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Quem conhece sua terra sente nos ossos a crise climática – 05/09/2026 – Reinaldo José Lopes

Falemos do que deveria ser óbvio. Eu sei que você não desembolsa o seu dinheirinho suado para assinar esta Folha e ter de ler o óbvio, mas o uso do futuro do pretérito na primeira frase serve para indicar que as pessoas continuam esperneando contra obviedades bastante relevantes, feito alguém que quer te convencer de que, veja bem, o céu na verdade é lilás com bolinhas brancas, e não azul.

Óbvio número 1: na semana que passou, o Pnuma, programa ambiental da ONU, reconheceu que não será possível impedir que, muito em breve, a temperatura média da Terra aumente pelo menos 1,5°C em relação ao que prevalecia antes da Revolução Industrial. Vamos ter de lutar com unhas e dentes para estabilizar o aumento e só depois, quem sabe, voltar para esse limiar mais aceitável. É, a gente percebeu (ver a próxima obviedade).

Óbvio número 2: confira a lista dos dez anos mais quentes da história humana e você verá que rigorosamente todos foram registrados de 2015 para cá.

Aliás, estamos chegando muito perto de uma situação na qual a pergunta “qual foi o ano mais quente até agora?” vai ser respondida automaticamente com “o ano passado, claro” —sem nem precisar abrir um buscador on-line ou perguntar para uma IA (que as malditas sejam todas tragadas nas profundezas de Mordor, se é que a minha maldição vale de alguma coisa).

Duvida? Do top 10 a que me refiro, 6 dos anos mais quentes aconteceram de 2020 para cá. O top 3 é composto por 1) 2024, 2) 2023 e 3) 2025. Sou velho o suficiente para me lembrar da época em que ainda havia integrantes dos anos 1990 na lista. Ah, tempo bom que não volta nunca mais —tão bom que ainda me recordo de gente à toa dizendo, na primeira década deste século, que o aquecimento tinha chegado a uma pausa.

Óbvio número 3: qualquer pessoa que conheça direito a própria terra, o lugar onde nasceu, cresceu e viveu a vida inteira, é capaz de sentir nos ossos a bagunça que isso tudo está causando.

Não é por acaso que povos indígenas e outras populações tradicionais (que estão entre os principais responsáveis por evitar que coisa esteja ainda mais feia) mostram tanta preocupação com o que anda ocorrendo. Mas não deveria ser preciso recorrer ao testemunho deles para que a ficha caísse.

Com a graça de Deus, nunca passei mais de dez dias longe do lugar onde nasci desde que vim ao mundo. O mesmo pode dizer a minha mãe, assim como podiam dizer os pais dela. Recordo o que a geada fazia no quintal da minha infância; sei exatamente qual deveria ser o cheiro da chuva quando ela volta a cair após a secura do inverno; não esqueço que o ipê-amarelo deveria florir após o ipê-roxo, e só depois de perder todas as folhas. Olho ao redor e vejo que esses e outros ritmos estão de pernas para o ar.

Óbvio número 4: é justamente a junção do que os números e a ciência mostram e da experiência vivida de quem conhece a própria terra que deveria transformar a negação dessas obviedades em algo intolerável.

Alguém já disse que o sujeito capaz de nos fazer acreditar em absurdos é o mesmo que pode nos levar a cometer atrocidades. Cabe acrescentar que, no presente caso, não é preciso puxar um gatilho para que o resultado seja uma atrocidade quando se diz que o que acontece agora com o clima “é só cíclico” ou, pior, é só coisa da sua cabeça.


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