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FAB conclui investigação de falha de foguete em Alcântara – 16/06/2026 – Ciência

O órgão da Aeronáutica responsável pela investigação da falha no lançamento do foguete sul-coreano Hanbit-Nano no Maranhão apresentou na última sexta-feira (12) seu relatório final, determinando a causa do incidente, uma falha de anéis de vedação da câmara de combustível do primeiro estágio, e indicando medidas corretivas.

O documento de 92 páginas do Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos) é exaustivo (no bom sentido) e didático, cobrindo todos os aspectos da Operação Spaceward, promovida conjuntamente pela FAB (Força Aérea Brasileira) e pela empresa sul-coreana Innospace no Centro de Lançamento de Alcântara (CLA) para realizar aquele que poderia ter sido o primeiro lançamento de satélites feito a partir do território brasileiro, na noite de 22 de dezembro de 2025.

Na ocasião, tudo que se viu foi o foguete de dois estágios decolar a partir da plataforma e, após pouco mais de 30 segundos de voo, experimentar uma anomalia que o levaria a cair de volta ao solo, em um fim de missão prematuro e explosivo.

Os dados de telemetria permitiram reconstruir todas as etapas do voo malogrado, que envolveu, 33,42 segundos depois do lançamento, a ruptura da câmara de combustão do primeiro estágio, “com a perda imediata da integridade estrutural, interrupção da propulsão e fragmentação do veículo em quatro partes distinguíveis”.

Os destroços seguiram em sua trajetória ascendente mesmo após esse evento, movendo-se por inércia até atingirem o apogeu (ponto mais alto do voo) aos 44,32 segundos e passarem a descer em queda livre, puxados pela gravidade da Terra.

A telemetria do segundo estágio permaneceu funcional até os 76,78 segundos, quando ele se chocou contra o chão, abrindo uma clareira de cerca de 40 metros de diâmetro na região de mata do CLA.

O espalhamento de detritos causou alguns danos menores na infraestrutura do centro, mas ocorreu dentro da área de segurança e não ocasionou baixas.

O QUE DEU ERRADO (E O QUE NÃO DEU)

A hipótese inicial de trabalho foi que algum fenômeno atmosférico, como uma descarga elétrica, pudesse ter prejudicado o voo do Hanbit-Nano. A investigação mostrou que não foi esse o caso. Análises de imagens não mostram evidência de alguma ocorrência significativa na atmosfera.

Ademais, a análise dos detritos recolhidos trouxe pistas importantes do que teria de fato ocasionado a falha. Ela não se deu por um evento súbito, mas pelo desgaste gradual dos anéis de vedação do domo da câmara de combustão do primeiro estágio durante o voo.

Mais importante ainda, a investigação revelou porque esses anéis falharam, de início com microvazamentos e terminando com a ruptura, permitindo vazamento de chama que acabou por condenar o veículo após 33 segundos de voo. Constatou-se que eles foram instalados duas vezes. Na primeira montagem, foram comprimidos mais do que o valor especificado. Na segunda, ocasionada por uma substituição preventiva do domo da câmara de combustão, eles voltaram a ser aplicados, dessa vez com o nível de compressão correta.

Ocorre que, por causa da instalação inicial sobrecomprimida, eles perderam a capacidade de manter a vedação com a eficiência esperada. Caso tivessem sido substituídos pela Innospace junto com o próprio domo, provavelmente teriam operado conforme as especificações.

SISTEMA DE TERMINAÇÃO DE VOO

Uma das dúvidas que cercaram o episódio foi o fato de que o sistema de terminação de voo, o famoso dispositivo de autodestruição, não foi ativado. O relatório especifica que o sistema esteve funcional, mas as circunstâncias da falha não ensejavam seu disparo de acordo com os protocolos estabelecidos para a missão.

Entre as recomendações do Cenipa para as operações em Alcântara, há a de rever os critérios para a terminação antecipada do voo, sobretudo em cenários que envolvem estágios ainda abastecidos em queda.

Para a Innospace, as recomendações giram em torno do aprimoramento dos protocolos de montagem do sistema de vedação da câmara de combustão, estabelecendo a substituição completa dos anéis sempre que uma nova instalação for necessária, e criar mecanismos para garantir que decisões envolvendo substituição parcial de componentes estruturais sejam acompanhadas de reavaliação sistêmica do conjunto.

RAZÕES PARA OTIMISMO

O desfecho da investigação é positivo tanto para o lado brasileiro quanto para o sul-coreano. Os engenheiros da Innospace têm agora clareza do que exatamente deu errado no voo inaugural do Hanbit-Nano e podem evitar o problema na próxima tentativa. Não é garantia que vá funcionar, mas certamente aumenta as chances.

Quanto à Força Aérea Brasileira, fica demonstrada a capacidade de lidar com um incidente desse tipo, com todas as lições aprendidas no triste episódio com o VLS-1 (Veículo Lançador de Satélites) em 22 de agosto de 2003, que vitimou 21 técnicos e engenheiros do programa espacial brasileiro. O novo relatório, por sinal, faz citação explícita aos resultados daquela investigação e dos aprendizados advindos da tragédia.

Elevam-se, portanto, as expectativas de que proximamente a Innospace possa fazer nova tentativa. A empresa mira um novo voo a partir de Alcântara no terceiro trimestre deste ano.

Fonte: Link da fonte

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