Para congressistas americanos, o futuro radiotelescópio Bingo é parte de um esforço da China para usar infraestruturas na América Latina para coleta de inteligência, vigilância e fortalecimento para possíveis guerras futuras. Mas um dos líderes do projeto no Brasil rechaça isso.
“Não vejo muito sentido nessa paranoia americana [em relação ao Bingo]”, disse à Folha o cientista Carlos Alexandre Wuensche, do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), uma das pessoas à frente do projeto.
Em desenvolvimento, Bingo será o maior radiotelescópio da América Latina. Sua instalação ocorre na pequena Aguiar, cidade no sertão da Paraíba. A expectativa é que possa começar a captar ruídos do Universo até o fim deste ano e passar a funcionar plenamente em 2027.
Reportagem da Reuters do fim de 2025 apontou que, segundo a CETC (China Electronics Technology Group Corporation), a empresa chinesa estatal para eletrônicos de defesa, o Bingo poderá rastrear satélites e outros pequenos corpos, podendo ajudar a identificar potenciais ameaças de objetos próximos à Terra.
Wuensche afirma que o radiotelescópio não poderá se mover de forma significativa e olhará somente para uma faixa de céu. “Ele olha o que passa na frente. Se passar na frente, eu vejo. Se não passar, eu não vejo. Então, falar que tem uso militar não faz sentido. Qualquer radiotelescópio vai ter uso militar se você quiser apontar para rastrear um míssil, uma sonda, um satélite. O Bingo não pode rastrear, então o uso militar dele é limitado, bem limitado.”
O radiotelescópio é um projeto com liderança brasileira e tem colaboração chinesa. Segundo o pesquisador, o orçamento total do projeto ultrapassa R$ 35 milhões e o investimento do país asiático é estimado em R$ 300 mil.
Ainda de acordo com Wuensche, a China foi contratada para um projeto específico desenhado dentro do Brasil. “Demos um projeto para eles desenvolverem e fomos fazer lá porque era mais barato do que aqui.”
Ele afirma também que nenhum componente chinês utilizado no projeto é secreto e que os dados gerados são trocados entre os dois países. Estes últimos, após a publicação de artigos científicos, tornam-se públicos.
“Está mal informado [o relatório]. Várias coisas mencionadas ali são incorretas. Vem do Congresso americano, está nesta época complicada. Mas não tem grandes consequências, até porque não estamos fazendo nada escondido, sem acesso público. Todo material que fizemos está publicado em revista científica.”
O relatório norte-americano
Segundo o documento “Atraindo a América Latina para a órbita da China”, publicado em fevereiro deste ano, o investimento e a participação chinesa em projetos espaciais latino-americanos não são somente projetos científicos isolados.
“Na verdade, esses locais formam uma rede integrada de uso duplo que fortalece a capacidade da China de monitorar, controlar e potencialmente interromper operações espaciais e militares de adversários”, aponta o relatório.
Os americanos sugerem que a China conseguiu acesso a uma extensa rede de infraestrutura espacial de uso duplo na América Latina, com pelo menos 11 instalações espaciais, compostas de estações terrestres, radiotelescópios e estações de telemetria laser de satélites situadas na Argentina, Venezuela, Bolívia, Chile e Brasil.
De acordo com o texto, as instalações, conjuntamente, proporcionam vigilância global quase contínua e podem ser importantes para operações contraespaciais e orientação para sistemas avançados de armas.
Radiotelescópio Bingo

Como estava em março deste ano a área que abrigará o radiotelescópio Bingo, em Aguiar, na Paraíba; e como deve ficar quando tudo estiver pronto
– Divulgação; montagem/Ramon Nunes
Nos tempos atuais, continua o relatório, controle de infraestrutura espacial é essencial para eficácia militar e poder nacional. Isso se daria porque a segurança global e econômica passaria por tal infraestrutura, com satélites sendo os responsáveis por comunicação, navegação, sensoriamento remoto e transmissão de dados.
“Ao oferecer a outros países o uso de suas redes de satélites, serviços de lançamento e infraestrutura espacial, a China aumenta a resiliência e a cobertura global de sua arquitetura espacial”, diz o documento americano.
Com as instalações no exterior, a China aumentaria seu potencial de rastreamento e controle espacial, diz o texto. “Ao mesmo tempo, isso atrai os países parceiros mais profundamente para seu ecossistema tecnológico, criando dependências estratégicas e econômicas de longo prazo em relação à tecnologia chinesa.”
O relatório cita três projetos na Argentina, dois na Venezuela, dois na Bolívia, dois no Chile e outros dois no Brasil.
Em maio, reportagem do jornal The New York Times mostrou que americanos pressionaram Argentina e Chile para barrar projetos de telescópios chineses.
O outro projeto brasileiro seria um local chamado de Estação Terrestre Tucano. Em resposta a questionamentos sobre o tema da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara dos Deputados, o ministro das Relações Exteriores, em 18 de março, Mauro Vieira, afirmou que tal estação não existe.
“Não há uma construção, um contrato, uma infraestrutura, não há operação. O que existe é um projeto de uma empresa privada brasileira denominada Alya Space, que planeja desenvolver seis estações de solo que proveriam canal de comunicação espaço-terra para satélites, uma delas em Tucano, na Bahia”, disse Vieira. “Nenhuma das seis saiu do papel.”
“O relatório trata de cooperação científica brasileira com suspeição e desconhecimento técnico, avalizando um viés geopolítico ultrapassado segundo o qual a América Latina e o Caribe seriam mero quintal ou áreas de influência dos Estados Unidos”, afirmou Vieira.
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