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O monge louco: as revelações da nova biografia de Rasputin

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A ascensão de Grigori Rasputin (1869-1916) como figura singular na história da Rússia imperial é um fato que sempre intrigou os historiadores. Camponês siberiano semianalfabeto e monarquista devotado, ele se converteu em confidente e referência espiritual da família que regia o país, os Romanov. O czar Nicolau II, visto como um monarca fraco e politicamente inábil, e a czarina Alexandra, que desprezava a corte de São Petersburgo, julgavam que Rasputin era sua ligação direta com Deus e com o povo russo. Mas o apelido de “monge louco” traduzia bem o desprezo da aristocracia local pelo místico pitoresco. Ainda assim, sem cargo oficial nem forças sob seu comando, ele acabou contribuindo como um ator político relevante para o colapso do maior regime autocrático do mundo à época.

De que maneira Rasputin, um simples strannik — como eram conhecidos os peregrinos errantes na Rússia da virada do século XIX para o XX —, desenvolveu a reputação de homem místico, conseguiu se imiscuir na família imperial e, ao mesmo tempo, acelerar sua queda? O historiador militar e escritor britânico Antony Beevor, famoso por obras que detalham grandes conflitos do século XX, como Stalingrado, Berlim 1945 e Rússia: Revolução e Guerra Civil 1917-1921, ilumina essa questão em Rasputin: The Downfall of the Romanovs, lançado recentemente no Reino Unido, Estados Unidos e Canadá. A versão brasileira, pelo selo Crítica, da editora Planeta, está prevista para chegar às livrarias em novembro.

Segundo a investigação de Beevor, Rasputin tinha uma capacidade incomum de se comunicar com as mulheres, o que o ajudou a encantar rapidamente a alta nobreza russa. Num ambiente extremamente rígido, as moças da elite ficaram fascinadas por sua presença. Alexandra era, nesse sentido, uma presa fácil. Criada pela avó, a rainha inglesa Vitória, ela tinha dificuldades de adaptação na corte — que desprezava, entre outros motivos, por considerar imoral. Isolada, desenvolveu uma religiosidade mórbida e sofria de enorme falta de empatia e imaginação, acreditando cegamente que a plebe russa a adorava.

RETRATO - Nicolau II e Alexandra com os filhos: misticismo abalou o clã imperial (Photo12/UIG/Getty Images)

Um incidente envolvendo o czarevich Alexei, herdeiro do trono e portador de hemofilia, cimentou a relação ao mesmo tempo dependente e destrutiva entre a czarina e Rasputin. O místico demonstrava habilidade inexplicável — talvez pelo efeito calmante de sua voz — de reduzir a febre e aliviar o sofrimento do garoto nas graves crises de sangramento. Em um episódio quase fatal na floresta de Spala, na Polônia, a mãe aflita pediu socorro, e ele enviou um telegrama afirmando que a criança sobreviveria. Como por milagre, Alexei se recuperou. Foi o que bastou para que a influência do monge se equiparasse à de um santo milagreiro.

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Com o tempo, Rasputin usou seu domínio sobre a czarina para interferir no governo da Rússia. Ele opinou sobre nomeações e estratégias militares e, sob sua influência, Alexandra demitiu governadores regionais e ministros que não lhe eram simpáticos. A rotatividade caótica de altos funcionários ficou conhecida na época como um “salto de ministros”. Enquanto isso, a vida dupla de Rasputin escandalizava a sociedade. Ele bebia demais e cometia abusos sexuais contra mulheres vulneráveis que o procuravam em busca de favores — daí a fama de ter certo dote, digamos, especial.

O que mais prejudicou a monarquia, porém, foi o mito construído em torno de sua relação com a família Romanov. Rumores espalharam-se pelo país: dizia-se que ele mantinha relações sexuais com a czarina e suas filhas e que a corrupção por ele patrocinada sugava as entranhas do império. Embora não tivesse relações físicas com a imperatriz, cartas vazadas em que Alexandra declarava devoção ardente a Rasputin — “quero adormecer para sempre em seu ombro” — convenceram o público do contrário.

QUEDA - Cena de Outubro, de Sergei Eisenstein: relação que nutriu a revolução
QUEDA - Cena de Outubro, de Sergei Eisenstein: relação que nutriu a revolução (Heritage Images/Getty Images)
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Numa sociedade profundamente machista e patriarcal, a imagem de um czar que permitia ser “traído” e controlado por um camponês destruiu a credibilidade de Nicolau II. O escândalo e a histeria coletiva afastaram os monarquistas e desmoralizaram tanto o Exército que, quando a revolução irrompeu nas ruas no inverno de 1917, praticamente nenhum oficial se dispôs a levantar uma espada em defesa dos Romanov — facilitando, assim, o colapso do império russo diante do comunismo de Lenin, depois mostrado com precisão por clássicos do cinema como Outubro, de Sergei Eisenstein.

A morte de Rasputin por envenenamento e um tiro no coração, em dezembro de 1916, orquestrada por monarquistas e supostamente executada pelo príncipe Felix Yusupov, tinha como objetivo afastá-lo dos Romanov e salvar o império. Não deu certo. Após abdicar do trono no início de 1917, o czar, a czarina e seus cinco filhos tiveram destino parecido com o de seu guia espiritual: foram mantidos prisioneiros até serem trucidados com fuzis e baionetas por um esquadrão bolchevique, na noite de 16 para 17 de julho de 1918, selando o fim da dinastia. O monge era mesmo um perigo.

Publicado em VEJA de 17 de abril de 2026, edição nº 2991

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