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A dor de perder um familiar por suicídio – 10/09/2026 – Saúde Mental

Há mais ou menos 20 anos perdi meu tio por suicídio. Não lembro exatamente a data, tento não guardar muita informação sobre isso. Lembro da ligação da minha irmã, de ir embora do estágio sem conseguir formar um pensamento, de chegar em casa e olhar para o rosto da minha mãe. Era o único irmão dela.

Minha irmã estava em casa. Meu pai, fora, resolvendo as questões burocráticas.

No velório, fiquei muito tempo sentada num banquinho lá fora. Não queria entrar. Até que tomei coragem e fiquei com a minha mãe e a minha avó. Agora só restavam elas da família que veio de Portugal nos anos 1950.

Na missa de sétimo dia, na igreja da Consolação, aqui na região central de São Paulo, foi a primeira vez que vi meu pai chorar na vida.

Desde que meu avô morreu, quando eu estava com 11 anos, meu tio tinha depressão. Provavelmente, muito antes disso. Mas foi um pouco depois da morte do meu avô que ele tentou pela primeira vez. Por um milagre, ficou vivo.

Depois dessa primeira tentativa, ele se tratou. Antes, ele trabalhava em um banco. Depois, foi trabalhar no escritório do meu pai.

E assim ele aparentou estar bem por muito tempo. Até que não estava mais.

A depressão piorou. Ele procurou outros médicos. Foi internado numa clínica psiquiátrica. Até que, como disse minha irmã no celular naquela tarde, “ele conseguiu fazer o que queria”.

Queria? Muitos psicólogos e psiquiatras dizem que as pessoas que tiram a própria vida não costumam desejar a morte. Mas sim interromper uma dor que não conseguem suportar mais.

Eu passei mais de dez anos sem saber como ele fez. Sabia que se eu tivesse essa informação sobre o método, a imagem não sairia da minha cabeça. Sempre que minha mãe começava a falar para alguém, geralmente para a minha irmã, que não entendia por que ele fez isso, eu saía de perto.

Até que um dia acabei ouvindo sem querer. Eu já tinha mais de 30 anos. Foi horrível, sofri como no primeiro dia.

Além do meu tio, perdi alguns colegas por suicídio. Todas as vezes que isso aconteceu, quando eu soube, foi como se na hora eu tivesse me transportado mentalmente para aquele dia nos anos 2000.

O luto por suicídio tem algumas particularidades. Por isso existe, além da prevenção do suicídio, a posvenção. É para os chamados “sobreviventes” do suicídio. Isso inclui tanto as pessoas que tentaram e sobreviveram quanto os familiares e amigos.

Existe um estigma social. No dia que meu tio morreu, eu desliguei o celular e uma colega do estágio viu que eu não estava bem, veio perto de mim e perguntou o que tinha acontecido. Com ela, veio uma chefe nossa. Eu disse: meu tio morreu. Elas perguntaram: como, o que aconteceu? Eu respondi que ele tinha se matado. Minha colega ficou ao meu lado sem saber o que dizer. A nossa chefe disse “credo!”, e virou as costas.

Meu tio sofria de depressão havia muitos anos. E as pessoas próximas da família sabiam disso. Mas há casos em que os amigos e os próprios familiares questionam os mais próximos se ninguém percebeu ou se não fez nada para impedir. É um luto que gera uma culpa.

Acontece que não tem como saber, não tem como impedir. Quando meu tio “fez o que ele queria”, ele estava internado em uma clínica psiquiátrica. Um lugar seguro, com supervisão 24 horas.

Eu perdi um tio. Algumas pessoas perderam um pai, uma mãe, um irmão, um filho. Essa dor nunca vai passar. O choque sempre volta quando a gente fica sabendo de outro caso. Nenhum de nós pôde adivinhar ou impedir. Mas podemos continuar vivendo. E tentando ser feliz por essa pessoa, que quis muito ser feliz, que tentou muito superar uma dor, mas não conseguiu.

Veja onde encontrar ajuda

CVV (Centro de Valorização da Vida)

Presta serviço voluntário e gratuito de apoio emocional e prevenção do suicídio para todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo e anonimato pelo site e telefone 188

cvv.org.br

Instituto Vita Alere de Prevenção e Posvenção do Suicídio

Oferece grupos de apoio aos enlutados e a familiares de pessoas com ideação suicida, cartilhas informativas sobre prevenção e posvenção e cursos para profissionais.

vitaalere.com.br

Abrases (Associação Brasileira dos Sobrevivente Enlutados por Suicídio)

Disponibiliza materiais informativos, como cartilhas e ebooks, e indica grupos de apoio em todas as regiões do país.

abrases.org.br


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