Estudo confirma hipótese de Darwin sobre planta carnívora – 06/08/2026 – Ciência

Charles Darwin dedicou anos ao estudo de cracas e era obcecado pela criação de pombos. Mas uma de suas fascinações mais duradouras eram as plantas carnívoras. Ele chamou as dioneias de “uma das plantas mais maravilhosas do mundo” e certa vez comentou que se importava mais com as dróseras, dotadas de armadilhas pegajosas, “do que com a origem de todas as espécies do mundo”.

Em 1875, o biólogo evolucionista publicou um tratado sobre plantas carnívoras no qual apresentou várias espécies. Entre elas estavam as plantas alpinas do gênero Saxifraga, que tinham pelos pegajosos semelhantes aos das dróseras. Durante experimentos, Darwin ofereceu insetos a duas espécies europeias de Saxifraga, mas não conseguiu provar que eram carnívoras.

Passados mais de 150 anos, cientistas confirmaram a hipótese dele.

Recentemente, uma equipe ofereceu pequenas moscas a outra espécie de Saxifraga nativa da China. O experimento, cujo resultado foi descrito na última terça-feira (4) na revista Nature Communications, revelou que a planta de fato digere e absorve nutrientes de suas presas.

Hang Sun, pesquisador do Instituto de Botânica de Kunming, da Academia Chinesa de Ciências, é um dos autores do artigo. Segundo ele, os achados revelam que o consumo de insetos por plantas tem raízes profundas.

“Isso indica que elas podem ser mais disseminadas do que sabemos e que outras espécies escondem a capacidade de digerir presas”, afirmou.

Alimentar-se dessa forma evoluiu de forma independente em 14 famílias de plantas com flores e é definida pela captura e digestão para obtenção de nutrientes. Essa alimentação permite que uma planta sobreviva em solos pobres em nutrientes e habitats inóspitos. Dois dos exemplos mais famosos, as dioneias e as plantas-jarro, que contêm líquido em seu interior, vivem em ambientes pantanosos, como turfeiras.

Os cumes escarpados das montanhas são outros lugares onde as plantas enfrentam dificuldades para extrair nutrientes do solo árido —e é ali que se encontra a Saxifraga candelabrum, que produz flores amarelas em dois tons e cresce nas fendas das rochas do planalto tibetano. Seu caule e seus ramos são cobertos por pelos glandulares avermelhados que secretam uma substância pegajosa.

Durante um trabalho de campo em uma montanha na província de Yunnan, no sudoeste da China, Sun e sua equipe notaram que muitos exemplares de S. candelabrum estavam cobertos de insetos. Em uma das expedições, eles constataram que as plantas maduras tinham, em média, mais de 70 insetos presos aos seus minúsculos pelos. O grupo então se perguntou se elas teriam evoluído para capturar e consumir os insetos.

Provar que uma planta é carnívora, porém, não é tarefa fácil. Para classificá-la dessa forma, os cientistas teriam de demonstrar que a espécie captura, digere e absorve suas presas.

Primeiro, eles usaram estruturas de tela e vidro para concluir que a planta atrai insetos com um odor exalado por suas flores. A planta era seletiva quanto aos seus alvos. Os pelos glandulares prendiam apenas insetos pequenos, como mosquitos. As moscas maiores que polinizam suas flores raramente eram capturadas.

“A planta só tem como alvo insetos pequenos e mantém os grandes polinizadores em segurança”, afirmou Sun.

Em seguida, os cientistas revestiram a S. candelabrum com uma substância química que apresenta fluorescência verde na presença de uma enzima digestiva. Os pelos da planta de fato brilharam, confirmando que havia digestão ativa.

Por fim, para investigar se a espécie se alimentava dos insetos, a equipe rastreou se as plantas incorporavam um isótopo de nitrogênio proveniente das moscas colocadas sobre seus caules pilosos. A S. candelabrum levou cerca de duas semanas para digerir as moscas. Depois disso, os pesquisadores coletaram tecido e detectaram o isótopo de nitrogênio nas amostras —prova de que a S. candelabrum absorveu nutrientes de suas presas.

S. candelabrum é a primeira planta carnívora confirmada da família Saxifragaceae. No entanto, está longe de ser um caso único.

O botânico Kadeem Gilbert, da Universidade Estadual de Michigan (Estados Unidos), disse acreditar que existam centenas, ou até milhares, de outras espécies com pelos pegajosos semelhantes. Muitas delas também podem ser carnívoras ocultas.

“Isso mostra como é possível que essa forma de alimentação surja em qualquer ponto da árvore evolutiva das plantas”, afirmou ele, que não participou da nova pesquisa.

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