Açúcar foi tão crucial quanto carne na evolução humana – 09/08/2026 – Ciência

Os paleoantropólogos passaram algumas décadas destacando a importância da proteína e da gordura de origem animal para a evolução humana, mas um grupo de especialistas agora defende que é preciso adoçar um pouco essa história. Para eles, a busca por açúcar teria sido igualmente importante para moldar a nossa trajetória evolutiva.

A equipe cunhou até uma sigla para condensar a ideia. Trata-se da palavra inglesa “Sweet” (“Doce”), cujas letras correspondem à frase “os açúcares foram essenciais para a evolução também”). É com ela que o grupo liderado por Jennie Brand-Miller, da Universidade de Sydney, na Austrália, conclui seu artigo publicado na última quinta-feira (6) no periódico especializado Science.

O quarteto formado por Brand-Miller e seus colegas examinou o consumo desse tipo de molécula nas dietas de grandes primatas não humanos e populações tradicionais de hoje, bem como a maneira como os açúcares são metabolizados pelo organismo da nossa espécie e de seus parentes. Com isso, eles chegaram à conclusão de que a busca por essas substâncias na dieta foi uma peça-chave para o desenvolvimento do cérebro humano ao longo de milhões de anos, por exemplo.

O órgão, afinal de contas, é especialmente ávido por glicose (a forma “básica” do açúcar, empregada nas diferentes funções do metabolismo de energia do organismo), principalmente no caso de gestantes, dos fetos que elas carregam e das crianças.

Essa lista corresponde às fases da vida mais importantes para o sucesso reprodutivo de mamíferos como nós, e, portanto, são um dos alvos preferenciais do processo de seleção natural, cuja chave é o favorecimento de quem consegue deixar mais descendentes.

Desde meados do século passado, a descoberta de instrumentos de pedra em sítios arqueológicos da África Oriental, alguns dos quais associados a ossos de animais de grande porte, levaram os cientistas a postular que os usuários dessas ferramentas (em muitos casos, membros primitivos do gênero Homo, o mesmo ao qual pertencemos) passaram a intensificar práticas de caça ou de obtenção da carne de herbívoros caçados por grandes predadores.

Como há uma correlação entre essas pistas e o momento em que o cérebro desses ancestrais começa a ficar maior que o de um chimpanzé atual (em torno de 2 milhões de anos atrás), surgiu a ideia de que as novas habilidades de caçador (e/ou carniceiro) teria trazido recursos alimentares que propiciaram o desenvolvimento cerebral.

Segundo essa visão, tanto a proteína quanto a gordura da carne, bem como o rico tutano, também gorduroso, presente na medula dos ossos, seriam acessados com mais facilidade e frequência graças à disponibilidade dos instrumentos de pedra.

A ideia foi complementada por estudos sobre as caçadas conduzidas por chimpanzés. Embora se alimentem principalmente de frutas, esses primos da humanidade também adotam métodos cooperativos para capturar macacos de pequeno porte (sem parentesco próximo com eles), filhotes de antílopes e outros animais.

Todos esses dados são relevantes, concordam os autores da nova pesquisa, mas é preciso complementá-los com o outro lado da moeda: dietas muito pobres em açúcares e totalmente focadas em alimentos de origem animal costumam ser problemáticas para a maioria dos seres humanos, em especial por causa das necessidades de glicose do cérebro.

Acontece que, embora existam mecanismos do organismo que viabilizam a transformação de proteínas e gorduras em glicose, trata-se de um processo relativamente lento e ineficiente, que consume quantidades consideráveis de energia. Além disso, dietas muito pobres em açúcares parecem ter efeitos negativos sobre a cognição de adultos e afetar o desenvolvimento cerebral de fetos, por exemplo.

Essas necessidades, para os pesquisadores, moldaram as estratégias de obtenção de alimentos dos grupos mais recentes de caçadores-coletores e de seus ancestrais desde o surgimento da linhagem humana, levando à continuidade da coleta de frutas em todos os ambientes nos quais isso fosse possível, à busca por fontes de mel (antes do surgimento da produção de açúcar, uma das fontes mais ricas de nutrientes desse tipo) e, talvez principalmente, ao processamento de diferentes formas de amido.

De fato, para os pesquisadores, embora o uso de instrumentos de pedra tenha sido importante na obtenção de proteína e gordura animal, essas mesmas ferramentas também ajudaram os ancestrais da humanidade a preparar para o consumo raízes, tubérculos e sementes ricos em carboidratos.

A capacidade de macerar essas fontes de amido, somada, por volta de 1 milhão de anos atrás, ao domínio do fogo e do cozimento, viabilizou a obtenção de açúcares a partir dessa via. Isso ficaria ainda mais disponível quando o cultivo de cereais e outras plantas surgiu, após o fim da Era do Gelo, há cerca de 10 mil anos.

Segundo os cálculos de Jennie Brand-Miller e seus colegas, enquanto os primeiros hominínios obteriam cerca de 65% de suas necessidades energéticas a partir do consumo de frutas e outros alimentos doces, a proporção caiu para 25% nos seres humanos modernos –ainda assim superior à energia advinda de proteínas, em torno de 19%.

sem a presença de fibras e demais nutrientes ingeridos com as frutas in natura.

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