Adaptação de clássico da fantasia corrige erros de versões anteriores

Quase seis décadas depois de redefinir a literatura de fantasia, O Feiticeiro de Terramar — clássico que Ursula K. Le Guin publicou originalmente em 1968 — ganha nova vida em forma de graphic novel. Lançada no Brasil pela Suma Editorial, a obra não é uma “modernização” da história, mas uma tradução fiel do denso romance para a linguagem dos quadrinhos. Feita em parceria com Theo Downes-Le Guin, filho e executor literário da autora, e ilustrada pelo britânico Fred Fordham, a adaptação resgata a visão original de Le Guin e corrige um longo histórico de distorções visuais ao apresentar o jovem mago Ged a uma nova geração de leitores, em páginas construídas quase inteiramente em aquarela.

O projeto, porém, começou com outro livro em mente. Theo Downes-Le Guin procurou Fordham inicialmente para propor uma adaptação de Os Despossuídos, cujas críticas ao capitalismo e ao nacionalismo pareciam mais urgentes do que nunca. Os desafios financeiros e práticos de ilustrar o vasto universo daquela distopia, no entanto, fizeram com que Terramar surgisse como ponto de partida mais viável. Ao longo dos três anos seguintes de trabalho conjunto, família e artista mantiveram uma regra inegociável: jamais “reimaginar” ou alterar o tom e os temas centrais da obra original — diferença que já separa este projeto de outras adaptações que tomaram liberdades criativas com o material de origem.

Páginas da edição americana de ‘O Feiticeiro de Terramar’: aquarelas, grandes cenas e poucos diálogos – (Fred Fordham/Divulgação)

Transpor a atmosfera mítica do arquipélago para o papel exigiu que Fordham reinventasse seu próprio processo. O ponto de virada veio por sugestão de sua parceira, Camille Johnston: abandonar de vez as tradicionais linhas de contorno. Nasceu daí um estilo de aquarela digital sem linhas — orgânico, quase líquido —, que dispensa qualquer uso de inteligência artificial e captura com precisão a imensidão do mar, elemento central da história. Em várias páginas duplas, Fordham abre mão de texto e narração, deixando que cenas grandiosas, como a batalha contra os dragões no mar de Pendor, comuniquem sozinhas a jornada e o isolamento do protagonista.

É na representação, porém, que a nova edição mais se distancia das versões anteriores. A minissérie do Sci-Fi Channel, de 2004, e a animação do Studio Ghibli, de 2006, fracassaram em capturar a essência do livro e foram duramente criticadas pela própria Le Guin — sobretudo pelo whitewashing de seus personagens. Em 1968, a autora já havia subvertido os clichês da fantasia heroica ao criar um mundo majoritariamente povoado por pessoas de pele negra, reservando a pele clara apenas aos Kargish, os cruéis guerreiros invasores. A graphic novel repara essa injustiça de décadas: Ged é finalmente ilustrado como Le Guin o escreveu, um jovem de pele negra.

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Ao equilibrar a poesia do texto original com uma leitura dinâmica e acessível, Fordham entrega o que parece ser a adaptação definitiva que a obra de Le Guin sempre mereceu — algo que nem Hollywood nem a animação japonesa haviam conseguido antes. Para os leitores que já conhecem Terramar e para quem chega até ele agora pela primeira vez, o resultado consolida a história atemporal de um jovem mago que precisa enfrentar a própria sombra para restaurar o equilíbrio do mundo.

Capa do livro O Feiticeiro de Terramar em Quadrinhos, com um personagem de costas, em silhueta escura, sobre uma coluna alta e fina, observando o mar agitado com ondas brancas e espumosas. O céu é bege claro e o mar, verde-azulado escuro. No topo, os nomes Ursula K. Le Guin e Fred Fordham. Na parte inferior, o título em letras douradas
O FEITICEIRO DE TERRAMAR EM QUADRINHOS, de Fred Fordham. Tradução: Angélica Andrade. Editora: Suma. Páginas: 288. Preço: 107,90 reais e 59,90 (e-book) – (Suma Editorial/Divulgação)

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