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Após liderar o boom da inteligência artificial, a Nvidia enfrenta a ameaça da concorrência

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Em apenas seis semanas, a fabricante americana de chips Nvidia perdeu 1 trilhão de dólares em valor de mercado, recuando de 5,7 trilhões para 4,7 trilhões — o equivalente a uma queda de 18%. Embora ainda seja a empresa mais valiosa do mundo, o revés mostra a mudança de forças em curso no mercado de inteligência artificial (IA). Criada na Califórnia em 1993, a Nvidia cresceu produzindo GPUs, um tipo de chip de processamento gráfico cuja demanda explodiu com a popularização dos jogos on-line nos anos seguintes. A rapidez com que realizam cálculos complexos tornou as GPUs ideais também para o treinamento de IAs, e com isso a Nvidia ganhou um novo impulso, até se tornar a ação favorita de Wall Street. Mas como sabe todo aluno que estuda para uma prova, não basta aprender rapidamente — é necessário também lembrar o que aprendeu. A mesma lógica serve para a IA, pois os chips que aceleram seu aprendizado são diferentes dos que o armazenam e o aplicam em situações concretas. Tais componentes são desenvolvidos por outras empresas que agora dividem com a Nvidia a atenção dos investidores, à medida que o foco se desloca da criação de IAs para as aplicações práticas. “O mercado passou a olhar para outros elos que compõem a cadeia da IA”, diz William Castro Alves, estrategista-chefe da corretora Avenue.

É nesse contexto que a também americana Micron Technology desponta como a nova aposta dos financistas. Embora tenha sido fundada em 1978 — muito antes, portanto, da Nvidia —, a companhia só ganhou os holofotes neste ano, ao deter uma posição estratégica no mercado de memórias para IAs. No mesmo período em que a Nvidia sofreu na bolsa americana, as ações da Micron escalaram 46%, aumentando seu valor de mercado para mais de 1 trilhão de dólares. A alta foi impulsionada por resultados concretos. Segundo o banco suíço UBS, as vendas globais de chips de memória alcançaram 75 bilhões de dólares em junho, cravando o novo recorde mensal e beneficiando a Micron e as coreanas Samsung e SK Hynix. Entre os componentes com maior procura, estão as memórias de alta largura de banda (HBM, na sigla em inglês), essenciais para ferramentas como o ChatGPT e o DeepSeek.

A forte demanda deve dobrar o preço dessas memórias em um ano, segundo os analistas, o que favorecerá ainda mais a Micron, uma das principais fabricantes de HBMs do mundo. Atenta ao mercado, a Micron investirá 250 bilhões de dólares na expansão de sua capacidade de produção. “A demanda por memórias está em um nível sem precedentes”, afirmou o presidente da companhia, Sanjay Mehrotra, ao anunciar os novos planos. A iniciativa foi bem recebida pelos investidores. “O grande gargalo da IA é a memória”, diz João Piccioni, fundador da casa de análise Capital Pulse. “A Micron se encaixa perfeitamente nesse cenário.”

Além disso, gigantes do Vale do Silício procuram reduzir sua dependência da Nvidia por meio do desenvolvimento de chips próprios de IA. É o caso da Meta, dona da rede social Facebook, que planeja iniciar em setembro a produção de um chip personalizado de IA, como parte de um investimento total de 145 bilhões de dólares com vistas a dobrar sua capacidade computacional no ano que vem. No mês passado, a Alphabet, que controla o Google, se uniu à Intel para desenvolver seu próprio processador. Há algumas semanas, a Anthropic, responsável pelo Claude — a IA que é a nova sensação do mercado —, sondou a Samsung com o propósito de criar seu próprio chip. Algumas empresas planejam competir com a Nvidia, como a Amazon, que pretende vender seu chip, o Trainium, para data centers que hospedam as ferramentas de IA, um filão hoje dominado pela rival.

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VENTO A FAVOR - Mehrotra, da Micron: demanda sem precedentes por processador de memória para IA (Kyle Green/Bloomberg/Getty Images)

Essas iniciativas deixam os investidores apreensivos sobre o futuro da empresa fundada por Jensen Huang. Ninguém está sugerindo, é claro, que a Nvidia caminha para a ruína, mas sua capacidade de reagir ditará o quanto Wall Street ainda apostará nela. Para acalmar o mercado, a empresa promete que dois novos processadores de IA — o Blackwell e o Rubin — devem gerar vendas de 1 trilhão de dólares, dos quais metade neste ano e o restante em 2027. O obstáculo é que esses chips abastecem principalmente data centers, e analistas duvidam que a expansão da infraestrutura global seja suficiente para absorver uma demanda dessa magnitude. Para uma empresa que cresceu fornecendo chips para videogames, está difícil virar o jogo e vencer o ceticismo do mercado.

Publicado em VEJA de 17 de julho de 2026, edição nº 3004

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