O iene voltou a atingir seu menor valor em quatro décadas frente ao dólar, ampliando a pressão sobre o governo japonês para conter a desvalorização da moeda e seus efeitos sobre a economia.
Nesta segunda-feira (29), a divisa chegou a 161,96 ienes por dólar, superando o piso registrado em julho de 2024 e alcançando o nível mais baixo desde 1986. A nova queda reacendeu as apostas de que as autoridades japonesas voltarão a intervir no mercado de câmbio, como fizeram nos últimos anos.
Embora um iene fraco beneficie empresas exportadoras e impulsione a Bolsa de Tóquio, a desvalorização encarece importações de energia, alimentos e matérias-primas, alimentando a inflação e reduzindo o poder de compra das famílias.
Inflação pressiona consumidores
O principal efeito da desvalorização é sentido pelos consumidores japoneses.
Como o país depende da importação de petróleo, gás natural e parte dos alimentos que consome, um dólar mais caro aumenta os custos desses produtos e pressiona os preços internos.
O avanço da inflação ocorre em um momento delicado para o governo da primeira-ministra Sanae Takaichi, que enfrenta desgaste político diante da perda de poder aquisitivo da população.
Exportadores saem ganhando
Se o câmbio pesa sobre as famílias, ele beneficia parte do setor produtivo.
Empresas exportadoras recebem receitas em dólares e outras moedas fortes, que passam a valer mais quando convertidas para ienes. O efeito tem contribuído para o aumento dos lucros corporativos e ajudado a sustentar a Bolsa japonesa em níveis recordes.
Esse contraste evidencia o dilema enfrentado pelo governo: uma moeda fraca favorece grandes empresas, mas aumenta o custo de vida para consumidores.
Banco Central eleva juros, mas efeito é limitado
A desvalorização persistiu mesmo após o Banco do Japão encerrar, em 2024, sua política de juros negativos e elevar a taxa básica para 1% neste mês, o maior patamar desde 1995.
O movimento, que em tese fortaleceria a moeda japonesa, teve pouco impacto porque investidores continuam atraídos pelos juros mais elevados oferecidos pelos Estados Unidos.
A diferença entre as taxas de juros dos dois países mantém o fluxo de recursos para ativos denominados em dólar, reduzindo a demanda pelo iene.
Governo já gastou bilhões para defender a moeda
As autoridades japonesas voltaram a sinalizar disposição para intervir no mercado cambial caso a volatilidade aumente.
Entre o fim de abril e maio deste ano, o governo gastou o equivalente a ¥ 11,73 trilhões, cerca de US$ 72,5 bilhões (R$ 399 bilhões), para comprar ienes e conter a desvalorização da moeda.
Operações semelhantes também foram realizadas em 2022 e 2024. Embora tenham interrompido temporariamente a queda do câmbio, o efeito durou pouco e o iene voltou a perder valor nos meses seguintes.
Analistas afirmam que intervenções isoladas tendem a produzir apenas resultados de curto prazo quando os fundamentos econômicos permanecem inalterados.
Problema vai além do câmbio
Especialistas apontam que a fraqueza do iene reflete fatores estruturais da economia japonesa.
Além da diferença de juros em relação aos Estados Unidos, o país convive com baixo crescimento econômico, envelhecimento da população, redução da força de trabalho e uma das maiores dívidas públicas do mundo.
Esses fatores limitam o espaço para aumentos mais agressivos dos juros pelo Banco do Japão, o que dificulta uma recuperação consistente da moeda.
Para analistas, enquanto persistirem essas condições e os juros americanos permanecerem elevados, o iene continuará sujeito a novas pressões, mantendo o mercado em alerta para uma eventual intervenção do governo.
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