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DNA traça genealogia dos construtores de túmulos de pedra – 24/05/2026 – Ciência

Novos dados de DNA estão ajudando a entender quem eram os construtores dos túmulos e monumentos de rocha maciça que se espalharam por boa parte da Europa a partir de 6.500 anos atrás. Sepulturas coletivas encontradas na Alemanha indicam que havia ligações de parentesco de longa distância entre esses grupos, mas, em geral, elas não chegavam a se estender pelo continente inteiro.

O trabalho, que saiu na última quinta-feira (21) na revista especializada Science, foi coordenado pelo brasileiro Nicolas Antonio da Silva, do Instituto de Biologia Molecular Clínica da Universidade de Kiel.

Silva e seus colegas mostraram, por um lado, a conexão genética entre as diferentes sociedades megalíticas –ou seja, das grandes construções com pedra– dentro do atual território alemão. Por outro lado, isso não acontecia com os arquitetos desses monumentos em outras áreas, como no Reino Unido, na Irlanda e na península Ibérica.

“Nossos resultados mostram pouca conexão genética direta entre diferentes regiões megalíticas da Europa, o que indica que esses monumentos não se disseminaram principalmente por migração de populações”, explicou o pesquisador à Folha. Silva trabalha com DNA antigo desde 2020, época em que fazia seu mestrado, também na Alemanha.

“No contexto europeu, a hipótese de transmissão cultural se ajusta melhor aos dados disponíveis: há diversas evidências arqueológicas de contato e troca entre regiões. Ou seja, mesmo sem grande fluxo genético, essas populações provavelmente compartilhavam ideias, práticas e conhecimentos.”

A mais famosa das construções megalíticas é, claro, Stonehenge, na região inglesa de Wiltshire, mas há monumentos menos grandiosos, mas ainda assim imponentes, espalhados por boa parte da Europa Ocidental. Todos datam do chamado Neolítico Tardio (popularmente, o final da Idade da Pedra), quando a grande maioria das populações europeias já tinha adotado a agricultura e a criação de animais domésticos como base de sua subsistência.

Entre os principais formatos estão os dólmens, que hoje lembram “mesas” gigantescas de pedra, mas outrora, na maioria dos casos, funcionavam como tumbas e estavam cobertos de terra; e os chamados túmulos de corredor (“passage graves”, em inglês), compostos de um caminho estreito ladeado por grandes pedras, que desembocava numa câmara mortuária, muitas vezes também coberta por sedimentos, formando uma colina artificial.

Os seis sítios arqueológicos alemães cujos ocupantes foram analisados por Silva e seus colegas frequentemente adotam o formato do túmulo de corredor. A exceção é a localidade de Sorsum, na qual a câmera mortuária foi escavada diretamente na rocha.

A equipe analisou o DNA de 203 indivíduos sepultados em Sorsum e nos demais sítios, comparando-os entre si e com o que já se sabe sobre a genética dos europeus durante o Neolítico Tardio. Os sepultamentos ali têm entre 5.400 anos e 5.100 anos.

Considerando a distância entre os diferentes sítios, que varia de 80 km a 225 km, um detalhe que chamou a atenção dos pesquisadores foi a presença de 11 indivíduos que tinham parentes próximos em locais relativamente diferentes. O caso mais marcante é o de um pai, da localidade hoje chamada de Niedertiefenbach, cujo filho, ainda menino, foi sepultado em Sorsum, a mais de 200 km de distância.

Os pesquisadores especulam que ele pode ter sido adotado pelos moradores de seu novo lar ou ter se mudado para lá como aprendiz de algum ofício. Os outros dez casos correspondem a parentes de primeiro grau (mãe/pai, irmãos e filhos) ou segundo grau (tio/tia, sobrinhos, avós, netos). Tudo indica, portanto, que havia uma continuidade genética considerável entre os moradores de todas as localidades.

Os detalhes de parentesco ajudam a traçar um quadro intrigante, ainda que inevitavelmente incompleto, das relações entre indivíduos e grupos na região. Nas sepulturas, que eram coletivas, foi possível identificar, por exemplo, três grandes famílias que foram sendo enterradas no mesmo local –num dos casos, o de Sorsum, por seis gerações seguidas.

As identidades familiares parecem ter sido mais ligadas ao lado masculino –ao longo das gerações, repetem-se as mesmas variantes do cromossomo Y, que, em geral, é a marca genética de quem é biologicamente homem, enquanto as linhagens femininas são muito mais diversificadas.

O padrão provavelmente indica que, em geral, as mulheres deixavam a comunidade materna para se juntar à do marido. Por outro lado, os dados do lado feminino são menos abundantes, já que a maioria dos sepultados nos túmulos monumentais é do sexo masculino. É possível que outro tipo de cerimônia funerária fosse realizado no caso da maioria das mulheres dessas comunidades.

Também chamou a atenção dos pesquisadores o fato de que um único homem de Sorsum gerou cinco filhos com quatro mulheres diferentes –outro caso, menos extremo, é o de um homem que gerou crianças com duas mulheres.

“O que podemos dizer com segurança é que havia flexibilidade nas relações reprodutivas, incluindo poliginia, ou seja, um homem com várias parceiras, de forma simultânea ou consecutiva. No entanto, esses exemplos ainda são relativamente poucos dentro do conjunto total de indivíduos analisados nesse estudo”, explica o pesquisador brasileiro. Ele lembra que a prática pode ter se restringido a um número pequeno de indivíduos de status social mais elevado, como se vê em outros grupos humanos do passado e do presente.

Está claro, porém, que a proximidade genética não era tudo nessas sociedades. Quase 50% das pessoas sepultadas nos grandes túmulos não tem parentes entre os mortos. Isso provavelmente indica que critérios que iam além do parentesco biológico também eram importantes para decidir quem podia ser incluído na estrutura simbólica representada pelos monumentos.

Fonte: Link da fonte

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