Por mais de mil anos, o povo inupiat do Alasca tem caçado baleias-da-groenlândia no oceano Ártico. Ao longo dos séculos, eles passaram a apreciar algo nelas: sua longevidade. Diferentes gerações de caçadores conseguiam reconhecer o mesmo indivíduo no mar e, segundo relatos feitos a pesquisadores, um espécime viveria o equivalente a duas vidas humanas.
Agora suspeita-se que essas baleias podem viver ainda. Algumas capturadas no final dos anos 1900 carregavam pontas de arpões antigas alojadas em sua gordura, datadas de meados de 1800. Ao medirem o dano molecular que se acumula nos olhos, ouvidos e óvulos das baleias-da-groenlândia, pesquisadores estimaram que elas vivem até 268 anos.
Um estudo publicado na revista Nature na última quarta-feira (29) oferece uma pista de como esses animais conseguem viver tanto: eles são extraordinariamente bons em reparar o DNA danificado.
O estudo foi liderado por Vera Gorbunova e Andrei Seluanov, que trabalham na Universidade de Rochester (Estados Unidos). O casal estuda mamíferos de vida longa, como morcegos, castores e ratos-toupeira-pelados, além de baleias-da-groenlândia.
As baleias, segundo os cientistas, ganham anos graças ao aumento nos níveis de certas proteínas e mudanças sutis na forma como essas proteínas interagem com outras. “Não estamos falando de novos genes”, disse Seluanov.
A descoberta levanta a possibilidade de que mudanças semelhantes possam ser reproduzidas em humanos para estender nossa própria vida saudável. “Precisamos apenas ajustar um pouco nosso sistema para se assemelhar ao que encontramos em ratos-toupeira-pelados ou baleias-da-groenlândia”, afirmou o pesquisador.
Há muito tempo, Seluanov e Gorbunova são fascinados pelas baleias-da-groenlândia, não apenas por sua longevidade mas também por seu tamanho enorme. Um espécime desse pode pesar mais de 88 toneladas, aproximadamente o mesmo que três caminhões de lixo.
Para que um único óvulo do bicho dê origem a um corpo de tamanho tão imenso, ele deve se multiplicar muitas vezes. A cada vez que isso ocorre, existe o risco de uma célula adquirir uma mutação perigosa que dê origem ao câncer.
“Eles são tão grandes que devem estar protegidos de alguma forma, porque estatisticamente sua chance de desenvolver câncer é muito alta”, disse Gorbunova.
Todos os animais têm algumas defesas contra o câncer. Uma estratégia comum é as células monitorarem seu próprio crescimento. Se uma célula começa a se multiplicar descontroladamente, ela pode se autodestruir. Os cientistas há muito se perguntam se animais maiores, enfrentando um risco maior, desenvolveram melhores defesas.
Em 2015, pesquisadores encontraram evidências de que isso poderia ser o caso: elefantes possuem cópias extras de um gene supressor de câncer chamado p53. Esse arsenal pode ajudar os elefantes a eliminar células perigosas, fazendo com que elas se autodestruam.
Gorbunova e Seluanov questionaram se as baleias-da-groenlândia teriam desenvolvido independentemente a mesma defesa. Para descobrir, eles teriam que fazer algo que nunca havia sido feito antes: realizar experimentos em células vivas de baleias-da-groenlândia.
Os pesquisadores cultivaram, então, populações de células de baleias-da-groenlândia e começaram a realizar experimentos, como bombardear as células com luz ultravioleta, para ver se o dano causava o desenvolvimento de câncer nas células.
As células da baleia-da-groenlândia mostraram-se resilientes, porém não da mesma forma que as células de elefante. Quando danificadas, elas não se autodestruem em altas taxas. Em vez disso, impedem que o dano se acumule.
Quando a luz ultravioleta atinge um pedaço de DNA, ela pode quebrá-lo em dois. As células podem unir novamente as extremidades quebradas, mas às vezes introduzem mutações no processo. As células da baleia-da-groenlândia, como se descobriu, unem seu DNA novamente a uma velocidade notavelmente rápida, e fazem isso com muito mais precisão do que outras espécies. Os cientistas então começaram a procurar as moléculas que as baleias-da-groenlândia usavam para reparar seu DNA.
A descoberta surgiu como uma surpresa, já que a equipe, em um estudo separado, tentava entender como as células poderiam ajudar as baleias a se adaptarem às águas gélidas do oceano Ártico. As baleias-da-groenlândia são a única espécie de baleia que passa o ano todo nessas águas frias.
Como se descobriu, as células da baleia-da-groenlândia produzem grandes quantidades de uma proteína chamada CIRBP. Sua função é acelerar a produção de outras proteínas que protegem contra danos celulares provocados pelo frio.
Os cientistas também notaram muita CIRBP flutuando ao redor do DNA da baleia. Eles encontraram um único estudo, publicado em 2018, sugerindo que essa proteína também poderia ajudar a reparar o DNA. De fato, quando Gorbunova e Seluanov inseriram o gene CIRBP da baleia-da-groenlândia em células humanas, a taxa de reparação do DNA nessas células dobrou.
A proteína reparadora de DNA e o gene que a produz parecem ser fundamentais para a longevidade da baleia-da-groenlândia. Ao longo da vida de um animal, o DNA danificado se acumula por todo o corpo, levando a muitas enfermidades, não apenas ao câncer. Quando os cientistas introduziram o gene CIRBP da baleia-da-groenlândia em moscas-das-frutas, essas moscas viveram mais tempo do que aquelas com a versão normal do gene do inseto.
O novo estudo oferece uma pista sobre por que as baleias-da-groenlândia vivem tanto tempo, mesmo em comparação com outras grandes baleias. Ter um grande suprimento de CIRBP pode ter ajudado as baleias-da-groenlândia a se adaptarem ao gélido oceano Ártico; ao longo do caminho, isso também acabou combatendo o câncer e prolongando sua longevidade.
O geneticista Peter Sudmant, da Universidade da Califórnia, Berkeley, que não esteve envolvido nos novos estudos, disse que as descobertas levantaram a possibilidade de encontrar maneiras de melhorar nossa própria saúde. “Esta é uma área empolgante que avançou muito, muito rapidamente”, disse ele. “A natureza é um belo experimento do qual podemos obter todas essas pistas interessantes para novos medicamentos e terapêuticas.”
É possível, por exemplo, que o aumento do CIRBP em nossas próprias células possa permitir que elas reparem o DNA de forma mais semelhante às baleias-da-groenlândia, tornando-nos mais resilientes conforme envelhecemos.
Fonte: Link da fonte










