Bolha de IA? Economistas do BCE alertam para correção das ações de tecnologia nos EUA

A disparada das ações ligadas à inteligência artificial pode estar próxima de um ponto de inflexão. Economistas do Banco Central Europeu (BCE) afirmam que uma correção nos papéis de tecnologia dos Estados Unidos é provável. E alertam que uma queda forte em Wall Street poderia ultrapassar os mercados financeiros e se transformar em um problema de estabilidade para a economia europeia.

O alerta foi publicado nesta segunda-feira (17) no blog oficial do BCE, em uma análise assinada por cinco economistas da instituição.

O texto não prevê quando uma eventual queda ocorreria nem afirma que a inteligência artificial seja uma bolha.

O argumento é mais incômodo: mesmo que a IA cumpra as promessas de aumento de produtividade e lucro, as ações podem estar caras demais e ainda assim sofrer uma correção relevante.

A preocupação ganhou peso porque a alta recente das bolsas americanas está fortemente concentrada em um pequeno grupo de empresas. Nvidia, Microsoft, Apple, Amazon, Alphabet, Meta e Tesla, conhecidas como Magnificent Seven, representam uma parcela enorme do valor do mercado americano e estão entre as principais beneficiárias da corrida pela inteligência artificial.

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O BCE já vinha acompanhando esse risco. Em seu relatório de estabilidade financeira publicado em maio, a instituição destacou que os múltiplos das empresas de tecnologia e IA permaneciam historicamente elevados e que os fundos europeus estavam particularmente expostos às ações americanas.

Por que uma queda nos EUA preocupa a Europa

O problema para a Europa não está apenas em Wall Street.

Segundo os economistas do BCE, as famílias da zona do euro têm cerca de € 440 bilhões aplicados em ações de empresas americanas de tecnologia, principalmente por meio de fundos de investimento. Seguradoras e fundos de pensão também possuem posições relevantes nesses papéis.

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Isso significa que uma desvalorização das gigantes de tecnologia poderia reduzir diretamente o patrimônio de investidores europeus.

Existe ainda um segundo canal de transmissão. Os mercados acionários dos Estados Unidos e da Europa costumam se movimentar na mesma direção. Uma onda de vendas em Nova York poderia, portanto, provocar perdas também nas bolsas europeias, encarecer o financiamento das empresas e reduzir a confiança de consumidores e investidores.

O próprio BCE identificou em maio uma crescente sensibilidade dos fundos europeus às ações de tecnologia americanas. Segundo o banco, esses fundos respondem de forma mais intensa a mudanças nas condições financeiras, no cenário macroeconômico e no apetite global por risco, o que aumenta a possibilidade de reversões rápidas dos fluxos de capital.

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A aposta em IA criou uma concentração incomum

A valorização das empresas de tecnologia não é necessariamente irracional, segundo o BCE. Esse é justamente um dos pontos centrais da análise.

As grandes companhias americanas têm apresentado crescimento expressivo de receitas e lucros e possuem muito mais caixa e capacidade de investimento do que as empresas que protagonizaram a bolha das pontocom no fim dos anos 1990.

A comparação com aquele período, portanto, tem limites.

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Em análise publicada anteriormente, o próprio BCE observou que as sete maiores empresas de tecnologia americanas possuem margens de lucro muito superiores às registradas pelas empresas de tecnologia típicas da época da bolha da internet. Além disso, as gigantes atuais têm posições dominantes em mercados como computação em nuvem, publicidade digital, sistemas operacionais, chips e inteligência artificial.

O problema é que justamente essas características fizeram a concentração aumentar.

No fim de 2025, as Magnificent Seven já respondiam por cerca de 30% da capitalização do S&P 500, segundo o BCE. A concentração é significativamente maior do que a observada no mercado europeu.

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Em março deste ano, o BCE estimava que as sete empresas representavam aproximadamente 40% do S&P 500. Na Europa, por comparação, as companhias de tecnologia têm peso muito menor nos principais índices.

O paradoxo: a IA pode dar certo e as ações mesmo assim cair

É nesse ponto que a análise dos economistas do BCE se distancia do discurso tradicional sobre uma eventual bolha.

Uma empresa que desenvolve uma tecnologia revolucionária pode apresentar um potencial extraordinário de crescimento nos primeiros anos.

Como é difícil prever até onde a inovação chegará, investidores estão dispostos a pagar preços elevados por ações que oferecem a possibilidade de ganhos muito grandes.

A incerteza funciona, nesse estágio, como uma espécie de prêmio.

O problema muda quando a tecnologia deixa de ser uma promessa restrita a algumas companhias e começa a se espalhar pela economia.

Nesse momento, o risco deixa de estar concentrado apenas em saber qual empresa será vencedora.

Passa a envolver a própria capacidade da economia de absorver a nova tecnologia, gerar produtividade, transformar investimentos em lucro e sustentar o ritmo de expansão esperado.

Esse risco é muito mais difícil de diversificar.

Por isso, os economistas do BCE argumentam que os investidores podem exigir um prêmio de risco maior à medida que a IA se torna mais disseminada. Se isso acontecer, os preços das ações podem cair mesmo com lucros maiores.

Em outras palavras: a tecnologia pode ser um sucesso e o investimento em suas empresas ainda assim passar por uma correção.

O fantasma da bolha das pontocom

O BCE compara o atual ciclo de investimentos em IA com outras grandes ondas tecnológicas da história.

O boom das ferrovias no século 19, a expansão da eletricidade e do rádio nas primeiras décadas do século 20 e a internet nos anos 1990 produziram fenômenos semelhantes. Uma tecnologia realmente transformadora atraiu enormes volumes de capital, elevou as expectativas e fez disparar o valor das empresas associadas à inovação.

