A escalada da inadimplência no consignado privado começa a deixar marcas também nos fundos que compram esses empréstimos.
Dados dos informes mensais enviados à Comissão de Valores Mobiliários mostram aumento de atrasos e, principalmente, das provisões para perdas em alguns FIDCs especializados em adquirir créditos concedidos a trabalhadores com carteira assinada.
Um dos casos mais expressivos é o FIDC UP.P Consignado Privado. Em agosto, o veículo tinha uma carteira bruta de R$ 277,3 milhões e R$ 60,5 milhões em provisões para perdas — o equivalente a 21,8% da carteira. Em julho, essa relação estava em 13,1%.
As parcelas vencidas correspondiam a 11,2% da carteira em agosto. Outro indicador informado pelo fundo, o de créditos inadimplentes, avançou de 9,5% para 13,5% entre julho e agosto.
Os números não significam que 21,8% da carteira já tenha dado calote. A provisão é uma estimativa contábil para perdas esperadas e pode superar o montante das parcelas que já venceram. No caso do UP.P, é justamente isso que ocorre: a provisão equivale a quase duas vezes o estoque de parcelas vencidas.
A deterioração, porém, não é uniforme.
No Simplix Consignado Privado I, que também compra empréstimos consignados concedidos a trabalhadores do setor privado, as parcelas vencidas representavam 3,6% da carteira de R$ 103,9 milhões em agosto. A provisão era de R$ 1,94 milhão, ou 1,9% da carteira. Em julho, as parcelas vencidas correspondiam a 2,6% e a provisão, a 0,95%.
O fundo começou a operar neste ano e sua carteira é formada por direitos creditórios decorrentes de empréstimos a trabalhadores CLT com consignação em folha nos termos da legislação do novo modelo de consignado privado.
Outro veículo, o Cobuccio Consignado Privado, apresentava R$ 130,6 milhões em carteira bruta em agosto. As parcelas vencidas correspondiam a 2,6% do total, ante 1,9% em julho, enquanto as provisões passaram de 0,6% para 1,4% da carteira.
A diferença entre os veículos impede que a deterioração observada em um fundo seja atribuída ao consignado CLT como um todo. Os números mostram, porém, que atrasos e aumento das provisões já começam a aparecer em algumas das carteiras formadas com esses recebíveis.
O movimento ocorre justamente quando a inadimplência do consignado privado avança no sistema financeiro e coloca à prova uma das premissas que ajudaram a impulsionar a modalidade: a de que o desconto diretamente na folha reduziria o risco do empréstimo.
Os próprios informes revelam diferenças importantes na composição das carteiras. No UP.P, 68,3% dos devedores estavam classificados na faixa A do SCR em agosto. No Simplix, eram 78,4%. No Cobuccio, 89%.
Esses percentuais, isoladamente, não permitem estabelecer uma relação de causa e efeito com a inadimplência de cada fundo. Safra dos empréstimos, perfil dos tomadores, prazo das operações e critérios de provisionamento também podem influenciar o desempenho das carteiras.
Os números ainda retratam fundos relativamente novos e tampouco permitem projetar qual será a perda final. Parte dos atrasos pode ser recuperada e provisões podem ser revertidas.
Os informes à CVM oferecem, no entanto, uma primeira fotografia de como o risco começa a aparecer também nos veículos que adquiriram esses recebíveis.
E mostram que, poucos meses depois da expansão do consignado privado, já existem diferenças relevantes no comportamento das carteiras que chegaram aos FIDCs.
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