Biografia de Carlos Lacerda narra do comunismo ao golpismo – 21/08/2026 – Política

Carlos Lacerda “parecia não dormir nunca e nem deixar que os outros dormissem”, descreveu uma vez o jornalista Newton Carlos. Segundo o governador udenista Juracy Magalhães, ele se comportava “como macaco em loja de louças”.

“Era extremado mesmo quando se colocava no centro”, afirmou o jurista Evandro Lins e Silva, amigo que se afastou de Lacerda. O colunista Paulo Francis, nunca conhecido pela mansidão, achava que ele “perdia as estribeiras no ataque”.

Em 1954, quando o major Rubens Vaz pediu a Lacerda para baixar um pouco a bola na virulência contra o governo de Getúlio Vargas —Vaz entraria para os livros de história dali a meses, assassinado a tiros no lugar do amigo no atentado da rua Tonelero—, o jornalista disse que, “se não fosse violento, a campanha não teria efeito”.

“O país ainda está muito insensibilizado”, afirmou o Corvo do Lavradio, naquele que foi um dos anos mais tormentosos da política brasileira. “É preciso sacudi-lo como se sacode um sujeito que dormiu mal à noite e tem que acordar de madrugada para não perder o avião.”

O julgamento sobre o legado de Lacerda está aberto desde 1977, quando um infarto o calou para sempre aos 63 anos, mas é fato indiscutível que ele sacolejou o Brasil.

Sua arma era a imprensa —o panfleto, as colunas, seu próprio jornal, o rádio e depois a televisão. E o jornalista Mário Magalhães cultivava há décadas a vontade de destrinchar sua vida em uma grande empreitada de reportagem. Como ele diz, “é impossível entender a história do Brasil sem conhecer a história do Carlos Lacerda”.

O personagem o seduzia antes mesmo do outro Carlos que acabou biografando. O livro “Marighella: O Guerrilheiro que Incendiou o Mundo”, publicado em 2012, se tornou obra de referência, levou o prêmio Jabuti e virou filme dirigido por Wagner Moura com Seu Jorge no papel do militante de esquerda.

Em 2010, Magalhães pediu demissão da Folha, onde trabalhou por 18 anos em cargos como ombudsman e repórter especial, para conseguir terminar aquela biografia. Colhidos os louros, passou mais 11 anos debruçado sobre Lacerda, instado pela disponibilização de documentos inéditos de órgãos americanos sobre o Brasil, com muita informação nova sobre o político.

“Nos dois livros eu mantenho o mesmo comportamento. Não julgo os personagens. Não acuso e não defendo”, diz o jornalista de 62 anos, apontando não sentir mais proximidade de nenhum dos biografados. “Lacerda já tem detratores e partidários suficientes.”

Os dois Carlos são quase contemporâneos, separados por menos de três anos de idade, e é tentador enxergá-los como polos opostos —afinal, um é mais lembrado como ícone de esquerda e outro, de direita. Mas é uma impressão bastante redutora.

Por exemplo, o direitismo nem sempre foi o figurino de Lacerda, marcado na juventude pela simpatia aguerrida ao comunismo. Magalhães aponta que o futuro udenista estava envolvido até o pescoço no episódio que passou à história como Intentona Comunista, em 1935, enquanto Marighella nem sabia do levante.

Segundo o autor, é mais desafiante biografar uma figura de trajetória tão pouco linear, em termos de convicções e vernizes políticos. Quando alguém pergunta ao biógrafo o que Carlos Lacerda achava de algum assunto, ele costuma responder: “Quando?”

E esse primeiro volume do projeto de Magalhães nem cobre todos os matizes de Lacerda —sua narrativa de 442 páginas, que prioriza a clareza e os capítulos curtos, começa em 1914 e termina em 1955, às vésperas da posse de Juscelino Kubitschek na Presidência da República. A segunda parte ainda não está pronta e deve sair em 2028.

Ler o livro é como acompanhar, através do espelho, uma biografia de Getúlio Vargas pelos passos de seu inimigo público número um, que começou sua militância quando a República Velha agonizava.

Vemos um Carlos de 16 anos, neto de ministro do Supremo Tribunal Federal, apoiar a ruptura institucional da Revolução de 1930 (incensado pelo pai, grande orador e líder de esquerda). A partir daí, sua oposição ao getulismo foi gradual, acidentada e cada vez mais renhida.

Acompanhamos as reações de Lacerda ao golpe que culminou no Estado Novo em 1937 (ao qual já foi crítico), à queda do regime em 1945 (que incentivou vivamente) e à primeira eleição de Vargas pelo voto em 1950 —a que se opôs com argumentos golpistas que também se voltariam contra a posse de JK em 1955 e a favor da tomada de poder pelos militares em 1964.

Se Magalhães procurou ser criterioso em toda a biografia, deu atenção especial a dois momentos-chave da trajetória pública de Lacerda: seu afastamento do Partido Comunista, em 1939, e o atentado da rua Tonelero, em 1954 —cujos desdobramentos levariam ao suicídio de Vargas.

