Quando as águas do Oceano Pacífico Equatorial começam a aquecer acima do normal por vários meses consecutivos, os efeitos podem ser sentidos muito além da região onde isso acontece. Mudanças no regime de chuvas, ondas de calor, secas prolongadas e enchentes passam a ocorrer com maior frequência em diferentes partes do planeta. Conhecido como El Niño, esse fenômeno está entre os mais importantes reguladores naturais do clima terrestre.
Embora receba atenção especial durante eventos extremos, o El Niño faz parte de um ciclo climático natural que ocorre há milhares de anos. Ele integra um sistema chamado ENSO, sigla para El Niño-Oscilação Sul, responsável por mudanças periódicas na interação entre o oceano e a atmosfera sobre o Pacífico tropical.
Nesta reportagem especial, vamos entender todos os detalhes do El Niño.
Por que o fenômeno é chamado de El Niño
O nome surgiu na costa do Peru e do Equador. Pescadores locais observaram que, próximo ao período do Natal, correntes de água mais quente substituíam temporariamente as águas frias e ricas em nutrientes que normalmente predominam na região. Como o fenômeno aparecia na época do nascimento de Jesus Cristo, passou a ser chamado de “El Niño”, ou “Menino”, em espanhol.
Apesar de ser conhecido por populações locais há séculos, a compreensão científica começou apenas no final do século XIX. Em 1891, o geógrafo e oficial da Marinha peruana Camilo Carrillo publicou uma das primeiras descrições técnicas do fenômeno.
Nas décadas seguintes, o meteorologista britânico Gilbert Walker identificou oscilações na pressão atmosférica sobre o Pacífico que ajudaram a explicar o mecanismo responsável por essas mudanças climáticas.
Foi somente a partir da segunda metade do século XX que pesquisadores conseguiram demonstrar que o aquecimento das águas do Pacífico e as alterações atmosféricas observadas por Walker faziam parte do mesmo sistema climático. Desde então, satélites, boias oceânicas e modelos computacionais passaram a monitorar continuamente o fenômeno.
Os episódios mais marcantes da história recente
Alguns eventos ficaram marcados pela intensidade excepcional. O El Niño de 1982-1983 é considerado um dos mais severos do século XX. O episódio provocou enchentes e deslizamentos na América do Sul, secas em outras regiões do planeta e grandes prejuízos à agricultura e à pesca.
Já o de 1997-1998 é frequentemente citado como o maior da história, causando secas severas, enchentes devastadoras e impactos econômicos globais. Segundo a NASA, ao analisar o período, “a Organização das Nações Unidas (ONU) atribuiu ao El Niño mais de 20 mil mortes e 36 bilhões de dólares em danos à infraestrutura”.
Outro episódio de grande magnitude ocorreu entre 2015 e 2016. Naquele período, as temperaturas globais atingiram recordes históricos, enquanto diversas regiões enfrentaram extremos climáticos.
“Já em 2023 e 2024, o fenômeno foi considerado moderado no Pacífico, mas mesmo assim contribuiu para eventos extremos e chuvas excessivas no Rio Grande do Sul”, lembra o climatologista Carlos Nobre, doutor em Meteorologia pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos EUA, e referência internacional em aquecimento global, em entrevista ao Olhar Digital.
Segundo ele, isso está relacionado ao aquecimento global. “O El Niño cria condições que podem intensificar fenômenos meteorológicos já conhecidos, como os ciclones extratropicais, tornando-os mais fortes no Sul do Brasil”, explica Nobre. “Além disso, em 2023 e 2024, o Oceano Atlântico registrou temperaturas excepcionalmente elevadas. Esse aquecimento aumentou a evaporação da água, fornecendo mais vapor para a formação de nuvens e chuvas intensas”.
Como o El Niño afeta cada continente
O alcance global do El Niño se explica pela forma como ele altera a circulação atmosférica. O calor acumulado no Pacífico tropical influencia correntes de vento que ajudam a distribuir energia e umidade ao redor do planeta. Como consequência, regiões muito distantes podem experimentar mudanças significativas no clima.
Na América do Sul, os efeitos costumam ser especialmente evidentes. O sul do continente frequentemente registra aumento das chuvas, enquanto partes da Amazônia e do Nordeste brasileiro podem enfrentar períodos mais secos. Em países como Peru e Equador, enchentes e deslizamentos tornam-se mais frequentes durante eventos intensos.
