Criptografia é insuficiente quando há um humano na linha fazendo outro uso, destaca Radia Perlman sobre crises de segurança

Boa parte da internet que hoje sustenta pagamentos, aplicativos de banco e sistemas corporativos funciona graças a escolhas feitas nos anos 1980. Contudo, algumas escolhas foram erradas, avalia Radia Perlman, engenheira e fellow da Dell Technologies, além de autora do algoritmo Spanning Tree, que organiza o tráfego dentro das redes Ethernet e de protocolos de roteamento ainda em uso.

Em painel na Febraban Tech 2026, ela revisitou essas decisões e mostrou que a arquitetura da rede ainda enfrenta desafios quando o assunto é escalabilidade, configuração e, principalmente, segurança.

Perlman lembra que sua entrada na área de redes e tecnologia não foi planejada. Formada em matemática, acabou desenhando o roteamento de uma rede de rádio por pacotes e depois foi para a Digital Equipment Corporation, onde criou o protocolo IS-IS, mais tarde copiado em boa parte pelo OSPF.

“Era muito mais fácil do que hoje, porque você não tinha que brigar com um corpo de padronização. O que eu desenhava era implementado”, comenta.

O algoritmo que nasceu de um erro da indústria

Perlman conta que o Spanning Tree nasceu fruto de uma decisão equivocada. Quando a Ethernet surgiu, houve um grande alarde nas empresas e estas decidiram não usar mais a camada 3, responsável por levar um dado de uma rede a outra. As aplicações passaram a falar diretamente com a Ethernet.

A especialista lembra que alertou as empresas sobre a necessidade de ainda usar a camada 3, mas elas negligenciaram. Cerca de cinco anos depois, um gerente de companhia pediu por uma espécie de “caixa mágica” que ficasse entre as duas Ethernets e facilitasse a comunicação dos dados.

Diante da restrição, a tentativa era que os equipamentos das pontas falassem com um único link de Ethernet, sem configuração ou restrição de tipologia, comenta Perlman. Ela conta que outro pedido das empresas foi que o algoritmo consumisse memória constante, sem importar o número de pontes ou links que existiam.

Foi assim que ela resolveu o problema na mesma noite e a especificação em um final de semana. Um documento de cerca de 25 páginas para facilitar implementações que levariam em torno de dois meses.

Frágil por configuração

Boa parte dos problemas de operação, diz ela, vem de sistemas que exigem que todos os pontos estejam ajustados exatamente da mesma forma. “Um dos meus superpoderes é que eu odeio computadores. Então eu desenho coisas para pessoas como eu, que precisam simplesmente funcionar”, afirmou.

Para Radia, sistemas devem ser conceitualmente simples e pouco frágeis. “Mesmo com má configuração e com alguns componentes não se comportando bem, tudo deveria funcionar”, avalia.

Quando a segurança não funciona mais

Com o avanço da criptografia, Perlman afirma que seria natural acreditar que os problemas de segurança estariam resolvidos. No entanto, a realidade revelou outras camadas.

Ela lembra que ao tentar renovar a sua licença de piloto fez uma busca no Google e clicou no primeiro resultado. O endereço parecia razoável, era uma WashingtonLicensing.org. “O site era bonito e pediu tudo o que eu esperava que pedisse: nome, endereço, número da licença e cartão de crédito”, conta.

Mas Perlman acabou caindo em uma fraude, que descobriu só quando o banco ligou. Os criminosos tinham comprado um domínio e pagavam todo dia para aparecer no topo das buscas. Ela disse que não teve prejuízo, mas aprendeu a lição.

“É incrivelmente instrutivo que toda essa criptografia e todos esses protocolos que a gente acha que estão lá resolvendo o problema não signifiquem nada quando há um humano na linha. Existe um enorme buraco de segurança em que se presume que as pessoas deveriam saber o nome do domínio DNS”, afirma. Para Perlman, era inviável ela saber se o domínio seria .gov ou .org.

Segundo a especialista, esse mesmo problema pode ser encontrado também ao pesquisar pelo nome das pessoas. Por exemplo, quem procura por alguém chamado John Smith no diretório de uma empresa, encontra uma dúzia de nomes parecidos e nenhuma forma de saber qual é o certo.

“O diretório deveria dar não apenas o nome e o e-mail, mas outros dados, como uma foto, onde a pessoa está localizada”, exemplifica.

Não é a primeira vez que Perlman apresenta esta problemática. Em um dos seus livros, ela cita que os humanos são incapazes de guardar criptografia de alta qualidade em segurança e que existem velocidades inaceitáveis ao executar este tipo de operações.

Ela destaca que é surpreendente que este tipo de dispositivos continuem sendo fabricados e distribuídos, porque muitos são caros de manter, difíceis de gerenciar e poluem o ambiente.

Para a especialista, o cenário atual exige mais treinamento das pessoas sobre como trabalhar com estas inovações do que novas alternativas tecnológicas.

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