não elimina divergências, mas contribui para preservar a confiança diante de decisões difíceis.

Fora do trabalho, a disciplina aparece em uma rotina que começa às 4h30, com uma hora de atividade física. Nos fins de semana, dedica-se ao ciclismo. Todos os anos, percorre de bicicleta de montanha os cerca de 320 quilômetros do Caminho da Fé, entre Águas da Prata, no interior de São Paulo, e o Santuário Nacional de Aparecida. O trajeto é concluído em quatro dias.

Mais do que uma experiência religiosa, o percurso representa para Caio um exercício de superação, reflexão e conexão com os próprios valores. A travessia reforça uma ideia que também leva para a carreira: resultados duradouros não dependem apenas de velocidade, mas de disciplina, constância e direção.

O significado do sucesso

Depois de mais de duas décadas na Expeditors, Caio passou a medir o sucesso menos pelo cargo alcançado e mais pelo crescimento das pessoas que ajudou a desenvolver. Para ele, liderar também significa formar profissionais capazes de assumir novas responsabilidades e conduzir equipes com autonomia.

Essa visão encontra referência em Liderança 360º, de Abilio Diniz e Jaci Corrêa Leite, livro que costuma indicar. Entre os principais aprendizados, destaca a importância de rever comportamentos, reconhecer limitações e abrir espaço para o desenvolvimento de outras pessoas.

Hoje, sua definição de sucesso está sobretudo no legado: construir confiança, preparar sucessores e formar líderes capazes de seguir avançando. A velocidade pode abrir oportunidades, mas são as pessoas que sustentam os resultados no longo prazo.

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