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A Lei Áurea foi um marco, mas uma revolução incompleta. O Brasil aboliu a escravidão, mas falhou em educar os ex-escravizados e seus descendentes. Essa omissão da elite republicana perpetua o analfabetismo e impede o pleno desenvolvimento do país, limitando o capital social e a democracia.
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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.
Na semana passada, em 13 de maio, a sociedade brasileira lembrou o único gesto revolucionário de sua história, com a Lei Áurea, de 1888: a desapropriação sem indenização dos donos de 800 000 seres humanos. Mesmo assim, foi uma revolução incompleta. As algemas foram abertas, mas não se ofereceu a ex-escravizados um caminho. Não lhes coube acesso à educação. Foram soltos, mas não libertados. O abolicionismo foi vitorioso em seu propósito de aprovar uma norma com um único artigo que declarava “extinto o trabalho servil em todo o território nacional”. Contudo, nada se apresentou na direção de um sistema nacional de educação para aquelas pessoas.
O brado de Joaquim Nabuco a partir da janela do Palácio Imperial, onde minutos antes a princesa regente assinara a Lei Áurea, ecoa ainda hoje: “Não há mais escravos no Brasil”. Contudo, desde então, nenhum líder educacionista pôde gritar: “No Brasil não há mais adulto sem a educação necessária para o mundo contemporâneo”. É lamentável. A demora de três séculos para abolir a escravidão foi uma opção inteligente, embora atrasada e imperfeita, da egoísta e imediatista elite luso-brasileira. Nos 140 anos posteriores, não abolir o analfabetismo foi uma escolha imoral e estúpida da elite republicana, porque impossibilita a ampliação do capital social de toda a sociedade, impedindo que o povo educado aumente a produtividade com eficiência, distribua a renda com justiça, promova estabilidade democrática, reduza a violência urbana.
“A sociedade brasileira se recusa a implementar um sistema nacional e escolas de qualidade”
Nesse período, a sociedade brasileira fez pequenas reformas, como salário mínimo, férias e 13º salário, ampliou a matrícula nas primeiras séries do ensino fundamental, implantou o SUS — mas se recusa a implementar um sistema nacional de escolas com qualidade máxima e equidade plena, em que todos concluam a educação de base plenamente educados para enfrentar e construir o mundo contemporâneo.
A sociedade que no final do século XIX deu um passo fundamental e civilizatório, tímido em demasia, não foi capaz de ampliar o capital de conhecimento necessário à economia do século XXI. Seguimos negando aos descendentes sociais dos escravizados, quase todos também descendentes raciais, a educação exigida para aumentar a riqueza nacional que caracteriza um povo educado: produtivo, promotor de ciência, tecnologia, inovação, democracia, justiça e sustentabilidade. O resultado é que, um século e meio depois da abolição da escravatura, que soltou mas não libertou os brasileiros presos a grilhões, o país ainda tem 10 milhões de adultos “analfabetos plenos” e, no máximo, 10 milhões de adultos “alfabetizados plenos” — cidadãos, enfim, com o conhecimento suficiente para orientar seu destino e com as ferramentas necessárias para participar da construção de um país melhor.
E quais seriam essas ferramentas? Ler, escrever, entender e criticar textos em português, ter fluência em pelo menos um idioma estrangeiro, dominar as bases das ciências, da matemática, história, geografia, ter habilidade em um ofício profissional e ter formação moral para participar politicamente da realização de desenvolvimento sustentável, justo, democrático. Ainda falta um Nabuco educacionista que, em um suposto 13 de maio lá da frente, e que não demore a vir, possa bradar: “O Brasil é um país plenamente educado para a contemporaneidade”.
Publicado em VEJA de 22 de maio de 2026, edição nº 2996
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