Fim dos dinossauros: meteorito teria causado incêndios – 04/08/2026 – Ciência

O impacto do asteroide que levou à extinção dos dinossauros não avianos, há 66 milhões de anos, pode ter produzido uma onda de calor letal em todo o planeta nas primeiras horas após a colisão. Intensificado por uma camada de poeira fina na atmosfera, o pulso térmico teria matado animais expostos e iniciado incêndios em diferentes regiões do mundo.

A hipótese de que o impacto de Chicxulub desencadeou incêndios florestais em uma escala global existe desde a década de 1990, mas permaneceu controversa por falta de evidências geológicas robustas. Um novo estudo combina modelos físicos com registros preservados em rochas do limite entre o Cretáceo e o Paleógeno (K/Pg, na sigla em inglês) e reforça a hipótese de que o calor teve papel central nas primeiras horas da extinção.

A pesquisa, publicada no último dia 28 na revista Journal of Geophysical Research Biogeosciences, foi conduzida por Brandon Johnson. Ele é professor associado do departamento de Ciências da Terra, Atmosféricas e Planetárias, da Universidade Purdue, em West Lafayette (Estados Unidos) e colegas.

Após a colisão, uma pluma de rocha vaporizada se expandiu para além da atmosfera e distribuiu material ao redor da Terra. Durante o resfriamento, parte dele formou esférulas —gotículas de rocha derretida com cerca de 250 micrômetros de diâmetro. Ao reentrarem na atmosfera a vários quilômetros por segundo, elas desaceleraram, convertendo sua energia cinética em calor.

O ponto central do novo estudo, porém, não são as esférulas, já conhecidas do limite K/Pg, mas a poeira silicatada extremamente fina identificada em seções geológicas mais espessas durante a reentrada. O vapor remanescente teria então se condensado em partículas microscópicas distribuídas globalmente.

“A evidência mais importante [deste trabalho] é a poeira fina encontrada nesses depósitos mais espessos do limite K/Pg. Ela indica que esse material foi distribuído globalmente e intensificou muito o pulso térmico que atingiu a superfície terrestre”, disse Johnson.

A poeira teria funcionado como uma camada isolante, impedindo a radiação térmica de escapar ao espaço. Os cálculos indicam que, com esse efeito, o calor ao nível do solo teria sido cerca de 3,5 vezes maior do que o produzido apenas pela reentrada das esférulas.

Isso não significa que florestas inteiras tenham entrado em combustão ao mesmo tempo, mas o calor seria suficiente para inflamar materiais secos, gramíneas e líquens e estes poderiam iniciar incêndios maiores. Para muitos animais terrestres, a própria radiação térmica —queimando peles e penas— foi muito mais letal do que o fogo em si.

“Estudos passados subestimaram a quantidade de vaporização [decorrente do impacto]. A poeira fina agindo para reter a radiação térmica também faz uma grande diferença. Essas duas mudanças são suficientes para transformar o pulso térmico de um fenômeno local para uma catástrofe global”, explica Johnson.

Segundo o físico, em uma região onde fosse dia, o céu primeiro escureceria e depois ganharia um brilho avermelhado com a reentrada das esférulas. “Em poucos minutos, sua pele e olhos estariam queimando pela radiação. Se você conseguisse se proteger de alguma forma, veria dinossauros e outros animais morrendo enquanto sua pele e penas eram queimadas”, afirma ele.



O pulso térmico matou grande parte da vida terrestre apenas poucas horas após o impacto, então mudanças climáticas de longo prazo são irrelevantes nesse cenário

O cenário também explica por que, organismos menores, incluindo formas capazes de se enterrar, mesmo que alguns centímetros debaixo da terra, ou nadar, teriam escapado dos efeitos da extinção em massa, embora não estivessem livres dos efeitos posteriores, como bloqueio da luz solar, resfriamento e colapso das cadeias alimentares.

“Os sobreviventes [da extinção] eram capazes de se abrigar desse pulso térmico, como cavar tocas, nadar ou se esconder na lama. Isso é bastante condizente com o que sabemos das linhagens sobreviventes. Mas é claro que mesmo essas espécies que sobreviveram tiveram que lidar com incêndios florestais e efeitos de longo prazo, como a luz solar ser bloqueada pela poeira atmosférica”, diz.

O trabalho também entra no debate sobre o peso que as mudanças climáticas decorrentes de uma atividade vulcânica intensa —conhecidas como Deccan Traps— teria tido sobre a extinção em massa. Parte dos cientistas considera que os gases liberados por essa ação vulcânica contribuíram para alterações climáticas antes e depois do impacto.

Para Johnson, os novos resultados reforçam que o impacto em si teria sido suficiente para provocar a devastação da vida na Terra mesmo sem o vulcanismo.

“O pulso térmico matou grande parte da vida terrestre apenas poucas horas após o impacto, então mudanças climáticas de longo prazo são irrelevantes nesse cenário”, diz ele.

“Costumo comparar o impacto com alguém sendo atropelado por um trem de carga, enquanto os efeitos climáticos do vulcanismo seriam o equivalente a ter uma doença. Se essa pessoa é morta pelo choque com o trem, não importa muito se ela tem uma doença crônica que a teria matado no longo prazo.”

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