Como é que a gente faz para esmigalhar ideias imbecis papagaiadas por gente poderosa? Com fatos e bom humor, é claro. Como isto aqui, por exemplo:
“O espaço é um lugar tão horroroso que, para que ele se torne uma opção melhor que a Terra, uma única calamidade não vai ser suficiente. Uma Terra com mudanças climáticas, guerra nuclear e, tipo, zumbis e lobisomens ainda é muito melhor que Marte. Continuar vivo na Terra exige fogo e um pedaço de pau pontudo. No espaço, é preciso todo tipo de geringonça de alta tecnologia que a gente mal consegue produzir na Terra.”
Se eu fosse uma editora brasileira, já teria lançado há muito o divertidíssimo livro “A City on Mars” (Uma cidade em Marte), escrito pelo casal americano Kelly e Zach Weinersmith (ela é bióloga, ele é cartunista) – é do livro que vem a citação acima, claro. Nos EUA, a obra saiu no finzinho de 2023, mas o conteúdo continua atualíssimo, em especial quando a gente considera que a “hýbris” (a arrogância desmedida, como diriam os gregos de outrora) dos bilionários espaciais não cessou de crescer desde então.
A química explosiva dos Weinersmiths vem, em parte, do fato de que, para os dois, é meio constrangedor ter de defender as posições que acabaram adotando. É um casal de nerds, afinal.
Ambos presenciaram a diminuição considerável dos custos do acesso ao espaço ao longo das últimas duas décadas, em grande parte graças à iniciativa privada, e estavam empolgados com as possibilidades da exploração espacial tripulada. Será que finalmente íamos nos tornar uma espécie multiplanetária?
Mas aí eles resolveram fazer as contas e olhar a letra miúda dos contratos. O resultado não foi dos mais alvissareiros.
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A grande questão, de um lado, é que existe um imenso buraco negro de ignorância sobre o que realmente significa viver fora da Terra por décadas ou pela vida toda. Um exemplo besta: ninguém faz a mais vaga ideia do que aconteceria com um mamífero de grande porte que passasse todo o seu desenvolvimento embrionário num campo gravitacional muito diferente do nosso –e sem o escudo antirradiação da atmosfera e do campo magnético terrestre, um troço muito útil na hora de evitar mutações no DNA.
Tampouco temos muita ideia do que fazer para criar um habitat hermeticamente fechado autossustentável em outro corpo celeste do Sistema Solar –o cultivo de batatas do livro/filme “Perdido em Marte”, por exemplo, deixa de lado o fato de que o solo marciano é mais tóxico que a baba de Satanás.
E olha que eu não falei das questões econômicas e geopolíticas. Quem fala em minerar a Lua ou o cinturão de asteroides nem sempre lembra que vai ser preciso processar muita pedra extraterrestre até conseguir alguma quantidade razoável de minério. Por fim, a legislação internacional sobre a posse de territórios e futuras nações fora da Terra peca por falta de clareza e pode virar objeto de confrontos entre grandes potências.
Nada disso, claro, equivale a dizer que a exploração espacial é bobagem ou perda de tempo. Significa apenas que colonizar parte do Sistema Solar é um projeto para muitos séculos, não décadas. E que, mesmo assim, jamais existirá “Planeta B”. Quem disser o contrário merece cada gargalhada provocada pelo livro dos Weinersmiths.
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