A aquisição da Serra Verde pela USA Rare Earth, avaliada em US$ 2,8 bilhões, ganhou um significado maior com a escolha de Thras Moraitis para comandar a companhia resultante da operação. O executivo que conduziu a mineradora brasileira para o centro da estratégia de minerais críticos dos Estados Unidos assumirá o cargo de CEO em 1º de outubro ou quando a transação for concluída.
O desenho original era diferente. Quando a compra foi anunciada, em abril, Barbara Humpton permaneceria como CEO e Moraitis seria presidente da USA Rare Earth, subordinado a ela. Agora, Humpton deixará a companhia, enquanto Michael Blitzer ganhará poderes ampliados como presidente executivo do conselho. A mudança entrega a gestão operacional do grupo justamente ao executivo que comandava o ativo adquirido.
Moraitis, de 63 anos, tem nacionalidades britânica e grega e foi criado na África do Sul, onde começou a carreira como engenheiro em minas de ouro. Sua especialidade, porém, passou a ser a montagem de grandes negócios. Foi chefe de Estratégia e Assuntos Corporativos da Xstrata, integrou o comitê executivo da mineradora e participou de cerca de 40 transações.
Sua trajetória é estreitamente ligada à de Mick Davis, ex-CEO da Xstrata e atual presidente do conselho da Serra Verde. Os dois também participaram da X2 Resources, veículo que levantou US$ 5,6 bilhões para aquisições no setor mineral. Davis e Moraitis ingressarão no conselho da USA Rare Earth após o fechamento da operação.
Moraitis assumiu a Serra Verde em janeiro de 2023, simultaneamente à entrada de novos investidores liderados pela Vision Blue Resources, fundada por Davis, e pela Energy & Minerals Group. Os atuais acionistas da mineradora brasileira, grupo que inclui ainda Denham Capital e Orion Resource Partners, receberão US$ 300 milhões e 126,8 milhões de ações da USA Rare Earth. Juntos, ficarão com aproximadamente 34% da companhia combinada.
Foi sob o comando de Moraitis que a Serra Verde acelerou seu deslocamento da China para os Estados Unidos. A mineradora havia firmado contratos de dez anos com companhias chinesas, então as únicas capazes de processar em escala as terras raras pesadas produzidas em Goiás. Esses acordos foram renegociados e terminarão no fim de 2026, abrindo espaço para compradores ocidentais.
Na sequência, a Serra Verde obteve US$ 565 milhões em financiamento da International Development Finance Corporation, a DFC, agência do governo americano. Também assinou um contrato de 15 anos para vender 100% da produção de neodímio, praseodímio, disprósio e térbio da primeira fase do projeto a um veículo capitalizado por entidades dos Estados Unidos e investidores privados. O acordo prevê pisos de preço para proteger a operação da volatilidade e de eventuais movimentos chineses sobre as cotações.
A influência de Washington vai além do financiamento e da compra da produção. A DFC recebeu direitos econômicos sobre a Serra Verde e instrumentos de participação na governança da estrutura financiada. O fechamento da aquisição depende de consentimentos relacionados à agência americana. Do outro lado, a USA Rare Earth possui acordos que podem liberar até US$ 1,6 bilhão em financiamento e apoio do Departamento de Comércio dos Estados Unidos.
No Brasil, a transação já provocou questionamentos no STF, na PGR, no Cade e no Ministério de Minas e Energia. Em resposta à Câmara, o MME informou que a ANM ainda não havia recebido uma operação de transferência ou cessão dos títulos minerários. O ministério ressaltou, contudo, que uma aquisição do controle societário não equivale necessariamente à transferência direta desses direitos.
A diferença de tratamento resume a dimensão geopolítica do negócio. Enquanto, no Brasil, a operação é analisada inicialmente como uma mudança de controle societário, os Estados Unidos a apresentam como parte de sua política de segurança nacional e de redução da dependência da China. Moraitis, que já manteve encontros com representantes do Departamento de Estado, será o executivo responsável por administrar essa ponte entre os dois países.
A USA Rare Earth afirma que a incorporação da Serra Verde permitirá formar a primeira cadeia totalmente integrada de terras raras do Ocidente, da extração à fabricação de ímãs. Ainda não está claro, porém, quanto da produção ou do processamento permanecerá disponível para a indústria brasileira. Essa deverá ser uma das principais discussões sobre a operação à medida que Moraitis se torna um dos personagens centrais da relação econômica entre Brasil e Estados Unidos.
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