É como se Maria Joaquina e Valéria decidissem despistar a professora Helena para matar aula e brincar — mas, em vez de bonecas, preferissem contar histórias sobre demônios e caldeirões. Clássico do cinema de terror mexicano, o excepcional Veneno para as Fadas (1986) acaba de voltar aos cinemas brasileiros, restaurado em 4K e distribuído pela Filmicca, e deve surpreender muitos espectadores com sua trama tão charmosa quanto obscura, à la Carrossel satanista.
Nela, a menina Verónica (Ana Patrícia Rojo) é uma órfã criada pela tia, que embala suas noites de sono com contos de fada. Em vez de se identificar com as princesas e crianças aterrorizadas pelas ocultistas, no entanto, é nas vilãs que a garota se enxerga. Ostracizada na escola, ela vê a oportunidade de ter uma amiga com a chegada de Flavia (Elsa María) — filha influenciável de pais ateus. Logo, passa a manipulá-la, engenhando situações que a convencem de que sua colega loira e adorável é, de fato, uma bruxa disfarçada.
Bem-humorado, o filme é construído por Carlos Enrique Taboada (1929-1997) — nome seminal do cinema de gênero latino-americano —como uma brincadeira infantil, sem que a índole da protagonista seja exageradamente macabra. Verónica é simplesmente uma garota melancólica e mimada com fascínio pelo gótico, e não a Tara Maldita em pessoa.
Avesso à simplificação de suas personagens pela faixa etária, Taboada encara o universo infantil como algo aquém do mundo dos adultos, onde inocência e inconsequência podem levar a reviravoltas catastróficas e carregadas de pathos — muito bem capturado por ambas as atrizes mirins no centro da tela e pela câmera do cineasta, que oculta os rostos dos maiores de idade e trata mansões mexicanas como covis repletos de magia.
Junto a outro relançamento ímpar da semana — Suspiria (1977), do mestre italiano Dario Argento —, Veneno para as Fadas deixa claro que o circuito exibidor têm muito a ganhar quando aposta no repertório.
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