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Como o burnout virou um problema econômico para as empresas

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Durante muito tempo, o esgotamento profissional foi encarado como uma espécie de medalha de honra no mundo corporativo. Dormir pouco, trabalhar nos fins de semana, responder a mensagens de madrugada e conviver permanentemente sob pressão eram sinais de comprometimento e ambição. Em muitos ambientes executivos, demonstrar cansaço chegava a ser interpretado como um sinal de fraqueza. O problema é que a conta uma hora ou outra chega — e ela costuma ser alta. O burnout, a síndrome do esgotamento profissional, tornou-se um dos principais problemas de saúde mental no ambiente de trabalho brasileiro. Definido pela Classificação Internacional de Doenças (CID-11) como resultado do estresse crônico no serviço que não foi administrado adequadamente, o transtorno deixou de ser um tema restrito a consultórios psiquiátricos e departamentos de recursos humanos para se transformar em uma preocupação econômica. Enquanto executivos adoecem, empresas perdem produtividade, talentos e capacidade de inovação.

Os números ajudam a dimensionar o problema. Segundo a International Stress Management Association (Isma), o Brasil é o segundo país com mais casos diagnosticados de burnout no mundo, atrás apenas do Japão. Dados do Ministério da Previdência Social apontam 546 254 afastamentos do trabalho por transtornos mentais e comportamentais em 2025, uma alta de 15,66% em relação ao ano anterior. O crescimento acelerado obrigou o governo federal a atualizar a Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que passa a exigir das empresas a avaliação de riscos psicossociais, como estresse, assédio moral e sobrecarga de trabalho.

A explosão dos casos ajuda a explicar por que o burnout deixou de ser visto apenas como um problema individual. “A pandemia de covid-19, as novas formas de organização do trabalho, jornadas excessivas e o medo do desemprego ampliaram as discussões sobre saúde mental no ambiente corporativo”, afirma Flávia Vianna, gerente de Saúde e Trabalho do Pacto Global da ONU — Rede Brasil. Soma-se a isso a cultura da hiperperformance, que transformou a exaustão em parte da rotina de muitos profissionais. “Antes, ela era encarada como sinônimo de comprometimento. Hoje, é vista como uma ameaça à competitividade e ao crescimento dos negócios”, diz Keko Rodrigues, especialista em gestão e comportamento organizacional.

Embora mudanças por parte das empresas sejam fundamentais, especialistas afirmam que executivos e profissionais em posições de liderança precisam aprender a reconhecer os próprios limites antes que o corpo imponha uma interrupção forçada. O primeiro passo, dizem os médicos, é abandonar a ideia de que o sofrimento constante faz parte do sucesso profissional. “Muita gente interpreta irritabilidade, cansaço persistente e dificuldade de concentração como se fossem parte natural do ambiente corporativo”, afirma Luiz Zoldan, psiquiatra e gerente médico do Espaço de Bem-Estar e Saúde Mental do Einstein Hospital Israelita, em São Paulo. O problema é que o burnout costuma se instalar justamente de forma gradual. Primeiro vem a exaustão. Depois surgem alterações no sono, queda de produtividade, sensação de distanciamento emocional do trabalho e perda de motivação. Quando o quadro se agrava, aparecem sintomas físicos como dores musculares, palpitações, problemas gastrointestinais e dificuldade de memória.

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A boa notícia é que existem saídas para interromper o estresse extremo antes que ele evolua para uma situação mais grave (leia o quadro). Especialistas afirmam que medidas relativamente simples — como reconhecer os sinais precoces de exaustão, estabelecer limites mais claros entre trabalho e vida pessoal e manter uma rotina minimamente equilibrada — fazem enorme diferença. Em um ambiente corporativo que durante décadas premiou jornadas sem fim, talvez o maior desafio agora seja justamente reaprender algo básico: desacelerar antes que o corpo faça isso à força.

Publicado em VEJA, maio de 2026, edição VEJA Negócios nº 26

Fonte: Link da fonte

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