A divulgação do mais recente estudo realizado com dados do rover Perseverance, em Marte, foi feita de forma atipicamente sensacionalista e exagerada pela Nasa, indicando uma mudança de tom da agência espacial americana influenciada pela política.
Em sua nota à imprensa, publicada nesta quarta-feira (10), ela atribui a si mesma a conclusão ao declarar em título: “Nasa diz que rover marciano descobriu potencial bioassinatura no ano passado”. Isso porque o artigo científico, publicado no periódico Nature no mesmo dia, é bem mais conservador em suas afirmações. O título, “Associações orgânicas e minerais dirigidas por redox na cratera Jezero em Marte”, não soa como o de alguém que descobriu evidências de vida no planeta vermelho. E por uma boa razão: não descobriu mesmo.
Isso não esvazia a importância do achado. O Perseverance foi enviado à cratera Jezero justamente para buscar evidências de potenciais bioassinaturas —sinais químicos deixados por formas de vida no passado marciano—, como um primeiro esforço para responder se o planeta algum dia, além de habitável, foi de fato habitado por microrganismos.
No ano passado, ao analisar amostras colhidas em uma formação batizada de Bright Angel, o rover detectou em argilas rochosas ricas em carbono orgânico, por medições espectroscópicas, a presença de certos fosfatos ferrosos e sulfetos, provavelmente em minerais vivianita e greigita, respectivamente. Poderiam esses produtos de reações químicas serem bioassinaturas? Sim. Mas ninguém a essa altura sabe se são mesmo.
“Revisamos os vários caminhos pelos quais reações redox que envolvam matéria orgânica podem produzir o conjunto observado em laboratório e em ambientes naturais na Terra”, dizem os pesquisadores encabeçados por Joel A. Hurowitz, da Universidade de Stony Brook, nos EUA, no resumo do artigo. “Enfim, concluímos que a análise do núcleo da amostra colhida dessa unidade usando instrumentação de alta sensibilidade na Terra permitirá as medições necessárias para determinar a origem dos materiais, dos compostos orgânicos e das texturas que ele contém.”
Nenhuma afirmação contundente de possível bioassinatura. Por quê? Porque há outras explicações possíveis, talvez até mais prováveis, para os compostos observados na rocha. Explicam Janice Bishop, do Instituto Seti, e Mario Parente, da Universidade de Massachusetts Amherst, ambos nos EUA, em análise independente do artigo publicada pela mesma Nature.
“Não há evidência de micróbios em Marte hoje, mas se eles estiveram presentes no Marte antigo, eles também poderiam ter reduzido minerais de sulfatos a sulfetos em um lago [como o que existiu] na cratera Jezero”, dizem. “Contudo, dado que as reações químicas em sedimentos antigos em Marte podem ter ocorrido em longas escalas geológicas de tempo, a redução de ferro mais lenta e não biológica a partir de compostos orgânicos ou outras fontes provavelmente levou à formação da vivianita.”
A dupla também ecoa o resumo do artigo de pesquisa, indicando que uma análise isotópica feita com equipamentos sofisticados existentes somente na Terra poderiam distinguir entre uma origem biológica ou não biológica. “Nós estamos ansiosos pela caracterização dessas amostras usando tecnologias analíticas avançadas assim que os materiais recolhidos sejam trazidos à Terra”, dizem Bishop e Parente.
Resumo da ópera: pode até ser uma bioassinatura, mas provavelmente não, e só uma análise mais aprofundada na Terra poderia elucidar a questão. E é aí que a porca da Nasa torce o rabo. Em sua nota à imprensa, não há qualquer menção ao retorno dessas amostras à Terra, embora seja para isso que o Perseverance as esteja colhendo.
A razão para omissão é simples: a administração Trump, em sua proposta orçamentária para a agência em 2026, cancelou o projeto de retorno de amostras, em meio a uma redução pela metade dos gastos com ciência planetária, área na qual o estudo de Marte se enquadra.
Em compensação, a gestão em sua publicação faz muita força para supervalorizar o resultado, destacando que a Nasa continuará produzindo ciência de qualidade, e tenta até mesmo associar a missão do rover à figura de Donald Trump.
“Esse achado pelo Perseverance, lançado sob o presidente Trump em seu primeiro mandato, é o mais perto que já chegamos de descobrir vida em Marte”, diz Sean Duffy, administrador interino da agência (acumulando cargo com a Secretaria de Transportes dos EUA), na nota divulgada. “O compromisso da Nasa de conduzir Ciência Padrão Ouro vai continuar conforme perseguimos nossa meta de colocar botas americanas no solo rochoso de Marte.”
Impossível não fazer a triste constatação de que a comunicação da Nasa voltada ao público está contaminada pela politização da agência — quebrando a longa tradição americana de manter o programa espacial como prioridade de estado, apartidário, e de divulgar com sobriedade e fidelidade seus resultados.
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