Eis um paradoxo histórico que todo mundo deveria ter bem claro na cabeça. Estruturas sociais e econômicas podem parecer extremamente sofisticadas, poderosas, até mesmo onipotentes para quem está dentro delas –e serem, ao mesmo tempo, burras feito uma porta. Estúpidas até a raiz dos cabelos.
Durante séculos, por exemplo, os maiores magnatas de Roma, bem como a família imperial romana, quase sempre só tinham pessoas escravizadas como seus funcionários –inclusive entre os administradores de suas fortunas– porque a legislação do império era incapaz de conceber a ideia de “pessoa jurídica”, tão simples para nós.
Conforme explica a historiadora britânica Emma Southon, não havia nada na estrutura jurídica romana que, a rigor, forçasse um homem livre que trabalhava para outro homem livre a receber em mãos um pagamento em nome desse patrão e repassar o dinheiro a ele. Os dois eram vistos como indivíduos estanques, e ninguém era só o representante de uma “empresa”.
A solução? Usar escravizados, é claro. Juridicamente, pessoas submetidas ao regime de escravidão não eram diferentes dos dedos da mão, de uma pá ou de uma besta de carga pertencentes a seu senhor. Vale dizer, eram extensões legais do “Dominus” (amo, mestre) e, portanto, podiam fazer tudo em nome dele. Problema resolvido. Não dá vontade de pegar uma estátua de Nero e bater a cabeça de mármore na parede para ver se ele deixa de ser burro?
A maluquice acima vem de um livro que Southon acaba de publicar. Trata-se de uma anatomia fantástica da estupidez, da crueldade e da bizarrice por trás da escravatura romana, chamado “Servus” (a palavra latina usual para “escravo”) ou “Not Built in a Day” (não foi feita num dia) –os títulos das edições britânica e americana, respectivamente, são diferentes.
De um lado, a autora é mestra em identificar as implicações da lógica da escravidão para o cotidiano e a mentalidade das pessoas, com resultados que às vezes seriam hilariantes, se não fossem tão fundamentalmente desumanos.
Há, por exemplo, o caso de um manual de latim básico, preparado para instruir crianças da elite da parte oriental do Império Romano (cuja língua materna era o grego, e não a fala de Roma propriamente dita). Acontece que o texto é composto quase inteiramente por imperativos –”penteie meu cabelo”; “pegue minha sandália”; “traga-me os figos”; “prepare meu banho”.
É, em outras palavras, um manual para pequenos tiranos, com o objetivo de adestrar pessoinhas cujas necessidades mais básicas serão atendidas o tempo todo por “não pessoas” –as célebres “instrumenta vocalia” ou instrumentos capazes de falar, como os escravizados eram definidos em latim.
Ao mesmo tempo, Southon explica com precisão como as guerras de conquista, por meio das quais Roma se assenhorou de toda a bacia do Mediterrâneo e de boa parte da Europa, funcionaram acima de tudo como uma máquina de bombear escravizados aos milhões, transformando toda a lógica econômica romana: de repente, valia a pena transformar vastos latifúndios e minas em moedores de gente. A carne mais barata do mercado era a carne escravizada.
Há muitos outros detalhes, inclusive os pequenos e grandes atos de resistência de prostitutas, notários e gladiadores que, com a pena ou a espada na mão, insistiam em continuar sendo seres humanos. Passear por essas páginas deveria ser suficiente para sufocar qualquer saudosismo imperial.
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