Em seguida, vieram períodos de forte ajuste.

A analogia com a internet é especialmente inevitável.

Durante a bolha das pontocom, empresas relacionadas à nova economia alcançaram avaliações muito superiores à capacidade de geração de receita e lucro. Quando as expectativas começaram a ser revistas, a queda foi brutal.

A diferença é que o atual boom de IA está muito mais concentrado em empresas grandes, lucrativas e com balanços robustos. O BCE já destacou essa diferença em análises anteriores.

Ainda assim, concentração elevada pode amplificar movimentos de mercado.

Quanto dinheiro está sendo colocado na inteligência artificial

O tamanho dos investimentos ajuda a explicar por que uma eventual correção teria efeitos mais amplos.

Microsoft, Alphabet, Amazon e Meta estão gastando centenas de bilhões de dólares em infraestrutura, principalmente data centers, chips e sistemas necessários para treinar e operar modelos de inteligência artificial.

A expectativa é que o investimento conjunto das quatro empresas ultrapasse US$ 750 bilhões em 2026.

Esse ciclo alimenta uma cadeia que vai muito além das próprias empresas de software.

Fabricantes de chips, empresas de servidores, fornecedores de energia, operadoras de data centers, companhias de refrigeração e equipamentos elétricos também estão se beneficiando da corrida.

Nvidia tornou-se o principal símbolo desse movimento. A empresa fornece os processadores utilizados para treinar e executar grande parte dos sistemas de IA e passou a ocupar uma posição central nas expectativas dos investidores.

O risco, portanto, não está limitado às ações de uma única empresa.

O mercado já mostrou que pode mudar de direção rapidamente

A preocupação do BCE aparece depois de episódios recentes de volatilidade nas ações de tecnologia.

O Nasdaq 100 sofreu uma forte realização em julho, antes de recuperar boa parte das perdas e voltar para perto de seu recorde.

A recuperação reforçou a disposição dos investidores de continuar apostando na IA, mas também mostrou a rapidez com que o mercado pode mudar de direção.

Nas últimas semanas, a bolsa americana voltou a registrar máximas históricas, sustentada em grande parte pela expectativa de crescimento dos lucros das empresas ligadas à inteligência artificial.

O movimento ocorre apesar de sinais de maior cautela em alguns segmentos do mercado.

Para os economistas do BCE, essa combinação aumenta a importância de acompanhar não apenas os lucros atuais, mas também as expectativas embutidas nos preços.

O risco não é necessariamente uma repetição de 2000

A comparação com a bolha das pontocom pode ser útil, mas não deve ser tomada como uma previsão de repetição da história.

Em 2000, grande parte das empresas mais valorizadas tinha pouca ou nenhuma capacidade de gerar lucro. Atualmente, empresas como Microsoft, Alphabet, Amazon, Meta e Nvidia possuem negócios gigantescos e receitas reais.

O próprio BCE reconhece essa diferença.

O problema é que uma empresa pode ser excelente e ainda assim estar supervalorizada.

Uma ação comprada a um preço muito elevado pode cair mesmo que os lucros continuem crescendo, caso o mercado conclua que esses resultados não serão suficientes para justificar a avaliação atual.

É justamente esse cenário que os economistas consideram possível.

E se os investidores estiverem exagerando?

Há ainda um cenário mais agressivo.

Se parte dos investidores estiver comprando ações de IA simplesmente porque acredita que os preços continuarão subindo, uma mudança de humor poderia produzir uma queda muito maior.

O BCE afirma que investidores excessivamente confiantes podem levar os preços para níveis acima dos fundamentos econômicos. Quando essa confiança desaparece, a correção tende a ser mais intensa.

A instituição, entretanto, não afirma que esse seja necessariamente o cenário atual. O texto ressalta que as ações ainda podem subir mais caso a inteligência artificial provoque uma transformação econômica maior do que a atualmente incorporada aos preços.

O problema é que ninguém consegue saber antecipadamente em que ponto do ciclo está.

O perigo para a Europa é maior do que parece

A exposição europeia torna o alerta especialmente relevante para o BCE.

Em maio, o banco já havia mostrado que os investimentos europeus em ações americanas cresceram muito na última década.

As posições em ações dos Estados Unidos quadruplicaram no período, enquanto as aplicações totais em ações apenas dobraram.

Cerca de 70% do aumento das posições europeias em ações americanas entre 2015 e 2025 veio da valorização dos ativos, e os 30% restantes foram resultado de novas compras.

Isso cria uma vulnerabilidade adicional.

Uma queda expressiva em Wall Street reduziria o patrimônio dos investidores europeus. Se o movimento fosse acompanhado por deterioração das condições de financiamento, menor confiança e queda dos investimentos, o impacto poderia chegar à economia real.

O BCE considera especialmente preocupante um cenário em que uma correção das ações venha acompanhada de instabilidade mais ampla nos mercados financeiros.

Ainda não há como saber quando virá a correção

O alerta do BCE não equivale a uma previsão de queda imediata.

Os próprios autores reconhecem que ciclos de valorização e colapso só ficam claros depois que acontecem.

Antes disso, é impossível determinar com precisão se o mercado está diante de uma bolha prestes a estourar ou de uma tecnologia cujo potencial ainda não foi totalmente incorporado aos preços.

Essa ressalva é importante porque a inteligência artificial continua apresentando avanços rápidos e atraindo investimentos gigantescos.

O ponto central do BCE é outro: quanto maior a concentração e mais elevadas as expectativas, maior o impacto potencial de uma frustração.

Para a Europa, o risco é ainda maior porque boa parte dessa aposta está em empresas americanas.

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