Fernanda Leite é professora de Engenharia Civil e, atualmente, vice-presidente de Pesquisa da Universidade do Texas em Austin. Aos 47 anos, nasceu em Recife, Pernambuco, mas considera-se cearense, pois passou em Fortaleza a maior parte da infância e da juventude.
Sua história foi marcada, desde cedo, pela educação. Fernanda passou dois períodos da infância e da adolescência nos Estados Unidos, acompanhando os estudos do pai, Eneas. Entre os quatro e sete anos de Fernanda, ele cursou o mestrado no Texas. Depois, quando ela tinha dez, a família retornou ao país por mais quatro anos para que Eneas concluísse o doutorado. Tudo isso só foi possível graças à dedicação de sua esposa, Nilcinha, que cuidou da família enquanto o marido investia na formação. Fernanda cresceu observando, dentro de casa, o valor que os pais atribuíam à educação e ao conhecimento.
Outro grande influenciador de sua trajetória foi o avô paterno, Antônio Leite. Ele atuava na construção civil em Fortaleza e, quando criança, Fernanda adorava acompanhá-lo às obras. Ficava fascinada ao observar tantas pessoas, de diferentes profissões, trabalhando juntas para transformar projetos em realidade. Naquela época, imaginou que seguiria os passos do avô e, por isso, escolheu cursar Arquitetura e Urbanismo na Universidade Federal do Ceará.
Durante a graduação, dava aulas de inglês para complementar a renda. Foi então que descobriu outra paixão: ensinar. Fernanda se lembra de ter comentado com o pai que gostaria de ser professora, mas também desejava seguir uma carreira técnica. Eneas respondeu que ela poderia fazer as duas coisas, tornando-se professora universitária. A resposta mudou sua vida.
Fernanda concluiu a graduação em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal do Ceará em 2002. Depois de se formar e se casar com Daniel, mudou-se com ele para Porto Alegre, onde ambos cursaram o mestrado no Núcleo Orientado para a Inovação da Edificação, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Ela concluiu o mestrado em 2005. Em seguida, o casal foi para Pittsburgh, nos Estados Unidos, para fazer doutorado. Fernanda concluiu o doutorado em Engenharia Civil e Ambiental pela Carnegie Mellon University em 2009 e, no ano seguinte, ingressou como professora na Universidade do Texas em Austin.
Durante algum tempo, Fernanda sentiu que havia decepcionado o avô por não seguir diretamente uma carreira na indústria da construção. Essa sensação desapareceu quando o convidou para assistir a uma palestra que apresentou em um congresso em Fortaleza. Ao final, ele a abraçou e disse: “Agora entendi sua decisão. Você escolheu a carreira certa para o seu perfil, minha neta.” Aquelas palavras lhe deram a certeza de que havia encontrado seu verdadeiro caminho.
Liderar é criar condições para que outros avancem
Ao longo da trajetória de Fernanda na universidade, as oportunidades de liderança surgiram de forma gradual. De 2018 a 2023, ela integrou o Comitê de Liderança do Planet Texas 2050, iniciativa interdisciplinar da UT, e o presidiu em 2020 e 2021. De 2019 a 2021, atuou como Provost Teaching Fellow em iniciativas de ensino e inovação acadêmica.
Em 2023, tornou-se vice-reitora associada de Pesquisa da Cockrell School of Engineering, passando a liderar o portfólio de pesquisa da engenharia e a trabalhar diretamente com cerca de 400 professores distribuídos em sete departamentos e 17 centros de pesquisa.
Fernanda assumiu interinamente a vice-presidência de Pesquisa da Universidade do Texas em Austin em agosto de 2025 e foi nomeada oficialmente para o cargo permanente em 2026. Hoje, lidera uma das maiores operações de pesquisa universitária dos Estados Unidos, responsável por um orçamento de mais de US$ 1,4 bilhão anuais em pesquisa. Cerca de 80% desses recursos são provenientes de agências federais americanas.
A executiva trabalha ao lado de pesquisadores dedicados ao fortalecimento de iniciativas em inteligência artificial, robótica, semicondutores, computação quântica, energia e saúde. Também apoia uma infraestrutura científica de classe mundial, que inclui o Texas Advanced Computing Center, responsável pelo maior supercomputador acadêmico do planeta.
Fernanda costuma dizer que convive diariamente com o equivalente intelectual de atletas olímpicos. São pessoas que dedicam décadas de suas vidas para atingir um nível de excelência que poucos conseguem alcançar. A diferença é que sua arena é o conhecimento. Essa convivência é uma fonte permanente de inspiração e humildade e reforça uma lição importante: os maiores avanços não nascem do brilhantismo individual, mas da capacidade de reunir pessoas extraordinárias em torno de um propósito comum.
Ao longo dessa jornada, compreendeu que liderança nunca significou ocupar um cargo. Para Fernanda, liderar é criar condições para que outras pessoas desenvolvam seu potencial. É construir equipes, conectar talentos, remover barreiras e gerar oportunidades para que ideias floresçam. Quanto maior a responsabilidade, maior também a necessidade de confiar nas pessoas e delegar.
