Há pouco, Lula disse que a direita utiliza a corrupção para atacar a democracia. É uma verdade antiga, mas admite exceções. A campanha de Bolsonaro teme os desdobramentos do episódio do suposto financiamento do Dark Horse por Vorcaro e só falará de Lulinha para compensar seu próprio esqueleto no armário. Numa democracia normal, o caso teria derrubado uma candidatura presidencial. Por aqui, pouco desgastou a posição de Flávio nas pesquisas. Os eleitores dele normalizaram a corrupção?
“Quem nunca pediu um empréstimo a um amigo?”, indagou um cínico Lula diante da notícia do fluxo de dinheiro alto de Roberta Luchsinger a Marcola. A frase certa seria outra: “por que, entre tantos amigos, o chefe de gabinete presidencial pede dinheiro a uma lobista envolvida com o INSS e o Ministério da Saúde?”. Ou, noutra versão, “qual lobista negaria favores pecuniários ao funcionário que trabalha na sala contígua à do presidente?”. O presidente sugere legitimar a corrupção para proteger a democracia?
A PF sabe investigar –e, às vezes, celeremente. Nem sempre: o inquérito sobre os milionários repasses de Vorcaro a Flávio, alegadamente para o filme hagiográfico, ainda não produziu frutos públicos. André Mendonça, o relator, permitirá que o sigilo judicial oculte o tema até as eleições? A carência de informação serve à democracia?
Não é só Flávio. A PF investiga o senador Ciro Nogueira, que declarou apoio a Flávio, pela suspeita de operar como chefe da “bancada de Vorcaro” no Congresso. Ele é candidato à reeleição. Seus colegas senadores sequer abriram processo num Conselho de Ética paralisado. O inquérito judicial, sob o mesmo relator, não virá a público antes da abertura das urnas? Os eleitores do Piauí ficam proibidos de conhecer as credenciais de seu senador?
Uma década atrás, corrupção provocava constrangimento nas bases militantes da política. Não mais. Seguindo a linha dos coordenadores da “guerrilha digital”, os militantes rebatem as notícias apontando corrupção maior ou mais nociva no “lado de lá”. Obedientes, acusam a imprensa de perseguição a seus líderes. Ou minimizam as denúncias em nome dos sacrossantos “valores da família”, numa ponta, e da defesa da “democracia ameaçada”, na outra. Não percebem que, desse modo, aprofundam a rejeição popular aos dois líderes rivais?
A hipocrisia provavelmente deriva da desmoralização da Lava Jato, enterrada por um juiz-político e pela horda de procuradores organizados como partido. Mas suspeito que exista algo mais: um STF refém de seus próprios esqueletos. Num país onde se perdeu a crença nos juízes, por que se constranger com a corrupção espraiada nas cúpulas políticas?
Há inquéritos e, acima de tudo, a falta deles. Toffoli assumiu a relatoria do caso Vorcaro apesar de seus suspeitos negócios imobiliários, depois renunciou à posição e declarou-se impedido. Seus pares, porém, proclamaram sua insuspeição, enquanto aceitavam transformar em investigado um dirigente associativo dos auditores da Receita que ousou criticar medidas adotadas por Moraes. Não abriram inquérito sobre Toffoli ou Moraes, cuja esposa e sócia recebeu do Master, na forma de esquisitos honorários advocatícios, quantia superior à repassada ao Dark Horse. Os juízes supremos colocam o corporativismo acima da instituição. Em nome da democracia?
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