Por volta de 1450, três jovens indígenas foram sacrificados pelo Império Inca em duas montanhas do Chile. Uma nova pesquisa combinou uma série de análises químicas e anatômicas para reconstruir em detalhes os últimos meses de vida dessas crianças e adolescentes, e os resultados reforçam a ideia de que as mortes aconteceram no fim de uma longa peregrinação cerimonial, cujo objetivo era reforçar a aura de domínio imperial sobre vastas regiões sul-americanas.
Publicado no último dia 15 na revista especializada Science Advances, o trabalho é um dos retratos mais completos do ritual conhecido como Capacocha (“Qhapaq Hucha” em quíchua, a língua franca dos domínios incaicos). Conhecido tanto por relatos da época colonial quanto por evidências arqueológicas, em especial os corpos muito bem preservados das vítimas graças ao clima dos Andes e do deserto do Atacama, o Capacocha era uma oferenda às montanhas, consideradas seres divinos na antiga religião andina.
O sacrifício podia acontecer como resposta a desastres naturais ou para marcar a ascensão de famílias nobres ao poder, entre outros motivos. É o que explicam os autores da pesquisa, liderados por Verónica Silva-Pinto, da Universidade Diego Portales, no Chile, e Domingo Salazar-García, da Universidade de Valência, na Espanha.
Acredita-se que as crianças e adolescentes, escolhidas a dedo por sua suposta perfeição física e moral, eram enviadas até Cusco, centro cerimonial e político do império no atual Peru, e depois passavam por diversas regiões até chegar às montanhas onde seriam sacrificadas. Para os responsáveis pelo ritual, as vítimas, após a morte, também adquiriam status divino, tornando-se mediadoras entre a população do império e as forças espirituais.
No novo trabalho, a equipe de Silva-Pinto e Salazar-García estudou exemplos de Capacocha encontrados no século passado em duas localidades.
Na primeira, em Cerro Esmeralda, área do deserto do Atacama que fica 905 metros acima do nível do mar, foram encontradas duas vítimas do sexo feminino, uma de 9 anos e outra de 18 anos, em 1976. Na época, ambas passaram por autópsias.
O segundo caso é o de um menino de 8 anos achado em 1954 em Cerro El Plomo, região central do Chile, a uma altitude de 5.400 metros. Desde então, o corpo, que passou a ser conhecido como “Menino de El Plomo”, está preservado numa câmara fria do Museu Nacional de História Natural de Santiago, a uma temperatura média de 4 graus Celsius negativos. Nenhum dos corpos foi encontrado nem retirado do local por arqueólogos profissionais, o que levou a alguma perda das informações sobre eles.
O grupo responsável pelo novo estudo submeteu os três corpos a exames de tomografia computadorizada, análises da pele e datação por carbono-14 (nesse caso, tanto dos restos mortais em si quanto dos tecidos de suas roupas, para estimar a data do sacrifício).
Mas alguns dos dados mais reveladores vieram da composição química dos longos cabelos nesses corpos naturalmente mumificados. A equipe analisou as proporções de isótopos (variantes) de elementos químicos essenciais para a formação do organismo, como carbono, nitrogênio, oxigênio e enxofre.
As diferentes proporções desses isótopos funcionam como uma assinatura dos ambientes pelos quais uma pessoa passa ao longo da vida, porque o tipo de alimentação, a água que um indivíduo bebe e assim por diante fazem com que ele incorpore em seu organismo as características ambientais ao seu redor, como a proporção de certos cereais em sua dieta, o grau de aridez ou umidade na região etc.
Além disso, considerando o prazo necessário para o cabelo humano crescer, é possível enxergar essas mudanças ao longo do tempo. Num fio de cabelo longo, a parte perto das pontas corresponde ao que a pessoa ingeriu vários meses antes de morrer, enquanto a parte perto do couro cabeludo cresceu bem mais perto do momento da morte.
Com base em tudo isso, os pesquisadores verificaram grandes flutuações nos isótopos formadores dos cabelos das vítimas ao longo de vários meses, e a composição parece bater com os diferentes ambientes dos domínios incas no século 15, corroborando a ideia de que os jovens sacrificados peregrinaram por milhares de quilômetros antes de sua morte.
Isso é reforçado pela análise das solas dos pés do “Menino de El Plomo” –muito mais grossas do que o normal, indicando que o garoto caminhou descalço por longas distâncias. Nos últimos tempos de vida, as composições químicas convergem nos três casos, como se eles tivessem passado por uma espécie de alimentação padronizada antes do ritual derradeiro.
No caso das duas vítimas do sexo feminino, a tomografia não foi suficiente para trazer pistas sobre a causa da morte, em grande parte por causa dos danos aos corpos causados pelas autópsias. O que parece estar claro é que supostas marcas de estrangulamento, achadas originalmente, provavelmente eram apenas marcas superficiais deixadas pelas roupas que elas usavam.
Já o “Menino de El Plomo” tem uma fratura no crânio que muito provavelmente aconteceu pouco antes da morte. A hipótese dos pesquisadores é que ela foi causada por um golpe com uma arma contundente, talvez um tacape de ponta de pedra usado na época.
A estimativa mais aceita hoje é que a região ao sul do Império Inca, nos atuais Chile e Argentina, teria sido anexada pelos imperadores algumas décadas antes dos sacrifícios. Os rituais, portanto, podem ter sido parte do processo de consolidação do poder incaico na área.
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