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O Caso Venezuela e o ‘roadmap’ de sempre – 22/01/2026 – Políticas e Justiça

A invasão americana à Venezuela e a captura de Maduro são vendidas como um episódio de ordem, soberania, segurança e/ou democracia. Mas isso é a superfície. No centro da disputa está o petróleo, velho conhecido da geopolítica do medo. Quando grandes potências se movimentam, não é apenas um governo que cai ou se rearranja. É o mercado energético global que se reacomoda, pressionando países vizinhos a responderem com mais extração, mais concessões e menos cuidado. E o Brasil não está fora desse tabuleiro.

A lógica é conhecida: se a “New Venezuela” tutelada volta ao jogo, a oferta muda, os preços tendem a oscilar e a corrida por competitividade se intensifica. Isso empurra países como o Brasil a furar mais poços, acelerar licenças, flexibilizar regras ambientais e transformar urgência econômica em justificativa político-econômica. O discurso do desenvolvimentista reaparece, mas quem paga a conta raramente aparece nas planilhas. O petróleo circula, o capital respira, e o território sangra.

É nesse ponto que a crise deixa de ser apenas geopolítica e se torna climática e racial. A expansão da exploração energética não avança sobre bairros ricos ou zonas já protegidas pelo conforto político. Ela avança sobre a Foz do Amazonas, florestas, sobre terras indígenas, sobre reservas ambientais e sobre comunidades quilombolas que historicamente já vivem no limite da sobrevivência. São esses corpos e territórios que absorvem o impacto da contaminação, do desmatamento, da água imprópria, do ar irrespirável. O sofrimento ambiental tem cor e história.

Quando se fala em segurança energética, raramente se fala em segurança alimentar. Quando se fala em soberania, pouco se fala da soberania dos povos que vivem onde o petróleo está enterrado. A guerra pelo controle de recursos redefine fronteiras invisíveis e transforma vidas em danos colaterais aceitáveis. É uma pedagogia cruel que ensina que algumas populações podem ser sacrificadas em nome da estabilidade do mercado e do progresso.

Os avanços conquistados na COP30 correm risco real nesse cenário. Compromissos climáticos são frágeis quando confrontados com interesses imediatos, e a pressão por crescimento rápido costuma atropelar qualquer promessa de transição justa. O Brasil, que poderia liderar um caminho mais responsável, corre o risco de repetir a velha escolha: crescer agora, reparar sabe-se lá quando.

Esse é o coração da geopolítica do terror e do medo. Não é apenas sobre tanques, sanções ou prisões espetaculares. É sobre quem terá seu território invadido sem manchete, quem perderá direitos sem anúncio oficial, quem adoecerá sem compensação. Falar de Venezuela é também falar do futuro ambiental do Brasil e da América Latina.

Se não deslocarmos o debate do petróleo para as pessoas e para o clima, seguiremos presos a uma lógica que acumula riqueza de um lado e distribui sofrimento do outro. E, como quase sempre, os mais vulneráveis pagarão o preço de uma guerra que nunca escolheram travar.

A saber se a ONU regula a América!

O editor, Michael França, pede para que cada participante do espaço Políticas e Justiça da Folha de S. Paulo sugira uma música aos leitores. Nesse texto, a escolhida por Vítor Del Rey foi “Ninguém Regula América”, de Sepultura e O Rappa.


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