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Ciência: letras dos Beatles atraem atenção para estudos – 13/09/2026 – Marcelo Leite

Coisa de 23 anos atrás o jornalista e baterista Ricardo Bonalume Neto divertia a redação da Folha incorporando em comentários sobre a Guerra do Iraque algumas palavras esdrúxulas (como “sushi”) cantadas por seus vizinhos. Descobriu-se anos depois que pesquisadores do Karolinska, venerável instituto do Nobel em medicina, contrabandeavam letras de Bob Dylan em artigos científicos.

Parece bem mais fácil —do que compor (com) um sushi— bolar o título “Nitric oxide and inflammation: The answer is blowing in the wind” (óxido nítrico e inflamação: a resposta está soprando no vento), encaixando um verso da memorável canção.

Dylan figurava como uma das muletas mais usadas por cientistas para atrair atenção de leitores com referências de música popular, revelou Carl Gornitzki em 2015. Logo se evidenciou que os Beatles ganham de lavada do bardo, como reiteram Gabriel Budel, Robert E. Kooij e Michiel Tjepkema no periódico Plos One.

“Enquanto pesquisas anteriores identificavam aproximadamente 550 artigos acadêmicos relevantes [citando os Fab Four], nossa pesquisa no Scopus produziu 2.048 artigos contendo correspondências exatas dos títulos das músicas dos Beatles e 555 que usam jogos de palavras”, escrevem. “Além disso, encontramos 189 títulos de artigos que contêm um verso exato dos Beatles e 408 que incorporam jogos de palavras baseados nas letras.”

A canção mais referenciada é a chorosa “The Long and Winding Road”, com incríveis 798 menções. Um exemplo entre tantos surge em “Vaccines for Pseudomonas aeruginosa: A long and winding road” (vacina para Pseudomonas aeruginosa: um caminho longo e sinuoso).

Para os autores, a metáfora do trajeto comprido e cheio de curvas exprime a natureza do próprio processo científico, que avança por tentativas e erros em busca de resultados, ainda que provisórios: “Muitos dos fenômenos estudados na ciência são caracterizados por um desenvolvimento prolongado e imprevisível”.

A mesma ideia de dificuldade aparece figurada em canções como “With a Little Help from My Friends”, argumenta o artigo —cujo título, aliás, repete a fórmula com “How science gets by with a little help from the Beatles” (como a ciência segue em frente com uma pequena ajuda dos Beatles).

A inteligência artificial foi decisiva para ampliar o levantamento incluindo também trocadilhos e duplos sentidos, seja a partir de títulos de músicas ou de versos em suas letras. Os mais citados são “You say you want a revolution” (você diz querer uma revolução), “Come together, right now” (juntem-se, agora mesmo), e “Help! I need somebody” (socorro! preciso de alguém).

O verso seguinte a este último diz “not just anybody” (não qualquer um), que deu curso ao melhor trocadilho científico, na avaliação deste colunista: “Help! Not just any antibody” (socorro! não qualquer anticorpo).

Ciência também é cultura, inclusive a pop. E o que é conhecimento, se não um sushi em que a carne crua dos dados se apoia sobre a base sólida de grãos cultivados há milênios? Um longo e sinuoso caminho nos conduziu à civilização, senda que Trumps, Bukeles e Bolsonaros se empenham em destruir com vulgares guerras culturais —e outras nem tanto.


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