Foi justamente a educação que moldou sua visão de liderança. O ambiente universitário lhe ensinou que perguntas são tão importantes quanto respostas e que ninguém produz conhecimento sozinho. Ao longo da carreira, Fernanda teve o privilégio de orientar mais de 20 doutorandos e aprendeu com todos eles. A universidade exige uma reinvenção contínua, e talvez seja isso que mais a fascine na vida acadêmica.
Fernanda também aprendeu que nenhuma trajetória é construída individualmente. Teve excelentes mentores, colegas que a desafiaram intelectualmente, estudantes que ampliaram sua maneira de pensar e equipes extraordinárias que transformaram ideias em realidade. Hoje, procura fazer o mesmo pelas pessoas com quem trabalha. Para ela, o papel de um líder é abrir portas e preparar outros para irem ainda mais longe do que ele próprio conseguiu chegar.
Essa filosofia também orienta o trabalho de Fernanda na universidade. Diferentemente do que ocorre em muitos ambientes corporativos, líderes acadêmicos não determinam prioridades de forma isolada. É preciso construir consensos, ouvir diferentes perspectivas e conectar pessoas e disciplinas em torno de objetivos comuns. Para ela, os desafios mais importantes da sociedade são complexos demais para serem resolvidos por uma única área do conhecimento. Liderar na academia significa criar as condições para que essa colaboração aconteça.
Uma trajetória reconhecida pela engenharia
Na American Society of Civil Engineers, Fernanda integrou o Comitê Executivo da Computing Division de 2020 a 2025 e o presidiu em 2023 e 2024. Também é editora associada do Journal of Computing in Civil Engineering. Em 2022, foi eleita Fellow, distinção concedida a apenas 3% dos membros da entidade.
E neste ano recebeu o Peurifoy Construction Research Award. Fernanda foi apenas a terceira docente da UT Austin a conquistar esse reconhecimento, considerado uma homenagem ao conjunto da carreira.
Representatividade também amplia horizontes
Ao longo dos últimos 25 anos, Fernanda testemunhou uma transformação importante na presença feminina na engenharia. Quando iniciou sua carreira, havia poucas professoras e poucas mulheres em posições de liderança. Hoje, esse cenário mudou significativamente. Em algumas áreas da engenharia da Universidade do Texas, as mulheres já representam metade dos estudantes.
Para Fernanda, esse avanço não aconteceu por acaso. É resultado de investimentos contínuos, oportunidades concretas e da presença de mulheres em posições de liderança, capazes de inspirar as próximas gerações.
Como mulher latino-americana, Fernanda viveu situações que reforçaram a importância da representatividade. Muitos estudantes latinos procuravam seu gabinete simplesmente porque se identificavam com ela. Nem sempre eram seus alunos, mas enxergavam em sua trajetória a possibilidade de também ocuparem aquele espaço. Momentos como esses mostram que liderar também significa ampliar horizontes para outras pessoas.
O tempo também precisa ser uma escolha
Outro aprendizado importante para Fernanda foi compreender que o tempo é um recurso verdadeiramente finito. Hoje, ela delega muito mais do que no início da carreira. Procura concentrar suas decisões naquilo que realmente exige sua atenção e confiar plenamente nas pessoas que trabalham com ela. Isso vale tanto para a vida profissional quanto para a pessoal.
Fernanda compartilha essa jornada com o marido, Daniel. Para ela, seria impossível exercer um cargo dessa magnitude sem o apoio e a parceria dele. Os dois são pais de Julia e dividem as responsabilidades familiares para que ambos possam desenvolver suas carreiras. Daniel também ocupa uma posição de liderança como diretor de pesquisa do Construction Industry Institute. Assim como no trabalho, o casal aprendeu que construir uma rede de apoio é fundamental para equilibrar responsabilidades e manter a qualidade de vida.
O cuidado com a saúde física e mental também faz parte dessa equação. Em algumas manhãs da semana, Fernanda vai à academia às seis horas. Nos finais de semana, gosta de jogar tênis. Esses momentos a ajudam a manter o equilíbrio necessário para exercer uma função de alta responsabilidade.
Quando atuava como professora, Fernanda media seu sucesso pela capacidade de abrir portas para os alunos. Ainda hoje, emociona-se ao receber mensagens sobre as conquistas profissionais deles. Cada sucesso de seus alunos lhe traz uma enorme satisfação.
Hoje, como líder da pesquisa de uma grande universidade, Fernanda continua movida pelo mesmo propósito, mas ampliou sua escala de atuação. Em vez de criar oportunidades para um grupo de estudantes, procura criar condições para que milhares de pesquisadores desenvolvam seu potencial e produzam conhecimento capaz de transformar a sociedade.
No fundo, continua perseguindo o mesmo objetivo que a inspira desde a infância: reunir pessoas talentosas em torno de um propósito comum e ajudá-las a construir algo maior do que conseguiriam realizar sozinhas.
Fonte: Link da fonte