Na América do Norte, o fenômeno costuma modificar o comportamento do inverno. Áreas do sul dos Estados Unidos geralmente recebem mais chuva, enquanto determinadas regiões do norte registram temperaturas acima da média. Além disso, o El Niño pode influenciar a atividade de furacões nos oceanos Atlântico e Pacífico.
Na África, os impactos variam conforme a região. Países da África Austral frequentemente enfrentam secas severas, comprometendo a agricultura e o abastecimento de água. Em contrapartida, áreas da África Oriental podem registrar precipitações acima do normal, elevando o risco de enchentes.
Na Ásia, o fenômeno costuma afetar diretamente a produção agrícola. Países como Índia, Indonésia e Filipinas podem enfrentar redução das chuvas e secas prolongadas. Em alguns casos, a diminuição da disponibilidade de água afeta milhões de pessoas e compromete colheitas importantes para a segurança alimentar.
A Oceania também sente fortemente os efeitos do aquecimento do Pacífico. Na Austrália, episódios de El Niño costumam estar associados a secas, ondas de calor e aumento do risco de incêndios florestais. Em eventos mais intensos, os impactos podem se estender por vários meses.
Na Europa, as consequências tendem a ser menos diretas. Ainda assim, estudos mostram que alterações na circulação atmosférica global podem influenciar padrões de temperatura e precipitação em diferentes partes do continente, especialmente durante o inverno.
No Brasil, os efeitos são conhecidos por meteorologistas e produtores rurais. A região Sul costuma registrar chuvas acima da média, aumentando o risco de enchentes e deslizamentos. Já partes do Norte e do Nordeste frequentemente enfrentam redução das precipitações, o que favorece secas e incêndios florestais.
O Centro-Oeste e o Sudeste também podem experimentar mudanças importantes. Ondas de calor mais intensas e períodos prolongados de estiagem são alguns dos efeitos observados em diferentes episódios do fenômeno. Dependendo da intensidade do evento, setores como agricultura, geração de energia e abastecimento de água podem ser diretamente afetados.

Sobre esse cenário, Paulo Eduardo Artaxo Netto, físico com mestrado em física nuclear e doutorado em física atmosférica pela Universidade de São Paulo (USP), e professor titular do Instituto de Física da instituição, observa que os efeitos esperados no Brasil são similares aos de 2024. “Primeiro, secas muito intensas na região amazônica e nordeste brasileiro, um consequente aumento das emissões de queimadas e chuvas muito intensas no Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina. E também um aumento de fenômenos de calor extremo no sudeste, particularmente em São Paulo e Minas Gerais. Esse é o padrão meteorológico do El Niño, que deve se repetir no segundo semestre de 2026.”
É oficial: tem El Niño em 2026 e ele já chegou
Os impactos econômicos costumam ser significativos. Um estudo publicado na revista Science estimou que os eventos de El Niño de 1982-1983 e 1997-1998 causaram perdas globais que somam trilhões de dólares ao longo das décadas seguintes, em razão dos danos à infraestrutura, agricultura, pesca e produtividade econômica.
Em 2026, o fenômeno voltou a chamar atenção da comunidade científica internacional. Após o enfraquecimento das condições associadas à La Niña, modelos climáticos passaram a indicar o desenvolvimento de um novo episódio de El Niño no Pacífico Equatorial.
Isso foi confirmado em 11 de junho, e as previsões divulgadas por centros meteorológicos internacionais apontam alta probabilidade de persistência do fenômeno durante boa parte do segundo semestre de 2026 e início de 2027. Além disso, alguns modelos sugerem a possibilidade de um evento de intensidade elevada.
Sobre a magnitude esperada para os próximos meses, Nobre reforça a gravidade do quadro: “Há uma probabilidade muito alta, em torno de 96%, de que ele atinja intensidade forte ou até muito forte entre setembro e novembro. As chances de este ser um dos eventos mais intensos já registrados são extremamente elevadas. Por isso, precisamos estar muito preparados.”

Ao avaliar essa possibilidade, Artaxo complementa a necessidade de cautela: “Um super El Niño pode vir no segundo semestre, mas nós temos que confirmar essa hipótese, digamos, no final de julho, começo de agosto. Isso vai depender de como o El Niño se desenvolve de agora até o mês de agosto, mas tudo indica que podemos sim ter um El Niño forte, mas a ciência ainda não consegue saber a intensidade exata desse El Niño, mas isso não quer dizer que nós não temos que nos preparar já para um El Niño médio, forte ou super forte.”
