Carlos Lacerda e sua máquina de ódio – 29/08/2026 – Elio Gaspari

Está nas livrarias “Lacerda: Coração de Tempestade”, do repórter Mário Magalhães. É o primeiro volume e vai de 1914 a 1955, quando o golpe do general Henrique Lott levou-o a um breve exílio. Resultado de anos de pesquisas, responde a perguntas que sobreviveram por muitos anos em torno de uma figura que esteve no centro da política brasileira por décadas.

Antes de se tornar um expoente da direita, Lacerda foi comunista? Foi. Pertenceu ao Partido Comunista? Não.

Quem feriu o pé de Lacerda no atentado que levou Getúlio Vargas ao suicídio em agosto de 1954? Um dos pistoleiros da guarda pessoal do presidente, financiada pelo caixa dois do Sistema S.

Seu nome —Carlos Frederico— é uma homenagem do pai a Karl Marx e Friedrich Engels? Não.

Seu primeiro amor foi a poeta Cecília Meireles. Ela tinha 28 anos e ele, 17 incompletos.

Naqueles anos tumultuados, Lacerda foi da esquerda para a direita. Já dom Hélder Câmara e Alceu Amoroso Lima foram da direita para a esquerda. Cecil Borer, o ferrabrás dos calabouços do Estado Novo, ficou onde estava, na meganha a serviço do Palácio. Ele prendeu Lacerda aos 19 anos, três dias antes da chegada de Adolf Hitler ao poder.

Jornalista de grande talento, tinha raciocínio rápido, escrita clara e dedos velozes. Em 1934, lendo São Bernardo, viu em Graciliano Ramos um grande romancista.

O general De Gaulle chamava-o de “demolidor de presidentes”. Demolia tudo que tinha por perto, inclusive o próprio pai: “demagogo de merda”.

Feroz adversário de Getúlio Vargas, foi um mobilizador de vivandeiras e o caricaturista Lan eternizou-o como Corvo. Lacerda tinha uma escolta de oficiais, nove dos quais da Força Aérea. (Havia alguns do Exército, entre eles Emílio Garrastazu Médici.)

Nas primeiras horas do dia 5 de agosto de 1954, o major Rubens Vaz escoltava-o de volta ao seu apartamento da rua Tonelero, em Copacabana. Dois pistoleiros atiraram e morreu o major. Dezenove dias depois, às portas da deposição, Getúlio Vargas se matou. Em cerca de 40 páginas Mário Magalhães conta esses dois episódios, com a minúcia e clareza de um repórter policial.

Afora um breve epílogo, o volume termina com a partida do “matador de Getúlio” para o exílio nos Estados Unidos. Lacerda defendia um regime de exceção para que Vargas não fosse eleito em 1950, não tomasse posse em 1951 e não governasse a partir daí. Ao fim, perdeu.

Em 1955, o presidente morto elegeu Juscelino Kubitschek. O general Henrique Lott, ministro da Guerra, derrubou dois presidentes na noite de 11 de novembro e garantiu- lhe a posse. O vencedor de 1954 teve que deixar o país.

Magalhães reconstrói os primeiros 41 anos dessa vida contorcida num período tumultuado. Espremendo-se o legado desse Lacerda sobra um sujeito inteligente e combativo, para pouco, quase nada. Em 1934, aos 20 anos, ele tentou se matar. Prevaleceu em 1954 e fracassou em 1955. Teria mais triunfos e fracassos até 1977, quando a morte física pegou-o aos 63 anos.

JK tirou o país da mediocridade

Com Lacerda nas livrarias e a campanha presidencial na rua, o livro de Mário Magalhães é como um salto do passado no presente. Lacerda cavalgava o moralismo, combatendo o “mar da lama” do governo de Getúlio. Era pouco mais que um exagero.

Juscelino Kubitschek tomou posse em 1956 prometendo 50 anos em 5 e uma nova capital no Planalto Central. Com um sorriso inesquecível e um otimismo contagiante, entregou quase tudo o que prometeu, mais uma economia envenenada pela inflação.

No epílogo do seu Lacerda, Mário Magalhães salta de 1955 para 1966, em Lisboa, quando eram dois proscritos da ditadura e pensavam que, juntos, podiam ir a algum lugar. Foram a lugar algum. Passado meio século pode-se medir o legado dos dois.

Deus os havia poupado da mediocridade.

Lacerda deu ao Rio água e a alma do Aterro, concebida pela doidivanas Lota de Macedo Soares. Tisnou-se defendendo a ditadura que o mastigou. JK fez estradas e hidrelétricas, mas seu pedestal é o compromisso com as liberdades democráticas e a fé no “monstro”.

Em dezembro de 1974, a oposição havia derrotado a ditadura nas urnas, elegendo 16 dos 21 senadores, JK estava num almoço quando lhe perguntaram o que aconteceria no Brasil.

— O que vai acontecer, não sei. Soltaram o monstro. Ele está em todos os lugares.

Abaixou-se, como se procurasse alguma coisa embaixo da mesa, e prosseguiu:

— Ele está em todos os lugares, aqui, ali, onde você imaginar.

— Que monstro?

— A opinião pública.

Dois anos depois, JK morreu num acidente de automóvel e o “monstro” carregou-o nos ombros ao avião que o levaria a Brasília. Lá, ocorreu a maior manifestação popular desde a deposição de João Goulart, em 1964.


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