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O milenar jogo de xadrez descobre novas formas de atrair público — e dinheiro

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Durante séculos, o xadrez foi associado a salões silenciosos, clubes sisudos e partidas longas, acompanhadas por um público restrito de iniciados. Por mais que essa imagem ainda exista, ela agora convive com uma face pop e tecnológica. Nos últimos anos, o jogo milenar ultrapassou os limites do tabuleiro e migrou para as telas. Uma nova geração de enxadristas passou a movimentar peças virtuais em plataformas on-line e a se informar sobre aberturas, estratégias e finalizações por meio de perfis especializados nas redes sociais. Essa transformação está expandindo as oportunidades de negócios relacionados ao xadrez. E ajuda a impulsionar as tradicionais: a venda de tabuleiros físicos, que movimenta 3 bilhões de dólares globalmente, cresce ao ritmo de 11% ao ano.

O jogo ganhou novos adeptos durante a pandemia, quando milhões de pessoas buscaram novas formas de entretenimento e socialização dentro de casa. Segundo a Federação Internacional de Xadrez (Fide), o número de partidas disputadas diariamente em sites e aplicativos cresceu de cerca de 11 milhões para 17 milhões nos primeiros meses de 2020. Plataformas como Chess.com tornaram o jogo uma experiência acessível a qualquer pessoa com um celular ou computador. A modernização chegou aos torneios mais tradicionais do circuito, como o Norway Chess, disputado anualmente na Noruega e considerado um dos mais prestigiados do calendário internacional. Em seu site oficial, o evento destaca números que lembram mais uma empresa de mídia do que uma competição esportiva: em 2025, foram 342 horas de conteúdo em streaming, assistidas 24 milhões de vezes e com impressionantes 546 milhões de visualizações nas redes sociais. Na edição de 2026, que terminou no início deste mês, a tendência se intensificou. Os canais oficiais do torneio publicaram entrevistas rápidas, bastidores, piadas entre jogadores, vídeos curtos para redes sociais e conteúdos que exploram a personalidade dos enxadristas. Em vez de apenas acompanhar lances no tabuleiro, o público passa a consumir histórias.

A audiência on-line abriu novas possibilidades de carreira aos enxadristas. Por décadas, as fontes de renda da modalidade eram só aulas presenciais e premiações em torneios. “Hoje, os jogadores podem dar aulas em lives, fazer transmissões, comentar partidas e produzir conteúdo. Há vários canais especializados em xadrez, ensino e análise de posições”, diz César Viegas, vice-presidente de relações exteriores da Confederação Brasileira de Xadrez. No ano passado, o xadrez ganhou status de game ao estrear no Esports World Cup, o maior evento de esportes eletrônicos do mundo. “Os mais novos começam a se enxergar no xadrez e a se identificar com os atletas”, diz Tiana Tischler, mãe da brasileira Maria Tischler, mestre nacional de apenas 12 anos.

A principal referência desse novo modelo é Magnus Carlsen, número 1 do ranking da Fide. O norueguês acumulou 1,45 milhão de dólares em prêmios de campeonatos em 2025. Mas essa é apenas uma fração de seus ganhos totais, que não são divulgados. Além de contratos de patrocínio com marcas como Puma e Mastercard, o enxadrista se tornou empresário do setor. Em 2022, a Play Magnus, empresa da qual foi cofundador e que reúne plataformas de ensino e serviços voltados à prática do jogo on-line, foi vendida ao Chess.com por 82 milhões de dólares. “O xadrez nunca encontrou espaço na televisão convencional. A internet permitiu transmitir partidas, comentar lances em tempo real e alcançar um público global”, diz Viegas. Os grandes mestres da atualidade descobriram no xeque-mate digital a jogada mais rentável.

Publicado em VEJA de 19 de junho de 2026, edição nº 3000

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