Depois do irmão Vorcaro, agora é a vez da madrasta Michelle atrapalhar a vida de Flávio Bolsonaro.
Michelle Bolsonaro gravou um vídeo dizendo que Flávio Bolsonaro a apunhalou pelas costas, a humilhou com sua rispidez e faz alianças com que já chamou ele e seu pai de ladrão e de nazista. Também protestou contra a exclusão de mulheres das chapas bolsonaristas para o Senado esse ano: Priscila Costa, preterida no Ceará depois da aliança com Ciro Gomes, e Carol de Toni, que perdeu a vaga de candidata ao Senado pelo PL em Santa Catarina para Carlos Bolsonaro. Ao dizer, repetidas vezes, que só agia em concordância com o marido, Michelle sugeriu fortemente que, quando Flávio a desautorizava, desautorizava Jair. Afinal, se ela só repete o que Jair diz, o vídeo de quarta-feira também deve ter sido feito com a bênção de Bolsonaro.
Flávio poderia ter respondido: “Cara madrasta, se eu descartasse quem acha que eu e meu pai somos ladrões e fascistas, só me sobrariam aliados burros. E por que diabos você pensou que esse movimento aqui da gente empoderaria mulheres? Achou que nosso problema com o feminismo eram só os peitos de fora em passeata? Qual a chance do Jair Renan arrumar um emprego se metade da população não estiver excluída da competição?”.
Se você acha que eu exagero, assista ao vídeo de Paulo Figueiredo, o cúmplice de Eduardo Bolsonaro, em resposta a Michelle. A coisa começa com “mulher vota muito mal” (minuto 29:43), “principalmente mulheres solteiras” (29:58), passa por chamar Michelle e Damares de feministas (21:13), vai até “podem arrancar os pentelhos das calcinhas” (30:04) e conclui dizendo que “se vocês soubessem as coisas que eu sei” teriam vontade de cortar os pulsos quando Michelle chama Jair de “meu galego”.
A ameaça “sei mais do que posso falar” foi mútua: a ex-primeira-dama tinha terminado seu vídeo dizendo que havia dito “quase tudo” que queria.
Michelle bateu onde dói: o desempenho de Flávio nas pesquisas é muito pior entre as mulheres (por isso o ódio de Figueiredo). O único ponto de entrada do candidato de extrema direita nesse eleitorado são as mulheres evangélicas, que têm Michelle em alta conta, e, em muitos casos, se identificam com as candidatas de direita que Michelle apoia.
Michelle Bolsonaro não teria gravado esse vídeo se achasse que Flávio vai ganhar a eleição. Foi um gesto de disputa pelo legado do Jair. O legado só estará em disputa se Flávio perder.
Michelle deve saber, inclusive, que a gangue dos zeros (zero um, zero dois, etc.) vai responsabilizá-la em caso de derrota. Como se Flávio não estivesse no centro do maior escândalo financeiro da história brasileira, como se Eduardo não tivesse conspirado por um tarifaço contra o Brasil, como se Jair, enfim.
Por isso a principal suspeita é que a jogada de Michelle tenha sido uma tentativa de se distanciar de uma candidatura que tem boas chances de perder, e, pior, de sair desmoralizada pelas revelações do caso Master. Se esse for o diagnóstico, faz sentido parar de nadar do lado do provável afogado e se resguardar para disputas futuras.
Não sabemos se Michelle fez seu vídeo para se distanciar de um Flávio prestes a ser derrotado. Mas se alguém mais já queria fazer isso, a crise na família Bolsonaro é uma oportunidade de ouro.
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