A possibilidade de um país deixar de pagar suas próprias dívidas e dar calote em investidores internacionais é expressa por meio de um indicador macroeconômico denominado risco-país. O conceito, em sua forma e metodologia atuais, foi criado no começo dos anos 1990 pelo J.P. Morgan, que estabeleceu esse índice como termômetro para orientar clientes sobre investimentos em determinados países.
No Brasil, tradicionalmente, a medição da pontuação era feita a partir do Emerging Markets Bond Index Plus (EMBI+), emitido pelo próprio J.P Morgan e baseado no spread entre os juros das dívidas de países emergentes em dólar e os títulos americanos. O EMBI+ foi descontinuado em julho de 2024.
Atualmente, a metodologia é baseada sobretudo no Credit Default Swap (CDS), um contrato derivativo que atua sobre riscos a títulos soberanos, de modo análogo a um seguro. Um outro componente são as notas atribuídas ao país pelas agências classificadoras de risco, cuja metodologia também visa indicar a possibilidade de calote por parte de um emissor, seja um país, uma empresa ou uma instituição financeira, por exemplo.
Apesar da metodologia similar, essas notas não representam diretamente o risco-país, ainda que esse conceito tenha sido inspirado por esse modelo de percepção de risco. As notas também têm um caráter menos abrangente, tendo critérios próprios que variam conforme as diretrizes de cada agência.
Atualmente, o Big Three (grupo composto pelas três principais agências de classificação de risco do mercado: S&P Global, Moody’s e Fitch Ratings) considera que o Brasil está em um grau especulativo, considerado estável. Isso significa que o país cumpre suas obrigações financeiras, mas ainda enfrenta certas questões relacionadas à incerteza econômica e fiscal, o que pode elevar o risco no longo prazo.
Notas atuais do Brasil no Big Three:
- S&P Global: BB
- Moody’s: Ba1
- Fitch Ratings: BB
Risco-país e a saúde da economia
De maneira geral, o risco-país busca sinalizar investidores sobre o estado atual da economia de determinado país.
Em relação ao Brasil, o consenso entre os players do setor é que o país tem mostrado resiliência na economia e no mercado de trabalho interno, mas que enfrenta um desafio no controle da dívida pública.
A seguradora de crédito Allianz Trade destaca que o país possui uma economia diversificada, com um amplo mercado consumidor e uma posição de destaque no setor energético. Contudo, as contas públicas enfrentam um momento delicado frente ao aumento do déficit em relação ao Produto Interno Bruto (PIB).
“No período pós-redemocratização, o país sofreu com a alta descontrolada da inflação, um problema de endividamento externo em dólares, o que gerava pressão sobre o risco-país naquele momento”, explica o economista e conselheiro da Avel Investimentos Aod Cunha.
“À medida que o Brasil foi conduzindo um programa de metas de inflação, e aumentando as reservas internacionais, com a ajuda do setor de exportações, isso foi diminuindo, até chegar ao patamar atual, em torno dos 115 pontos”, acrescenta.
Já o economista Rafael Barros Barbosa, do FGV Ibre, destaca que os sucessivos quadros de piora fiscal têm contribuído para a aceleração da dívida pública, algo que pode colocar em xeque a posição do Brasil.
“O crescimento dessa dívida pública é majoritariamente explicado por gastos em excesso. O país não consegue gerar receita suficiente para pagar os gastos e então isso gera uma pressão de demanda muito forte na economia.”
“O Banco Central, para tentar de alguma forma evitar que essa pressão de demanda gere inflação, acaba impondo uma taxa de juros mais elevada. Estamos num período de quase dez anos de piora recorrente do quadro fiscal, sem conseguir encontrar caminhos para um novo momento de crescimento econômico, uma situação que é remanescente da crise da década passada.”
Influência sobre os investimentos
O risco-país é amplamente usado pelo mercado financeiro para estabelecer condições no momento de decidir ou não pelo investimento. É com base nele, por exemplo, que agentes do mercado podem traçar estratégias de alocação de capital e precificar juros para empréstimos e títulos públicos. Isso porque um país com pontuação mais alta (de maior risco) precisará oferecer mais garantias de retorno aos investidores, que, por sua vez, demandarão um prêmio maior, proporcional ao risco avaliado.
Essa percepção tem impacto direto sobre os fluxos de Investimento Estrangeiro Direto (IED). Uma deterioração do risco-país pode levar a um cenário de redução drástica de fluxos de investimento e mesmo de fuga de capital em direção a outras economias.
Cunha pontua que o Brasil possui vantagens estruturais, como recursos naturais e uma estabilidade política, que tendem a tornar o país mais competitivo para investimentos, especialmente em meio a um cenário externo marcado por conflitos globais e incertezas.
“O Brasil tem uma condição muito boa em relação às suas reservas, além de um período de estabilidade institucional relativamente longo, o que ajuda na avaliação. Isso, porém, não significa que o país está protegido contra os efeitos de uma crise fiscal.”
Barbosa, por sua vez, destaca o controle inflacionário como um dos pontos fortes do país na comparação com seus pares emergentes, mas alerta que mesmo esse atributo pode ser prejudicado pelo agravamento da questão fiscal.
“A gente tem uma política de controle da inflação que é efetiva. A nossa inflação é baixa se comparada com outras economias emergentes. Isso é uma vantagem.”
“O problema real é a situação fiscal insustentável. Geralmente, sentar para discutir isso convida a uma recessão ou períodos temporários de dificuldade. E isso, às vezes, atrapalha muito para quem está pensando em investir, especialmente investir no longo prazo”, completa o economista.
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