Uma consultoria jurídica com escritório na avenida Brigadeiro Faria Lima, centro financeiro de São Paulo, auxiliou no registro, nos Estados Unidos, do que seria o braço brasileiro do grupo conservador americano Rockbridge, alvo de representações do PT na Justiça Eleitoral por suposta intervenção a favor da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL), denúncia feita também pelo partido Missão.
A Rockbridge Brazil LCC foi aberta em maio, no estado do Wyoming (EUA), sob responsabilidade de Chris Applegate, um assessor do vice-presidente JD Vance.
A Rockbridge Network é um grupo cofundado por Vance, que conta com a participação de empresários do Vale do Silício como o bilionário Peter Thiel, e que defende pautas da direita radical.
Em reportagem desta sexta-feira (25), a Folha mostrou que a Rockbridge começou um processo de instalação no Brasil, interrompido por causa da eleição. Seus representantes fizeram contato com empresários e políticos brasileiros.
No órgão equivalente à junta comercial do Wyoming, uma empresa especializada em serviços de representação comercial, a Cogency Global, foi registrada como representante da Rockbridge Brazil. Applegate aparece como “organizer”, figura que no Brasil poderia ser advogado, contador ou despachante. A legislação do Wyoming não exige que o dono da empresa seja identificado em seu registro.
O e-mail de contato de Applegate é do advogado Stephen Wade Angus, sócio do escritório Jones Day, que tem uma filial no quinto andar do edifício Plaza Iguatemi, na Faria Lima.
O advogado é especialista em fusões e aquisições e já trabalhou com empresas do setor agrícola, sucroenergérico, industrial e financeiro. Na junta comercial paulista, ele é listado também como diretor da Jones Day Serviços de Consultoria Ltda, empresa constituída em 2009.
Angus é membro do conselho diretor da Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos, segundo site da instituição.
A Folha enviou perguntas a Angus e ao escrítório paulistano do Jones Day sobre os serviços prestados à Rockbridge Brazil, mas não teve resposta.
Uma reportagem do jornal The New York Times publicada em abril descreve Chris Applegate como o assessor que supervisiona relacionamentos de Vance com doadores e assessora o Comitê Nacional Republicano, a Rockbridge e a Casa Branca.
No começo deste mês, o candidato à Presidência Renan Santos (Missão) publicou mensagens em sua conta na rede social X afirmando que o empresário carioca Pedro Sang seria um dos associados ao grupo e que estaria trabalhando na campanha de Flávio.
Na sabatina Folha/UOL realizada na manhã seguinte, Renan reafirmou as acusações. Ele diz que a Rockbridge atua na campanha de Flávio Bolsonaro por interesse em terras raras, e aponta Tallis Gomes, fundador da Easy Taxi e da G4 Educação, como elo do grupo no Brasil.
Em nota, Gomes confirmou que faz parte do Rockbridge, mas disse que não exerce funções de gestão ou representação. Disse também que não integra a campanha de Flávio Bolsonaro ou de outros candidatos, não arrecadou nem doou recursos eleitorais e que suas manifestações sobre a eleição são pessoais, sem relação com o G4.
Pedro Sang negou ter se associado à Rockbridge, embora tenha sido apresentado ao grupo em outubro do ano passado por André Marinho, seu amigo e candidato ao Governo do Rio de Janeiro pelo Novo. Ele disse que a intenção de trazer o grupo ao país está suspensa desde maio.
A campanha de Flávio negou que recursos estrangeiros tenham sido usados na sua campanha — prática vedada pela legislação eleitoral.
Outra suspeita levantada pelo candidato do Missão foi a de que apoiadores do presidente Donald Trump estariam usando as redes sociais para propagandear a eleição de Flávio.
Conforme a Folha mostrou nesta semana, uma série de influenciadores trumpistas passaram a divulgar mensagens patrocinadas no exterior com resultados de site de apostas como o Polymarket, entre outras notícias, que apontam vitória de Flávio na eleição. O Polymarket é proibido no Brasil desde abril.
A partir das reportagens, o PT ingressou com ações no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e o no STF (Supremo Tribunal Federal) contra a campanha de Flávio, pedindo instauração de inquérito e expedição de ofícios aos citados para esclarecimentos. Também solicitou que o Brasil busque por colaboração internacional para apurar os pagamentos das mensagens patrocinadas.
A campanha de Flávio afirma que não recebeu nenhum auxílio do exterior e que desconhece as publicações que divulgaram, de forma paga, sua disparada no site de apostas norte-americano.
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