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Gatorade troca corantes artificiais por naturais nos EUA – 10/09/2026 – Economia

O Gatorade é tão conhecido por suas cores quanto por seus eletrólitos: nas versões laranja, azul ou amarelo, a bebida esportiva mais popular dos Estados Unidos atrai facilmente a atenção dos consumidores.

Mas, para alguns legisladores estaduais e para o secretário da Saúde dos EUA, Robert F. Kennedy Jr., as cores vibrantes são um problema. Empresas como a PepsiCo, dona do Gatorade, estão sendo pressionadas a eliminar os corantes, sob o argumento de que as cores podem agravar problemas comportamentais relacionados à atenção em crianças.

A PepsiCo correu para se adequar à pressão. Neste outono, retirará os chamados corantes FD&C dos sabores Lemon Lime, Orange e Fruit Punch do Gatorade, três variedades que respondem por 35% dos quase US$ 10 bilhões em vendas anuais da marca nos EUA.

No futuro, cenouras-pretas e batatas-doces roxas darão o vermelho intenso ao Gatorade Fruit Punch. Os produtos de limão e laranja da marca receberão betacaroteno, pigmento encontrado em vegetais como cenoura, batata-doce e folhas verde-escuras.

No entanto, a substituição de corantes artificiais por naturais não tem sido uma tarefa simples.

Os longos ciclos de cultivo exigem que os fornecedores de ingredientes da PepsiCo avisem os agricultores com 18 meses de antecedência, para poderem produzir vegetais suficientes para atender à demanda por corantes.

Mesmo assim, o fornecimento de betacaroteno obtido exclusivamente de plantas é insuficiente para tingir lotes inteiros de produção da PepsiCo, que vende cerca de 3 bilhões de litros de Gatorade por ano.

Por isso, embora a empresa use betacaroteno extraído de fontes naturais no sabor limão, utilizará betacaroteno sintético no sabor laranja, afirmou Damian Browne, vice-presidente sênior de pesquisa e desenvolvimento e de bebidas para a América do Norte da PepsiCo.

“Simplesmente não conseguimos quantidade suficiente para fazer o laranja. Mas estamos trabalhando nisso”, disse Browne. A PepsiCo afirmou que o corante sintético foi aprovado pela FDA (Administração de Alimentos e Medicamentos dos EUA).

O trabalho faz parte de uma iniciativa mais ampla, liderada pelo CEO da PepsiCo, Ramon Laguarta, para reformular produtos com ingredientes mais saudáveis. As batatas chips Lay’s, outro rótulo importante do grupo, deixaram de conter corantes e aromatizantes artificiais.

A FDA, órgão regulador subordinado a Kennedy, acompanha os compromissos assumidos por dezenas de empresas para retirar o que chama de “corantes sintéticos à base de petróleo” até o fim de 2027 —um ano depois da meta original. A iniciativa é uma mudança sísmica nos ingredientes de um setor que, há décadas, depende de corantes artificiais.

“O aumento sem precedentes da demanda exerce enorme pressão sobre a cadeia global de fornecimento de produtos botânicos, bem como sobre a capacidade de processamento”, afirmou a Sensient Technologies, importante fabricante de corantes. A empresa está ampliando sua fábrica em St. Louis, Missouri, para aumentar a capacidade de processamento de corantes naturais.

Browne afirmou que a empresa, que também detém a marca Doritos e o chá gelado Lipton, trabalha com corantes naturais há anos, antes mesmo da pressão de Washington.

Os corantes FD&C são valorizados pelos fabricantes por sua capacidade de resistir à exposição ao calor e à luz, além da longa vida útil. Nitin Nitin, vice-presidente do Departamento de Ciência e Tecnologia de Alimentos da Universidade da Califórnia em Davis, disse que “o diferencial” dos corantes FD&C “é que eles são muito estáveis”.

Eles também são eficazes em pequenas quantidades, sem alterar o sabor dos produtos. Variedades azuis do Gatorade, como Glacier Freeze, continuarão utilizando corantes FD&C porque os poucos pigmentos azuis naturais disponíveis têm sabor forte, o que poderia prejudicar o gosto da bebida.

“Não se mexe no sabor”, disse Browne. Mas acrescentou que sua equipe de pesquisadores “não desistiu” de procurar uma alternativa azul viável.

As mudanças ocorrem em um momento desafiador para o setor de alimentos e bebidas industrializados. Após anos de inflação nos supermercados, os consumidores querem não apenas ingredientes mais simples e naturais, mas também preços mais baixos.

O volume de vendas da divisão de bebidas da PepsiCo na América do Norte caiu sete dos últimos dez anos e recuou mais 3% no primeiro semestre de 2026.

O Gatorade detém 61% das vendas de bebidas esportivas nos EUA, segundo a empresa de pesquisa de mercado Numerator, à frente de concorrentes tradicionais como BodyArmor e Powerade, da Coca-Cola.

Mas a concorrência está aumentando. No mês passado, a Procter & Gamble concordou em pagar US$ 3,8 bilhões pela Thorne, fabricante de alimentos saudáveis e suplementos cujos sachês de eletrólitos sabor laranja são coloridos com cúrcuma. Neste ano, a Kraft Heinz lançou uma versão das bebidas Capri Sun em sachê enriquecida com eletrólitos.

A PepsiCo renovou a marca Gatorade em abril, incluindo nos rótulos das garrafas afirmações como “hidrata melhor do que a água” e lançando uma linha com menos açúcar e corantes naturais.

Browne disse que as alegações são respaldadas por pesquisas em laboratórios como o Instituto Gatorade de Ciências do Esporte. Uma de suas unidades, dentro do centro de P&D da PepsiCo, conta com uma câmara selada de umidade, onde o suor e os sinais vitais de atletas são medidos enquanto eles correm em uma esteira.

A associação da marca com a ciência remonta a seis décadas. Em 1965, Robert Cade, professor de medicina renal da Universidade da Flórida, inventou o que viria a se tornar o Gatorade para repor a energia de jogadores universitários de futebol americano exaustos sob o sol da Flórida. Desde então, as vendas do Gatorade geraram mais de US$ 500 milhões em royalties para a universidade.

A marca também passou a fazer parte de um ritual do futebol americano —conhecido como “banho de Gatorade”— em que os jogadores comemoram uma grande vitória despejando um barril da bebida sobre o treinador.

Embora o produto agora também seja vendido na forma de líquidos transparentes e pós solúveis, as cores vibrantes são essenciais para a identidade do Gatorade.

“Muita gente nem sequer sabe quais são os sabores. Só os reconhece pela cor”, disse Browne.

Para um produto como o Gatorade, no qual a cor influencia a percepção do sabor, substituir os corantes é repleto de riscos. Amostras expostas na empresa mostravam diferenças sutis de tonalidade entre o Gatorade antigo e o novo.

Também pode ser difícil para o Gatorade convencer os clientes dos benefícios da mudança sem depreciar o que veio antes.

“Não dá para anunciar um produto com um perfil de ingredientes melhor, porque isso seria o mesmo que dizer que o antigo é ruim”, afirmou Lauren Lieberman, analista de bens de consumo do Barclays. “É muito difícil fazer isso.”

Fonte: Link da fonte

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