Caverna na Sibéria revela espécie bovina da Era do Gelo – 04/11/2026 – Ciência

Uma caverna conhecida por revelar restos de denisovanos forneceu agora evidências de uma espécie de bovino da Era do Gelo até então desconhecido. O achado é descrito em um artigo que acaba de sair na revista Current Biology.

O local em questão é a Caverna de Denisova, nas montanhas Altai, no sul da Sibéria. Ali pesquisadores dizem ter descoberto pequenos fragmentos de ossos de uma espécie de bovino distinta de todas as outras já registradas, conforme uma análise de DNA. Ela se separou dos ancestrais do iaque moderno há aproximadamente 400 mil anos.

Ao todo, os pesquisadores estudaram 20 fragmentos ósseos —14 da Caverna de Denisova e seis de outros locais da região. O material permitiu a geração de 20 genomas antigos.

O espécime mais antigo datava de cerca de 250 mil a 200 mil anos atrás, e o mais recente, de 27 mil anos atrás.

“É incomum identificar uma espécie de grande mamífero a partir de fragmentos pequenos e não identificáveis”, afirmou o geneticista e autor do estudo Love Dalén, do Centro de Paleogenética, uma colaboração entre a Universidade de Estocolmo e o Museu Sueco de História Natural.

“Eu diria que isso está relacionado aos avanços no campo do DNA antigo, já que a genética é uma nova e poderosa camada de informação aplicada a materiais antigos”, disse Alexandre Gilardet, doutorando do Centro de Paleogenética, coautor da pesquisa.

Evidências genéticas não são suficientes para permitir que uma nova espécie receba um nome científico. Por isso, os pesquisadores a chamam, por enquanto, de “iaque X”.

Dalén disse que o Iaque X viveu ao lado de outros bovinos, entre os quais o auroque, ancestral selvagem extinto do gado doméstico atual. Segundo ele, a espécie também dividiu a paisagem da Era do Gelo com mamutes-lanosos, rinocerontes-lanosos, cavalos e grandes predadores.

“Imagino que ele se parecesse mais com um iaque do que com um bisão, dada sua estreita relação com os iaques modernos”, afirmou o geneticista.

Os iaques são animais robustos, com chifres, pelagem longa e uma corcova nos ombros, lembrando uma espécie de boi peludo. Os maiores machos podem pesar até uma tonelada. Os espécimes selvagens estão restritos às regiões mais elevadas do planalto tibetano.

A descoberta do Iaque X amplia a compreensão sobre a diversidade dos grandes mamíferos da Era do Gelo e acrescenta mais uma espécie à longa lista das que desapareceram por volta do fim desse período.

“Usando o extenso intervalo de 200 mil anos de nossa amostragem, podemos observar que a espécie talvez tenha sofrido um declínio populacional durante um período de aquecimento, há cerca de 120 mil anos, e desaparecido algum tempo depois de nossa amostra mais recente, de 27 mil anos atrás”, afirmou Jonas Oppenheimer, pesquisador de pós-doutorado do Centro de Paleogenética.

A vasta extensão da Sibéria era um ecossistema de pradarias chamado estepe dos mamutes, assim conhecido por seus maiores habitantes.

A linhagem do iaque X se separou dos ancestrais dos iaques modernos aproximadamente na mesma época em que ocorreu a divisão evolutiva entre as linhagens que deram origem aos atuais ursos-pardos e ursos-polares.

Os denisovanos

Foi na Caverna de Denisova, em 2008, que cientistas desenterraram um osso de dedo que forneceu a primeira evidência da existência dos denisovanos, primos extintos dos neandertais e de nossa própria espécie, Homo sapiens. Desde então, outros restos de denisovanos foram descobertos na caverna e em várias regiões remotas da Ásia.

Algumas populações humanas atuais, especialmente as da Melanésia e de Papua-Nova Guiné, carregam uma pequena porcentagem de DNA denisovano, o que indica cruzamentos com H. sapiens antes da extinção dos denisovanos, em circunstâncias ainda pouco compreendidas.

Os denisovanos eram caçadores-coletores que sobreviveram em diferentes tipos de ambiente. A espécie iaque X pode ter estado entre os animais que eles caçavam. “Parece razoável supor que o iaque X fizesse parte do cardápio dos denisovanos”, disse Dalén.

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