O futuro da aliança conservadora católico-evangélica – 07/10/2026 – Darwin e Deus

A ferocidade do período eleitoral pode até ter distorcido os fatos acerca do que significa agora, em termos políticos, a aversão evangélica a Nossa Senhora Aparecida e outros símbolos de culto católicos. Proponho aqui uma questão diferente: o que pode acontecer nas próximas décadas?

Quanto a isso, não me parece exagero imaginar que há ao menos certo elemento de bomba-relógio na atual aliança entre católicos e evangélicos fortemente conservadores/reacionários (a adjetivação, aqui, vale para ambos) no Congresso e em outras esferas da política brasileira. Estamos falando de “ecumenismo de conveniência”.

Como bem apontou Rodrigo Toniol em coluna recente para esta Folha, as duas grandes alas cristãs brasileiras, em suas vertentes de direita, têm importantes afinidades eletivas na chamada pauta de costumes.

Oposição ao aborto e à igualdade de direitos para casais homossexuais, de um lado, e o temor em relação à chamada “ideologia de gênero” nas escolas, do outro, são parte importante da lista, assim como uma aversão quase supersticiosa a pessoas trans. Em especial no que diz respeito à questão do aborto, políticos católicos dessa vertente estão alinhados com o magistério papal e com a própria CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), embora haja muitas discordâncias relevantes entre eles e a hierarquia eclesiástica em outros temas.

Ora, se ambos os grupos convergem quanto a essa pauta, a qual, aliás, parece ser uma tremenda puxadora de votos (conforme sugerem os resultados eleitorais de 2026), onde poderia estar o problema? Bem, as rusgas sobre a padroeira do Brasil indicam que diferenças históricas profundas ainda podem falar alto.

Todas as denominações cristãs protestantes, claro, nascem de uma condenação –e de início, quase sempre, de uma condenação feroz– do catolicismo e do “papismo”, como se dizia na Inglaterra a partir do século 16. As igrejas evangélicas brasileiras, por mais que tenham se distanciado em organização ou teologia do protestantismo histórico, são herdeiras dessa tradição, em especial considerando a influência de denominações e missionários vindos dos EUA desde o século 19 até hoje.

Nessa tradição, não é incomum que o papa seja visto como avatar do Anticristo, e a Igreja Católica como um todo, a “Prostituta da Babilônia” (figura do livro do Apocalipse). A veneração católica à Virgem Maria e aos santos, por sua vez, é descrita como um retorno à idolatria a falsos deuses ou a demônios que caracterizava, segundo a visão cristã, os pagãos da Antiguidade. É nesse contexto que se insere, por exemplo, o episódio do “chute na santa” (que teve como alvo Nossa Senhora Aparecida), transmitido na TV e protagonizado por um bispo da Igreja Universal do Reino de Deus em 1995.

Essa retórica não desapareceu de todo dos cultos e do discurso dos fiéis, embora pastores mais proeminentes tendam a evitá-la em público hoje. A questão é saber qual será o destino dela caso o equilíbrio de forças se torne ainda mais favorável ao lado evangélico da equação.

O avanço dessas igrejas sobre uma massa de fiéis outrora esmagadoramente católica parece ter desacelerado nos últimos anos, a julgar pelos últimos dados do Censo, mas não parou. Num Brasil de maioria evangélica, a aliança com o catolicismo conservador pode se tornar cada vez menos conveniente, ou mesmo necessária, para os objetivos políticos dos representantes dessas denominações.

E faz sentido considerar ainda outra variável. Há certa dinâmica de corrida armamentista evolutiva no discurso político-religioso ao longo dos últimos ciclos eleitorais. Basta ver que a oposição mais vaga ao “feminismo” tem se metamorfoseado numa defesa aberta do fim do voto feminino (às vezes, curiosamente, vindo até de candidatas mulheres). Posições mais radicais emergem para tentar se destacar em meio a um oceano de ideias já radicalizado, feito caudas de pavão ou chifres de cervo ganhando tamanho e complexidade cada vez maiores.

Esse processo pode muito bem levar à conclusão de que está na hora de jogar aos leões os parceiros católicos, com o objetivo de solapar a influência institucional de que o catolicismo ainda goza no Brasil (Nossa Senhora Aparecida é um alvo óbvio, mas há também feriados e manifestações populares que poderiam entrar na mira de um ataque simbólico do tipo).

Em suma, talvez o lado católico da aliança deva começar a se perguntar se o casamento de conveniência vai continuar valendo a pena por muito mais tempo.


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