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Em celebração aos 250 anos de John Constable, o British Museum apresenta ‘Vistas da Natureza’, expondo sua obra revolucionária. Pioneiro na pintura ao ar livre e precursor do Impressionismo, o artista inglês explorou a natureza com obsessão científica, capturando fenômenos como o arco-íris e as nuvens com fidelidade.
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Localizada no leste da Inglaterra, uma área de visual idílico, batizada originalmente como Vale de Dedham, é conhecida hoje por um apelido especial: The Constable Country, ou Terra de Constable, em português. Situada entre os condados de Suffolk e Essex, a região foi rebatizada na linguagem popular em homenagem ao pintor inglês John Constable (1776-1837), que fez da paisagem local sua musa inspiradora. Para celebrar os 250 anos do nascimento do artista e exaltar sua relação íntima e revolucionária com a pintura ao ar livre, o British Museum, em Londres, expõe até o início de outubro a mostra John Constable: Vistas da Natureza. “Quando me sento para criar um esboço de uma paisagem, a primeira coisa que tento fazer é esquecer que já vi um quadro”, contou ele certa vez, exemplificando sua dedicação incessante em representar o ambiente com fidelidade não só visual, mas também emocional.
A mostra apresenta ao público um acervo que chegou ao museu em 1888, doado pela filha do artista, Isabel. Esse tesouro familiar oferece uma visão abrangente da produção de Constable no final de sua carreira, incluindo esboços elaborados, pinturas preparatórias para composições a óleo e estudos revolucionários sobre o retrato de fenômenos como o arco-íris e o movimento das nuvens, todos feitos entre as décadas de 1820 e 1830. Um dos destaques é a aquarela A Cabana de Willy Lott, que reproduz, em um ângulo original, o casebre ladeado por um riacho eternizado na célebre tela O Cavalo Branco — uma das primeiras obras do artista a retratar a região que hoje leva o seu sobrenome.
Representante ilustre do romantismo inglês, Constable foi um dos primeiros artistas a se livrar das amarras físicas dos estúdios, determinado a explorar o mundo real em sua totalidade. Mais tarde, a pintura ao ar livre virou regra na Escola de Barbizon e no impressionismo, o que fez com que ele fosse, muitas vezes, reverenciado como uma espécie de avô do movimento popularizado pelos franceses Claude Monet e Pierre-Auguste Renoir. Boa parte dessa fama deve-se à dedicação quase obsessiva do artista em entender os fenômenos naturais. Isso pode ser visto na obra em que ele registra um arco-íris duplo, que aparece diversas vezes em seus estudos. A pintura, inclusive, retrata um efeito ainda mais raro, a chamada roda do arco-íris, quando um raio anticrepuscular intercepta o fenômeno óptico. No livro John Constable’s Skies: A Fusion of Art and Science (Os Céus de John Constable: Uma Fusão de Arte e Ciência, em tradução livre), o meteorologista John Thornes atesta que a aquarela de Constable é, possivelmente, o registro visual mais antigo do fenômeno. Outra obstinação eram as nuvens e tempestades. “O paisagista que não faz do céu uma parte essencial da sua composição, deixa de aproveitar um dos seus maiores recursos”, escreveu ele em uma carta ao biógrafo John Fisher, em 1821.

O trabalho exigia, é claro, dedicação: para compreender a fundo a natureza, o pintor costumava sair para traçar estudos rápidos do céu, concentrando-se nas nuvens, na luz e na atmosfera. No verso da folha, anotava informações sobre a hora, o dia e as condições climáticas daquele momento. Além da própria observação, recorria à literatura científica, dando atenção especial ao trabalho de meteorologistas. “A sensibilidade de Constable para com os efeitos atmosféricos e o potencial poético da natureza remodelou a tradição da paisagem britânica”, diz o texto da exposição.

Apesar disso, Constable só fez sucesso em sua terra natal depois de morto. Durante a carreira, quase não vendeu seus quadros, dedicando-se, contra a vontade, a retratos que garantiam o ganha-pão. Chegou, inclusive, a dizer, com ironia, que suas obras eram tão “limitadas” e ligadas ao cotidiano que ninguém tinha interesse em pagar por elas. Na França, no entanto, encontrou reconhecimento: em 1824, exibiu suas pinturas no Salão de Paris, causando tamanha comoção que ganhou até uma medalha da realeza. O aclamado Eugène Delacroix (1798-1863) ficou tão impressionado que, depois de visitar a exposição, modificou parte de sua obra-prima, o quadro O Massacre de Quio. Em seus diários, o francês relatou que o contemporâneo inglês abriu-lhe os olhos para novas possibilidades no tratamento das cores e da atmosfera. O mestre das paisagens conhecia, especialmente, a beleza do céu.
Publicado em VEJA de 12 de junho de 2026, edição nº 2999
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