Alguns fatores evoluíram no sentido facilitar o caminho do Banco Central para baixar os juros do Brasil, caso da inflação, que já veio bem mais fraca nas leituras mais recentes, e da atividade econômica, que tem dado diversos sinais de perda de dinamismo, justamente um dos efeitos esperados dos juros altos. Não é, contudo, o suficiente para garantir que o país deva voltar em breve a ter uma inflação baixa e estável.
São elementos que ficam turvados pelas incertezas globais e também por outros fatores que, de outro lado, podem seguir pressionando os preços, caso do conflito no Oriente Médio, de futuro ainda incerto, e dos incentivos à demanda e ao consumo aqui dentro – ambos fatores citados pelo Banco Central em seu comunicado divulgado na noite desta quarta-feira, em que anunciou mais um corte na taxa Selic.
É por esse misto de elementos contraditórios que, na visão de analistas, o BC encontrou escopo para poder reduzir um pouco mais os juros, mas sem sem comprometer com o que deve acontecer à frente. “Na última reunião, há apenas sete semanas, o Copom afirmava que os dados mostravam aceleração da atividade econômica e da inflação subjacente”, considerou, em nota, Caio Megale, economista-chefe da XP Investimentos e ex-secretário de Desenvolvimento da Indústria e Comércio do Ministério da Economia entre 2019 e 2020.
“Hoje, o Copom mencionou uma ‘moderação gradual da atividade econômica’ e que a inflação subjacente desacelerou ‘para patamar ligeiramente abaixo do limite superior da meta’. Isso mostra não apenas que os indicadores recentes foram melhores, mas também nos lembra que os indicadores de alta frequência são voláteis — portanto, devemos relativizar as ‘verdades’ de curto prazo”, acrescentou.
O Copom – Comitê de Política Monetária – do Banco Central anunciou um novo corte de 0,25 ponto percentual na Selic, a taxa de juros de referência da economia brasileira. Com isso, ela passa de 14,25% para 14% ao ano. Trata-se da quarta redução consecutiva promovida pelo colegiado. A decisão foi unânime entre os sete diretores que compõem do Copom, chefiado pelo presidente Gabriel Galípolo. Contudo, diferentemente de boa parte das decisões mais recentes, não deixou nenhuma indicação de qual pode ser o próximo passo do comitê em sua decisão de setembro ou as seguintes.
“A piora externa, com ênfase na incerteza sobre a política monetária nos Estados Unidos, foi contraposta à melhora interna, com atividade em desaceleração e comportamento mais favorável da inflação”, pondera o economista José Francisco de Lima Gonçalves, para quem o tom deixado pelo Copom em seu comunicado reduz a perspectiva de nova redução da taxa básica nos próximos meses. “O comunicado adota o tom mais cauteloso ao avaliar que os riscos, apesar de descritos exatamente como na comunicação da reunião anterior, apresentam agora assimetria altista”, acrescenta. “Assimetria altista” é, nos termos da política monetária, quanto os riscos ligados aos fatores que podem piorar a inflação estão pesando mais do que aqueles que podem reduzir.
É uma visão diferente do que aposta o economista-chefe da agência de classificação de riscos Austin Rating, Alex Agostini, que entende que o BC pode fazer ainda mais um corte dos juros em setembro, até os 13,75%. “Já para as reuniões de novembro e dezembro, a autoridade monetária deve seguir, por ora, com o cenário de ‘parada técnica’ para melhor avaliar o desempenho econômico percorrido, além das expectativas acerca da execução da política fiscal no próximo governo diante do pleito eleitoral já concluído”, avalia. “Numa leitura muito objetiva, a decisão [pelo corte atual] se apoiou na menor inércia inflacionária proporcionada pelas recentes divulgações de índices de preços, com resultados abaixo do esperado e descomprimindo as expectativas futuras de inflação no comparativo aos dados observados na reunião de junho”, acrescenta.
Em julho, o IPCA-15, que é a prévia da inflação para o mês, perdeu força e ficou perto de zero. Em 12 meses, contudo, acumula 4,52%, ainda ligeiramente acima do teto e bastante longe do centro da meta, que é de entregar uma inflação de 3% com tolerância de até 4,5%.
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