A armadilha fracassada para matar Lacerda, elaborada pelo chefe da guarda do presidente, Gregório Fortunato, saiu pela culatra quando os intestinos do plano vieram a público e a pressão pela renúncia do mandatário se tornou insustentável. A saída de Vargas foi um tiro no próprio peito.

A partir daí, nas palavras do dramaturgo Nelson Rodrigues, a “mesma unanimidade que pedira a cabeça [do jornalista] Samuel Wainer [do getulista Última Hora] agora queria beber o sangue de Carlos Lacerda”. Era como se ele tivesse virado “o assassino de um suicida”.

Nos dois episódios, Magalhães diz estar seguro de ter contado pela primeira vez toda a história como ela aconteceu. Em 1954, atesta com detalhes que a carta-testamento de Getúlio (“saio da vida para entrar na história”) teve como ghost-writer José Soares Maciel Filho, conhecido como Maciel Bundinha, conselheiro que no passado “santificava o Führer” em um jornal nazifascista.

O biógrafo descobriu também o último artigo escrito por Lacerda antes do suicídio do presidente, que nunca foi publicado —um manuscrito de 20 folhas engavetado por sugestão de seu irmão, Maurício, que o considerou desnecessariamente inflamatório.

Já no episódio de 1939, Magalhães esclarece que Lacerda não era filiado ao Partido Comunista. Mesmo na juventude, dizia ser “um simpatizante com ar de militante”. A narrativa da expulsão do partido, escreve o biógrafo, seria “algo como um clube eliminar da relação de associados um não sócio”.

Houve, contudo, um rompimento sonoro, disparado por um artigo crítico ao partido de Luiz Carlos Prestes publicado apocrifamente por Lacerda na revista O Observador Econômico e Financeiro.

“Lacerda – Coração de Tempestade” escrutina não só os bastidores da política, mas a história do jornalismo brasileiro. No ambiente de então, “a informação era asfixiada pela opinião”, resume Magalhães —que começou sua carreira, aliás, como estagiário na Tribuna da Imprensa fundada pelo carioca. “Nisso, ele não inovou. Só acabou se destacando pela eloquência, pela virulência.”

“O seu mal é que você pensa que é jornalista, mas os seus artigos são, na realidade, discursos”, disse uma vez Pedro da Costa Rego, redator-chefe do jornal Correio da Manhã, ao futuro deputado udenista e governador do estado da Guanabara.

Se o político nunca foi exatamente esquecido, ele anda sendo reivindicado de forma mais aberta por candidatos nesta campanha eleitoral. Sobre isso, Magalhães repisa: “Carlos Lacerda pode inspirar tanto um jovem comunista como um jovem anticomunista. A questão é o Lacerda de quando”.

“Ele coloca contradições tanto para quem o rejeita sem reservas quanto para quem o acolhe sem reservas”, afirma o biógrafo, que não tem a menor expectativa de que o livro seja acolhido de forma desapaixonada no ambiente conflagrado de hoje.

“É impossível qualquer leitor ou leitora manter distanciamento do personagem que mais angariou amores e ódios na história do Brasil”, diz. “Os fanáticos vão odiar o livro que eu escrevi. Não escrevi para agradar quem detesta Carlos Lacerda nem para ser aplaudido por fanáticos pró-Lacerda.”

“Fiz um relato escrupuloso sobre um personagem que vem sendo aprisionado em camisas de força históricas, como se fosse só uma coisa ou outra. Devolvo esse personagem à história com a integridade dele.”

Cinco frases de Carlos Lacerda pinçadas pelo biógrafo

“Já escolhi minha profissão. Hei de ser engenheiro agrônomo. Não me meterei na política. Já fiz este juramento.”

(em 1923, aos nove anos, carta para a mãe)

“Faremos a revolução democrático-burguesa, agrária e anti-imperialista. Depois, num desdobramento, sem deixar morrer o facho da revolução em marcha, caminharemos até a revolução operária e camponesa.”

(em 1935, carta ao escritor Mário de Andrade)

“Uma ameaça ainda mais terrível do que a do nazismo pesa sobre o mundo e já domina, de fato, grande parte da humanidade. Se o nazismo se baseava na frustração, o comunismo tem a seu favor uma força muito maior de engodo —que é a esperança.”

(em 1945)

“É preciso cuspir no rosto do primeiro deputado ou senador que tenha o desplante de elogiar, num parlamento democrático, a ditadura que fechou esse Congresso e traiu a nação.”

(em 1946, na cobertura da Assembleia Constituinte, sobre eventuais elogios à ditadura do Estado Novo, que durou de 1937 a 1945)

“O sr. Getúlio Vargas, senador, não deve ser candidato à Presidência. Candidato, não deve ser eleito. Eleito, não deve tomar posse. Empossado, devemos recorrer à revolução para impedi-lo de governar. Ele já fez várias, isso para ele não é novidade.”

(em 1950)

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