[the_ad_group id="564"]
[the_ad_group id="566"]

Juros altos, endividamento recorde e crédito caro travam o crescimento e pressionam empresas

Ler Resumo

Pagar dívidas virou o principal negócio de uma quantidade considerável de empresas brasileiras. Em vez de investir em produção ou inovação — condições básicas para crescer e gerar empregos —, companhias de todos os portes consomem seus recursos apenas tentando sobreviver. O cenário se traduz em números preocupantes. Segundo um levantamento feito pelo bureau de análise de crédito Serasa Experian, 2025 terminou com 8,9 milhões de empresas inadimplentes. Trata-se de uma máxima histórica, 29% acima do número observado em 2024. No mesmo período, o volume de dívidas em atraso cresceu 42%, atingindo também recordistas 213 bilhões de reais.

Nem mesmo a elite do capitalismo brasileiro escapou do aperto. Outro estudo, dessa vez da consultoria RK Partners com empresas listadas na bolsa de valores B3, mostra que 24% delas não estão gerando caixa suficiente para honrar compromissos. O dado ajuda a explicar o aumento da insatisfação com o nível elevado dos juros, à medida que o endividamento avança. “O custo financeiro das dívidas está impagável”, diz Salvatore Milanese, sócio da Pantalica Partners, consultoria especializada em reestruturação de empresas.

A queda da Selic, algo que parece agora um pouco mais distante com os reflexos negativos da guerra no Oriente Médio (veja a reportagem na pág. 54), tampouco deve trazer alívio no curto prazo. O comportamento das taxas no crédito mostra o porquê. Em março, enquanto o Banco Central iniciava o ciclo de cortes, com redução de 0,25 ponto percentual e a taxa básica em 14,75% ao ano, linhas como capital de giro e desconto de duplicatas ficaram mais caras, com alta de 0,14 ponto, para 25,8%. No caso das contas garantidas, uma espécie de “cheque especial” para empresas, os juros beiravam 150% ao ano, segundo a Anefac, associação que reúne executivos do mercado financeiro. Nesse ambiente, o custo financeiro corrói a operação das empresas. “Em muitas delas, até 60% da geração de caixa já é consumida pelos juros”, afirma Denis Morante, sócio da Fortezza Partners, firma de fusões, aquisições e reestruturação. “Se o ciclo de juros altos se prolongar, veremos uma onda de falências no país.”

DESAFIO - Galípolo: deterioração das contas públicas afeta trabalho do BC
DESAFIO - Galípolo: deterioração das contas públicas afeta trabalho do BC (Rafaela Araújo/Folhapress/.)
Continua após a publicidade

Milhares de empresas já estão na antessala da bancarrota. De acordo com a consultoria RGF, o ano passado encerrou com 5 680 companhias em recuperação judicial, um salto de 24% sobre 2024. As extrajudiciais, caracterizadas pela negociação direta entre credores e devedores, sem uma intervenção mais efetiva da Justiça, também subiram de 65 casos para oitenta no mesmo intervalo, de acordo com o Observatório Brasileiro de Recuperação Extrajudicial. As dificuldades se espalham por todos os setores, mas alguns se destacam. Na agropecuária, 1 665 empresas recorreram à proteção legal desde 2025, emparedadas entre a queda dos preços das commodities agrícolas e o aumento dos custos financeiros e dos insumos dolarizados. “É um cenário que inviabiliza a operação”, afirma o presidente de uma empresa agrícola em recuperação judicial e que pediu anonimato. “Nossa geração de caixa não cobre mais as dívidas.” No setor industrial, 1 229 negócios seguiram esse rumo no mesmo período. É o caso da Lupatech, fabricante de válvulas e tubulações para o setor petrolífero, que pediu, na quarta-feira 8, amparo para renegociar 386 milhões de reais em obrigações. Essa é a segunda vez que a empresa recorre à tal providência. Em 2023, encerrou uma recuperação judicial após oito anos de reestruturação.

APERTO - Plantação de soja: a queda dos preços e a alta dos insumos drenam o caixa do agronegócio brasileiro
APERTO - Plantação de soja: a queda dos preços e a alta dos insumos drenam o caixa do agronegócio brasileiro (Silvio Avila/AFP)

Mesmo quando não são diretamente as vítimas, os empreendedores podem sofrer com parceiros que estão com a corda no pescoço. “Muitos fornecedores endividados tentam nos repassar o aumento dos custos financeiros”, diz Ricardo Gracia, presidente da Kidy, fabricante de calçados infantis. “Acompanhamos tudo com atenção para reduzir riscos.” O que preocupa os especialistas é que um número crescente de companhias em recuperação judicial simplesmente não consegue superar os problemas e fecha as portas. Os dados da consultoria RGF mostram que no último trimestre de 2025 quase 30% dos negócios que estavam nessa condição faliram. Para ter ideia, um ano antes a proporção era de 19%. Em 2023, estava em 12%. O desafio se agrava quando se adiciona outra variável: a disparada dos custos operacionais provocada pela guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã, que fez o preço do petróleo saltar e arrastou consigo os de combustíveis e fretes, prejudicando empresas no mundo todo. Em meados de março, a Lycra, fabricante americana de tecidos elásticos, pediu proteção do Capítulo 11 da Lei de Falências dos Estados Unidos para renegociar 1,2 bilhão de dólares em dívidas.

Continua após a publicidade

CRISE GLOBAL - Fábrica da Lycra: socorro da Justiça americana para renegociar dívida
CRISE GLOBAL - Fábrica da Lycra: socorro da Justiça americana para renegociar dívida (//Divulgação)

Um ingrediente que escapa ao controle das companhias, mas que pesa na conta, é a escalada da dívida pública no terceiro mandato do presidente Lula, alimentada por gastos populistas que visam contribuir para a sua reeleição (veja a reportagem na pág. 22). Ao injetar dinheiro na economia para turbinar o consumo, o governo atiça a inflação e força o Banco Central de Gabriel Galípolo a manter a Selic elevada por mais tempo. Diante da expectativa de que a dívida encerre o ano correspondendo a 80% do PIB, os investidores cobram mais caro para financiar a gastança de Lula, o que nivela o mercado de crédito por cima. “O prêmio de risco sobe e, com ele, as taxas de juro”, afirma André Vasconcellos, professor da Trevisan Escola de Negócios.

arte empresas

Continua após a publicidade

Com a campanha eleitoral mais disputada de sua carreira se aproximando, Lula deve dobrar a aposta no populismo fiscal — pelo menos é o que vislumbram os analistas. Como o endividamento das famílias e das empresas alcançou níveis preocupantes, o Palácio do Planalto busca novamente soluções paliativas. Nos próximos dias, o governo deve anunciar um novo pacote de medidas para a renegociação de dívidas, que podem incluir a liberação do saldo do FGTS para os trabalhadores. Também há sinais de que as pequenas e as médias empresas com faturamento anual de até 300 milhões de reais serão contempladas. O socorro envolveria o BNDES, que atuaria como uma espécie de fiador, caso a empresa não pague a dívida renegociada. Embora seja um alento para quem corre o risco de falir, a iniciativa está longe de representar uma resposta efetiva aos fatores que estrangulam as finanças das empresas.

Publicado em VEJA de 10 de abril de 2026, edição nº 2990

Fonte: Link da fonte

[the_ad_group id="566"]

Tags

Compartilhe:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipiscing elit, sed do eiusmod tempor incididunt ut labore et dolore