Segundo Nobre, as coisas mudaram muito ultimamente. “No passado, um El Niño muito forte poderia ocorrer apenas uma vez a cada 20 ou 30 anos. Agora, é possível que eventos dessa magnitude aconteçam mais de uma vez por década”, diz o especialista, fazendo um alerta: “Se o aquecimento global continuar avançando, episódios fortes e muito fortes poderão se tornar cada vez mais frequentes”.
A relação com o aquecimento global
Nos últimos anos, pesquisadores têm dedicado atenção especial à relação entre El Niño e mudanças climáticas. O consenso científico atual aponta que o fenômeno continua sendo um processo natural. Entretanto, o aquecimento global provocado pelas atividades humanas pode intensificar algumas de suas consequências.
Em um planeta mais quente, a atmosfera consegue armazenar mais vapor d’água. Isso significa que episódios de chuva extrema podem se tornar mais intensos. Da mesma forma, ondas de calor e períodos de seca podem atingir níveis ainda mais elevados quando coincidem com um evento forte de El Niño.
Questionado no programa Olhar Digital News sobre a relação entre o fenômeno natural e as mudanças climáticas provocadas pelo homem, Artaxo explicou: “A atmosfera terrestre já se aqueceu 1,5 grau Celsius como efeito das emissões de combustíveis fósseis ao longo dos últimos 150 anos. Os oceanos também se aqueceram, cerca de um grau Celsius no caso do Pacífico. Portanto, o El Niño já se inicia num padrão de temperatura mais alto do que existia 50 ou 100 anos atrás. Isso intensifica o fenômeno El Niño, que é causado por um aquecimento anômalo das águas do Pacífico. Portanto, vemos as mudanças climáticas intensificando os fenômenos El Niño.”
Nobre complementa essa análise sobre o papel do oceano: “O aquecimento global pode tornar os episódios de El Niño mais intensos porque a temperatura do Oceano Pacífico, assim como a do restante do planeta, já está aumentando. Quando um fenômeno de El Niño ocorre sobre um oceano mais quente, sua intensidade tende a ser maior. A ciência vem alertando para isso há bastante tempo.”
Oswaldo Lucon, especialista em mudanças climáticas e pesquisador do Instituto de Energia e Ambiente da USP, ressalta que os riscos são sistêmicos. “Há riscos de crises hídricas, perdas agrícolas e impactos econômicos, especialmente porque o país depende fortemente da agropecuária e de toda a cadeia produtiva associada”. Em entrevista ao Olhar Digital, o pesquisador apontou que, em estados como São Paulo, a recorrência de incêndios florestais torna-se um dos sintomas mais críticos dessa nova realidade climática.
O impacto social também é uma preocupação central, atingindo grupos mais frágeis, como crianças e idosos. Lucon alerta ainda para a desigualdade urbana no enfrentamento ao calor: “Pessoas que vivem em áreas periféricas, com pouca arborização e forte exposição ao calor, sofrem mais com as chamadas ilhas de calor. Isso aumenta problemas de saúde e amplia os desafios para os sistemas públicos de atendimento”.
Além disso, famílias de baixa renda geralmente dispõem de menos recursos para enfrentar perdas agrícolas, reconstruir moradias atingidas por desastres ou adaptar suas atividades econômicas às novas condições climáticas. É exatamente essa fragilidade estrutural que torna qualquer evento climático extremo um desastre social de grandes proporções.
Revisitando os episódios mais críticos, como as enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul, surge a dúvida sobre a real influência do fenômeno. Especialistas afirmam que o El Niño foi um dos fatores que contribuíram para o excesso de chuva observado naquele período. No entanto, ele não explica sozinho a dimensão do desastre.
Pesquisas indicam que fatores atmosféricos regionais e o aquecimento global também desempenharam papel importante na intensificação das precipitações. Em outras palavras, o El Niño ajudou a criar condições favoráveis, mas atuou em conjunto com outros elementos climáticos.
Sobre a La Niña e o Super El Niño
A principal contraparte do El Niño é a La Niña. Enquanto o primeiro ocorre quando as águas superficiais do Pacífico Equatorial ficam mais quentes que o normal, a La Niña é caracterizada pelo resfriamento dessas mesmas águas.
Os efeitos também tendem a ser opostos. No Brasil, por exemplo, a La Niña geralmente favorece períodos mais secos no Sul e aumento das chuvas em partes do Norte e Nordeste. Ainda assim, cada evento possui características próprias e pode apresentar variações importantes.
Outro tópico que vem despertando interesse é a possibilidade de um chamado Super El Niño. O termo é utilizado para descrever episódios excepcionalmente intensos, semelhantes aos observados em 1982-1983, 1997-1998 e 2015-2016.

