O uso de contas bancárias em nome de terceiros para movimentar dinheiro e dificultar a identificação de fraudadores ganhou escala no Brasil. Ao longo de 2026, 873.816 cadastros utilizados como “contas laranja” foram identificados no país, segundo levantamento da Quod, empresa especializada em inteligência de dados para o mercado de crédito.
Os registros estavam associados a 314.729 documentos fraudulentos. A diferença entre os números indica que um mesmo CPF podia estar relacionado a uma ou mais contas mantidas em diferentes instituições financeiras para a aplicação de fraudes.
A maior concentração dos casos está no Sudeste. São Paulo sozinho responde por 33,58% dos registros, seguido por Rio de Janeiro, com 14,35%, e Minas Gerais, com 6,54%. Os dados fazem parte do RUFRA (Registro ou Repositório Unificado de Fraudes), base da Quod compartilhada pelo mercado financeiro. O levantamento também traçou o perfil das pessoas cujos dados são utilizados para a abertura dessas contas, seja pela cessão das informações, inclusive em troca de dinheiro, seja por furto de identidade. Os jovens aparecem como o principal grupo: 62,19% têm entre 18 e 34 anos.
A renda também chama atenção. Entre os casos analisados, 58,89% envolvem pessoas com renda de até dois salários mínimos. Os homens correspondem a 58,96% dos registros.
A disseminação das contas laranja aumenta a pressão sobre bancos e instituições financeiras para identificar possíveis fraudes já no momento da abertura da conta. Ao mesmo tempo, as empresas enfrentam o desafio de ampliar os mecanismos de segurança sem tornar o processo excessivamente burocrático para clientes legítimos. “Quando uma conta laranja fura o bloqueio na entrada, toda a cadeia fica vulnerável. O custo desse erro não aparece no cadastro, ele surge meses depois na forma de contestações de compras, investigações e perdas financeiras no transacional”, afirma Danilo Coelho, diretor de Produtos e Dados da Quod.
Segundo o executivo, o dilema está justamente em encontrar um equilíbrio entre segurança e experiência do consumidor. Processos mais rígidos podem dificultar a entrada de fraudadores, mas também acrescentam etapas à abertura de contas para os demais clientes.
Para Coelho, uma das respostas está no uso de modelos preditivos capazes de cruzar diferentes bases de dados e calcular a probabilidade de fraude sem necessariamente adicionar novas etapas à jornada do usuário. “A resposta não está em adicionar infinitas etapas de fricção, mas em adotar uma camada de segurança silenciosa”, afirma. Segundo ele, a análise de dados pode permitir que as instituições concentrem os bloqueios nos cadastros de maior risco.
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