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CDB do Digimais a 135% do CDI: o que fazer após suposta fraude contábil?

Os Certificados de Depósito Bancário (CDBs) do Digimais continuavam sendo negociados no mercado secundário de plataformas de investimento mesmo após a operação da Polícia Federal que investiga uma suposta fraude contábil na instituição ligada ao bispo Edir Macedo. Levantamento realizado por VEJA nesta quarta-feira, 24, identificou papéis oferecendo rentabilidade de até 135% do CDI. Especialistas consultados pela reportagem, porém, avaliam que tanto a compra quanto a venda dos títulos exigem cautela e devem considerar os limites de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e o perfil de risco do investidor.

O levantamento mostrou que os títulos estavam disponíveis em plataformas de grandes instituições financeiras para negociação no mercado secundário. No Itaú, um CDB com vencimento em dezembro de 2026 era negociado com retorno equivalente a 121% do CDI. Já no BTG Pactual, um papel pós-fixado com vencimento em 2028 oferecia rentabilidade de 135% do CDI, enquanto um título prefixado com vencimento em 2027 pagava 17,8% ao ano.

Em nota, o BTG informou que interrompeu, na terça-feira, a oferta primária de CDBs emitidos pelo Digimais. Em tese, o banco reforçou que os títulos que eventualmente aparecem na plataforma atualmente pertencem a clientes e são negociados exclusivamente no mercado secundário. Já o Itaú afirmou que sua distribuição primária do CDB foi entre agosto de 2024 e março de 2025.

“Naquele período, o Digimais atendia aos rígidos critérios técnicos, financeiros e de conformidade exigidos pelo Itaú”, afirma o banco. A instituição financeira comenta que qualquer oferta de títulos do Digimais visualizada atualmente em seus canais restringe-se exclusivamente ao mercado secundário. “Nesta modalidade, o Itaú não emite novos papéis e não direciona recursos para o caixa do Digimais”.

De acordo com Pedro Abrão, advogado especializado em instituições financeiras e meios de pagamento, a XP também exibia CDBs do Digimais em negociações secundárias na terça-feira, com remuneração próxima de 135% do CDI.

Dois profissionais do mercado ouvidos por VEJA sob condição de anonimato afirmaram, contudo, que os papéis já não estavam disponíveis na plataforma da XP nesta quarta-feira. “Os títulos do Digimais estão indisponíveis para negociação ou sem oferta neste momento”, relatou uma das fontes.

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Segundo o outro agente de mercado, também não havia registros de negociação dos papéis na X.Bridge, plataforma eletrônica da XP utilizada para negociação de ativos de renda fixa no mercado secundário. Em nota, a XP informou que encerrou a distribuição de CDBs do Digimais em novembro de 2025.

“Desde então, eventuais negociações de títulos da instituição na plataforma referem-se exclusivamente ao mercado secundário, ambiente em que as transações ocorrem por iniciativa dos próprios investidores. Nesses casos, os preços e taxas refletem as condições de oferta e demanda do mercado”, afirmou a corretora.

Ainda segundo uma das fontes ouvidas pela reportagem, investidores institucionais costumam buscar a venda desses papéis para pessoas físicas em momentos de estresse. A razão é simples: pessoas físicas contam com a proteção do FGC, enquanto pessoas jurídicas, em geral, não possuem a mesma cobertura.

O que aconteceu com o Digimais?

Os CDBs do banco passaram a ser monitorados de perto pelo mercado após a Operação Miragem, deflagrada pela Polícia Federal. A investigação busca apurar se a instituição teria manipulado demonstrações financeiras para aparentar uma situação patrimonial mais sólida do que a real.

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Segundo o balanço do quarto trimestre de 2025, o Digimais registrou índice de Basileia de 7,98%, abaixo do mínimo regulatório de 11%. Em tese, esse indicador apontaria insuficiência de capital para suportar os riscos assumidos pela instituição. No mesmo documento, o banco informou ter realizado um aporte de 250 milhões de reais, o que elevaria o índice para 13,49%, acima da exigência regulatória.

A Polícia Federal investiga se operações realizadas pela instituição teriam sido utilizadas para melhorar artificialmente esses e outros indicadores, veja detalhes nesta reportagem. Em nota, o Digimais afirmou que permanece à disposição das autoridades e reiterou seu compromisso com a transparência e a conformidade regulatória. Procurado sobre uma eventual liquidação, o FGC não retornou sobre o assunto.

O que fazer com os CDBs do Digimais?

Entre os especialistas consultados por VEJA, há consenso de que a compra dos títulos no mercado secundário não se justifica neste momento. Apesar das taxas elevadas, o risco aumentou significativamente após o início das investigações. Para quem já possui os papéis, a análise é mais complexa.

Marco Harbich, fundador e CIO da Gordon Capital, recomenda atenção especial aos investidores com valores superiores ao limite de cobertura do FGC, atualmente de 250 mil reais por CPF e por instituição financeira.

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“Quem possui valores acima desse limite deveria avaliar a venda do excedente. Haverá deságio, mas ainda existe a possibilidade de recuperar parte desse valor”, afirma.

Harbich destaca ainda que o BTG Pactual chegou a apresentar uma proposta para aquisição do Digimais. Caso uma operação desse tipo avance, o risco de acionamento do FGC diminui significativamente.

Pedro Abrão ressalta que a venda imediata também pode gerar perdas expressivas. “Para dar uma referência concreta, no caso do Banco Master, à medida que a liquidação se aproximava, os CDBs chegaram a ser negociados com deságio superior a 70%. Houve investidores que aceitaram receber cerca de 30 mil reais por papéis originalmente avaliados em 100 mil”, afirma.

Na avaliação dos especialistas, quem vende agora tende a absorver uma perda relevante. Já quem permanece com o investimento possui dois cenários potencialmente mais favoráveis: a aquisição do banco por outra instituição, que assumiria as obrigações dos títulos, ou uma eventual liquidação com cobertura do FGC para aplicações dentro do limite garantido.

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“Para a ampla maioria dos investidores que está dentro do teto do FGC, os cenários de espera tendem a resultar em uma situação melhor do que uma venda apressada”, conclui Abrão.

Em suma, comprar CDBs do Digimais no mercado secundário neste momento não é uma boa alternativa para o investidor. Há muitos riscos e incertezas sobre um dinheiro que terá baixa liquidez. Já para quem possui o título na carteira, o ideal é se desfazer de posições acima dos 250 mil reais e aguardar os próximos capítulos desta história, que está apenas no começo.

Fonte: Link da fonte

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