Eleições: Veja memes de ‘psicose política’ após 1º turno – 16/10/2026 – #Hashtag

Logo após um primeiro turno sem grandes mobilizações nas ruas e nas redes, em que Flávio Bolsonaro (PL) saiu à frente com 47% dos votos válidos, eleitores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que somou 45,1%, promoveram uma onda de indignação e desespero na internet por esperar um desempenho superior do atual mandatário. A reação foi chamada por internautas de “psicose política”, termo que não existe no léxico clínico, segundo o psicanalista Christian Dunker.

Para o professor titular do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, classificar esse sentimento como “psicose política” é impreciso. “É como usar a expressão neurose para caracterizar alguém que está muito nervoso, irritado, contrariado”. Ele afirma que esse é mais um exemplo do uso popular de diagnósticos. “Isso fala mais de uma tendência contemporânea de valorizar a saúde mental.”

A psicóloga Késia Rodrigues também afirma que não se pode chamar o atual cenário de “psicose política”, já que a psicose seria um deslocamento da realidade comum. “O que está acontecendo agora é o contrário de uma psicose, é uma imersão total nessa realidade”.

Apesar disso, ela relata observar, nas redes e na clínica, pessoas vivendo esse cenário como se a distopia consumida em séries e filmes estivesse muito perto da realidade. “A gente está no nível em que se criou duas dimensões da realidade, onde você não consegue dialogar com essas pessoas que estão imbuídas do que elas recebem dentro dos campos conservador e progressista.”

Para Dunker, esse fenômeno já havia sido observado na eleição de Jair Bolsonaro, em 2018. Ele aponta que há processos de regressão, dissonância cognitiva, negação e projeção comumente usados para pensar a psicologia das massas. “Isso tem uma regularidade: momentos de crise política, crise social e tragédias têm essa característica de convocar discursos outros, metafísicos, religiosos.”

Sentimentos negativos frente a esse cenário não são uma novidade. Um levantamento do Ipsos-Ipec de dezembro de 2025 mostrou que tristeza (19%), cansaço (17%) e medo (16%) eram os principais sentimentos dos brasileiros sobre a política.

À época, a tristeza era mais expressiva entre os eleitores de Jair Bolsonaro (24%) do que entre os de Lula (13%). O resultado das urnas no primeiro turno de 2026, no entanto, fez parecer que o cenário se reverteu: enquanto a esquerda lamenta o segundo lugar, bolsonaristas comemoram o aumento de deputados e senadores eleitos.

Dunker afirma que estar triste com as urnas não é um grande problema, pois o luto é natural em momentos de perdas. O cansaço, porém, é mais preocupante. “O cansaço aponta para algo que se cronifica, de fato torna a situação poluente, tóxica, torna o tema fonte de angústia e distanciamento. E isso não é bom para as pessoas nem para o processo político, porque as afasta da política.”

Apesar da frustração inicial, a sensação de impotência ao ver o candidato do PL em vantagem contra o petista logo começou a se transformar em euforia entre internautas, mobilizando eleitores na tentativa de reverter o resultado.

Duas figuras públicas ganharam destaque nesse período de mobilização coletiva: o deputado federal reeleito André Janones (Rede-MG) e o ator que também se candidatou ao parlamento federal, mas não se elegeu, José de Abreu (PT-RJ).

Enquanto o parlamentar mineiro passou a divulgar um canal no WhatsApp chamado “Exército do Lula”, que já conta com mais de 4,7 milhões de pessoas, para engajar assuntos de interesse da campanha, o artista viralizou ao cobrar posicionamentos de outras figuras públicas no X (antigo Twitter) e no Instagram.

Entre as missões de Janones e o “não vai lutar contra o fascismo?” de Abreu, a animação injetou gás em uma campanha digital que andava sem emoções, rendendo memes dos mais diversos formatos.

Ainda assim, Christian Dunker faz um alerta clínico sobre esse estado de exaltação das massas. Ele explica que a ideia de que a vantagem de um candidato gera euforia revela como o vocabulário psicopatológico se perde na história.

“A euforia não precisa ser vetada ou excluída da nossa cidadania afetiva. Mas, quando ela se torna um estado de massa, indiferente à realidade, com imprudência e violência, a gente percebe claramente como a euforia se torna ufanismo, que é um perigo para as pessoas, para os grupos, para as instituições e para as comunidades. É um perigo clínico.”

“Tô ficando maluca”

Zé de Abreu em ação.


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