Japão teme ficar sem minerais por restrições da China – 20/10/2026 – Infraestrutura


Tóquio, Washington e Hong Kong

|Financial Times
O Japão está a meses de esgotar seus estoques de ítrio, um metal essencial, e pediu aos Estados Unidos que pressionem a China a flexibilizar os controles de exportação de terras raras que ameaçam provocar graves perturbações nos setores automotivo, de defesa e de semicondutores em todo o mundo.

Tóquio fez o pedido ao governo americano e a grandes empresas dos EUA, segundo pessoas familiarizadas com o assunto em Washington e no Japão.



Japão teme ficar sem ítrio por restrições da China

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Dado Ruvic – 22.jan.26/Reuters

Nos últimos meses, Washington pressionou a China a aumentar o fornecimento de terras raras, incluindo o ítrio —metal resistente ao calor e fundamental para a fabricação de veículos, motores a jato e semicondutores—, aos Estados Unidos e seus aliados. As cadeias de fornecimento da indústria de defesa americana dependem de componentes fabricados no Japão que contêm ítrio.

Se Pequim não mudar de posição e os países ocidentais não encontrarem substitutos ou ampliarem seus estoques, a escassez poderá surgir já no fim deste ano, afirmaram autoridades do governo japonês e executivos de tradings.

“Estamos em uma situação grave para manter o fornecimento às indústrias que utilizam esses materiais”, disse um funcionário do governo japonês. “Os estoques estão diminuindo, e há um limite para os esforços de economizar terras raras.”

“O prazo não é de anos, mas de meses, e a questão é como sobreviver ao próximo ano”, acrescentou o funcionário. “Se todos agirem agora, tudo ficará bem. Se todos ignorarem o problema, haverá um risco sistêmico para a economia mundial.”

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A China domina a cadeia de fornecimento de terras raras, da mineração ao processamento, e tem usado essa posição como instrumento de pressão em resposta à guerra comercial do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Pequim também reforçou os controles de exportação para o Japão em resposta a declarações feitas no ano passado pela primeira-ministra Sanae Takaichi sobre a ameaça existencial que um conflito envolvendo Taiwan representaria para o país. As falas provocaram indignação na China.

A escassez de ítrio se tornou o principal ponto de pressão para as empresas japonesas do setor de materiais. O metal é usado no revestimento de motores e de câmaras de corrosão por plasma empregadas na fabricação de chips.

O preço do óxido de ítrio fora da China disparou para US$ 1.150 (R$ 5.765) por quilo, alta de 179 vezes em relação ao valor de dois anos atrás. Na China, o preço é de US$ 9 (R$ 45,09) por quilo, segundo avaliações da Argus.

Autoridades americanas e japonesas realizaram diversas conversas sobre a escassez de ítrio, incluindo uma reunião no mês passado, em Washington, quando representantes do Departamento de Energia dos EUA e do Ministério da Economia, Comércio e Indústria do Japão convocaram um “grupo de resposta rápida” para minerais críticos.

Na reunião, realizada duas semanas antes de Trump receber o líder chinês, Xi Jinping, na Casa Branca, o governo japonês esclareceu a gravidade da situação. A intenção era também levar empresas americanas afetadas pela escassez a pressionar Washington para levantar a questão com Pequim.

Os Estados Unidos reclamam que a China não está cumprindo a promessa de flexibilizar os controles sobre terras raras, feita durante a trégua comercial firmada pelos dois países em outubro do ano passado. Depois que Trump se reuniu com Xi em Pequim, em maio, a China reiterou o compromisso de “tratar das preocupações dos EUA relacionadas à escassez na cadeia de fornecimento de terras raras […] incluindo o ítrio”.

Um alto funcionário americano afirmou ao Financial Times no mês passado que a China estava cumprindo dois terços de seus compromissos de fornecimento de terras raras aos Estados Unidos e permitindo que o Japão comprasse apenas o mínimo necessário para atender à demanda.

Autoridades americanas disseram a Pequim que os EUA não exportarão motores a jato necessários ao C919, o primeiro avião comercial desenvolvido pela China, enquanto a produção estiver limitada pela falta de ítrio, essencial à fabricação de turbinas.

A China também concordou em comprar 200 aviões da Boeing durante a visita de Trump a Pequim, em maio. O acordo, porém, ainda não foi concluído, em parte devido a complicações relacionadas a minerais críticos.

Erin Browne, principal autoridade do Tesouro americano para assuntos internacionais, disse ao Financial Times que as terras raras são essenciais à produção de aviões e motores a jato da Boeing.

“Para produzir aeronaves, são necessárias terras raras”, afirmou Browne. “Tudo está, de certa forma, sob o mesmo guarda-chuva: para […] exportar motores, também são necessárias terras raras.”

O Ministério da Economia do Japão e o Tesouro dos EUA, que lidera as negociações comerciais com a China, não quiseram comentar especificamente a situação do ítrio.

Um alto funcionário do Tesouro americano afirmou que o acesso confiável a minerais críticos é “essencial para a segurança econômica e nacional dos Estados Unidos”.

“Restrições às exportações que interrompam o fluxo de minerais críticos são motivo de séria preocupação”, disse o funcionário.

A embaixada chinesa nos Estados Unidos não respondeu a um pedido de comentário.

“É um pânico justificado no Japão”, afirmou Gracelin Baskaran, chefe do programa de segurança de minerais críticos do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, em Washington. “Provavelmente, o país terá de sofrer por enquanto.”

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