Embora ainda não exista certeza sobre a evolução do atual evento, alguns modelos climáticos indicam condições compatíveis com um aquecimento oceânico muito acima da média. Caso esse cenário se confirme, os impactos podem superar aqueles normalmente observados em eventos convencionais.
Entre os riscos adicionais estão ondas de calor recordes, secas prolongadas, incêndios florestais mais frequentes, perdas agrícolas significativas e aumento do número de enchentes em regiões historicamente vulneráveis. Também existe a possibilidade de novos recordes globais de temperatura.
Estratégias para enfrentar os impactos do fenômeno
Diferentemente de furacões ou tempestades isoladas, o El Niño não pode ser evitado. Por se tratar de um fenômeno natural ligado ao funcionamento do sistema climático terrestre, não existe tecnologia capaz de impedir sua formação.
O que pode ser feito é reduzir os danos. Investimentos em sistemas de alerta precoce, monitoramento meteorológico, planejamento urbano, gestão de recursos hídricos e adaptação da agricultura são considerados as estratégias mais eficazes para enfrentar seus impactos.
“É fundamental investir em brigadas de incêndio, planos de contingência para segurança hídrica e estruturas de apoio para a população mais vulnerável durante ondas de calor, como espaços climatizados e acesso facilitado à água”, sugere Lucon. “No médio e longo prazo, é indispensável financiar a adaptação climática. Não existe adaptação sem recursos financeiros. O dinheiro precisa vir de algum lugar. Na minha visão, deveria seguir o princípio do poluidor-pagador, envolvendo aqueles que produzem e consomem combustíveis fósseis”.
Artaxo aponta que a agropecuária é um dos setores que mais serão impactados pelo El Niño. “Secas intensas no Brasil central reduzem a produtividade e chuvas intensas no Rio Grande do Sul podem acabar com a produção agropecuária do Estado, como aconteceu em 2024. Então, todo cuidado é pouco. Temos que monitorar a situação com cuidado, eventualmente mudando os períodos de plantio e colheita neste segundo semestre para tentar minimizar os impactos do El Niño na produtividade agropecuária do Brasil.”
O especialista lamenta que “infelizmente, o Brasil não avançou muito na implementação de medidas que possam proteger tanto a população quanto a economia do país em relação aos eventos climáticos extremos”.
Segundo ele, existem bons planos, como o Plano Adapta Brasil, o Plano Clima, mas que ainda estão no papel. “Portanto, nós temos que reforçar as defesas civis para dar atendimento à população, precisamos reforçar o nosso sistema de saúde pública para atender a essa demanda maior causada por essas ondas de calor, inundações e grandes secas e temos que nos adaptar ao novo clima. Isso tem que ser feito com programas de Estado, não um programa de governo, por longo prazo, porque o clima já mudou e vai continuar mudando mais ainda ao longo das próximas décadas.”
Artaxo se refere a duas iniciativas do governo federal criadas para ajudar o país a enfrentar os impactos das mudanças climáticas.
A primeira delas é o projeto AdaptaBrasil, lançado em 2021. A plataforma reúne mapas, indicadores e projeções que permitem a estados e municípios identificar riscos como secas, enchentes, deslizamentos e ondas de calor em diferentes regiões do país.
Embora tenha ampliado o acesso a informações estratégicas para o planejamento, o sistema não prevê diretamente a execução de obras ou investimentos. Na prática, seu sucesso depende de que os diagnósticos produzidos sejam transformados em ações concretas pelos governos federal, estaduais e municipais.
Já o Plano Clima 2024-2035 é a principal estratégia nacional para orientar a resposta brasileira às mudanças climáticas na próxima década. Elaborado a partir de 2023, submetido a consultas públicas em 2024 e lançado oficialmente em 2026, o documento estabelece metas e diretrizes para reduzir as emissões de gases de efeito estufa e fortalecer a adaptação do país aos eventos extremos.
O plano contempla áreas como agricultura, infraestrutura, recursos hídricos, energia e defesa civil. Apesar da abrangência, grande parte das medidas ainda depende de regulamentação, definição de recursos financeiros e implementação pelo poder público para ser colocada em prática.
À medida que o planeta continua aquecendo, cientistas alertam que compreender e monitorar o El Niño se torna cada vez mais importante. Embora seja um fenômeno natural, sua interação com as mudanças climáticas pode transformar eventos já conhecidos em desafios ainda maiores para governos, empresas e populações em todo o mundo.
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