Kylian Mbappé encerrou uma parceria de duas décadas com a Nike e assinou com a suíça On, em um movimento que marca a entrada da fabricante de artigos esportivos no mercado de futebol.
O acordo transforma o atacante francês em um dos principais rostos da nova estratégia da companhia, que pretende lançar suas primeiras chuteiras em escala comercial em 2027.
A mudança vai além de um contrato de patrocínio.
A On, conhecida principalmente pelos tênis de corrida e por sua parceria com o ex-tenista Roger Federer, quer usar o futebol para ampliar seu mercado e competir em uma categoria dominada por Nike, Adidas e Puma.
Para comandar a nova divisão, a empresa contratou o ex-jogador francês Thierry Henry como diretor de futebol.
Mbappé também terá participação acionária na On, aproximando a relação do modelo desenvolvido pela empresa com Federer, que se tornou sócio da companhia e participa do desenvolvimento de produtos.
De marca de corrida a empresa de US$ 3 bilhões
A On nasceu na Suíça em 2010 e construiu sua reputação no mercado de corrida com tênis de design característico e foco em tecnologia. A companhia abriu capital em Nova York em 2021 e vem crescendo rapidamente.
Em 2025, a On registrou receita de 3,014 bilhões de francos suíços, o equivalente a cerca de US$ 3,7 bilhões pelo câmbio médio do período, alta de 30% em relação ao ano anterior. A margem bruta chegou a 62,8%. Para 2026, a companhia projetava crescimento de pelo menos 23% da receita em moeda constante.
O crescimento continuou no primeiro semestre deste ano. A receita atingiu 1,68 bilhão de francos suíços, 14% acima do mesmo período de 2025, ou 24% considerando taxas de câmbio constantes. O avanço, entretanto, não foi uniforme entre as regiões.
A receita das Américas, que inclui Estados Unidos e Brasil, cresceu apenas 3,8% no semestre, para 902,3 milhões de francos suíços. Na Europa, Oriente Médio e África, o avanço foi de 18,8%, enquanto a Ásia-Pacífico cresceu 43,7%.
As Américas continuam sendo o maior mercado da empresa, respondendo por mais da metade das vendas no primeiro semestre. É justamente nessa região que a On enfrenta o desafio de manter o crescimento enquanto amplia seu portfólio para além da corrida.
Por que o futebol importa
O futebol abre para a On uma categoria muito maior do que seu negócio tradicional. A empresa construiu sua imagem entre corredores e consumidores interessados em produtos esportivos premium, mas ainda tem presença limitada no futebol profissional.
A estratégia começa com um dos jogadores mais conhecidos do mundo. Mbappé é capitão da seleção francesa e campeão mundial e, aos 27 anos, está entre os atletas mais valiosos do futebol em termos comerciais.
A Nike acompanhava o jogador desde os 9 anos. Ao longo da parceria, Mbappé se tornou um dos principais atletas da marca e recebeu versões especiais de sua linha Mercurial, chuteira tradicionalmente associada à Nike.
A saída ocorre em um momento em que a Nike também perdeu outro nome importante do futebol. O espanhol Lamine Yamal, uma das principais revelações de sua geração e campeão mundial, deixou a marca americana para assinar com a Adidas.
Para a Nike, a perda de Mbappé não significa uma mudança estrutural no mercado, mas representa a saída de um de seus principais embaixadores justamente quando a empresa tenta recuperar crescimento e relevância no setor esportivo.
A aposta está na tecnologia
A On pretende usar uma de suas principais tecnologias de fabricação, chamada LightSpray, no desenvolvimento das novas chuteiras.
O processo utiliza aplicação automatizada de material para formar a parte superior do calçado e busca reduzir peso e quantidade de componentes. A companhia desenvolveu originalmente a tecnologia para seus tênis de corrida e agora pretende adaptá-la às exigências do futebol.
A empresa afirma que Mbappé, Henry e a jogadora suíça Sydney Schertenleib participarão do desenvolvimento dos produtos. A ideia é combinar a experiência dos atletas com as equipes de engenharia da companhia antes do lançamento comercial.
É uma estratégia semelhante à adotada com Federer. O ex-tenista não é apenas garoto-propaganda: participa do desenvolvimento de produtos e se tornou uma figura associada à expansão da marca no tênis.
O mercado que a On está tentando entrar
O desafio é maior do que contratar uma estrela.
Futebol é um dos mercados mais competitivos da indústria esportiva. Nike e Adidas têm décadas de relacionamento com clubes, seleções e jogadores, além de redes de distribuição consolidadas. A Puma ocupa uma posição relevante logo atrás das duas líderes.
Uma marca que entra agora precisa construir não apenas um produto competitivo, mas também distribuição, contratos com atletas, acordos com clubes e identificação cultural com torcedores.
A On tenta fazer isso começando pelo topo do mercado. Mbappé funciona como vitrine mundial, enquanto Henry acrescenta conhecimento do futebol profissional e experiência com uma das principais escolas do esporte.
A empresa também sinaliza que não pretende se limitar às chuteiras. Segundo o Financial Times, a estratégia inclui posteriormente uniformes e produtos de estilo de vida ligados ao futebol.
Brasil entra no radar de uma nova marca
Para o consumidor brasileiro, a chegada da On ao futebol pode significar a entrada de uma nova marca em um mercado no qual Nike, Adidas e Puma já possuem forte presença.
A On já atua no Brasil com tênis de corrida e outros produtos esportivos, mas sua expansão internacional ainda está concentrada em mercados nos quais construiu uma base de consumidores de maior poder aquisitivo.
A escolha do futebol representa uma tentativa de aumentar a frequência de contato da marca com o público. Em vez de disputar apenas o mercado de corrida, a companhia passa a mirar uma modalidade acompanhada por bilhões de pessoas e com forte capacidade de gerar vendas de calçados, roupas e acessórios.
O Brasil, com sua enorme base de consumidores de futebol, é um mercado potencialmente relevante para essa estratégia. Mas o sucesso da On dependerá de quanto a marca conseguirá transformar a associação com Mbappé em vendas recorrentes e presença efetiva no varejo.
Da corrida ao futebol
A contratação de Mbappé representa, portanto, uma mudança de escala para a On. A empresa que construiu seu negócio em torno da corrida passou pelo tênis com Federer e agora tenta conquistar uma das categorias mais disputadas do mercado esportivo.
O primeiro produto será lançado em 2027. Até lá, a empresa terá de transformar a exposição proporcionada por Mbappé em tecnologia, distribuição e uma linha de produtos capaz de competir com marcas que atuam no futebol há décadas.
Para a Nike, a perda do francês é mais um sinal da disputa por atletas de elite em um mercado no qual novas marcas tentam ocupar espaço. Para a On, o contrato é uma aposta de que uma estrela do tamanho de Mbappé pode ajudar a transformar uma empresa de tênis premium em uma marca esportiva mais ampla.
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