Se torcedores e jornalistas esportivos precisavam de um milagre para defender a canonização das mãos de Oscar Schmidt, podem ter como argumento o que aconteceu em 23 de agosto de 1987, diante de cerca de 16 mil pessoas, em Indiana, nos Estados Unidos.
Contra todos os prognósticos, o jogador de basquete apelidado de Mão Santa conduziu a seleção brasileira para uma façanha mais lembrada do que o bicampeonato mundial de 1959 e 1963.
Inventores desse esporte e invictos em casa, os anfitriões eram hegemônicos e favoritos a mais um título. Porém, o Brasil conseguiu uma improvável virada na final do torneio masculino dos Jogos Pan-Americanos, em Indianápolis, uma cidade simbólica para o basquete dos EUA.
Oscar, falecido na sexta-feira (17), aos 68 anos, com uma parada cardiorrespiratória, em Santana de Parnaíba (SP), sempre negou a santidade das suas mãos.
Creditava sua pontaria à exaustiva repetição nos treinamentos. Não queria ser um exemplo pelo talento, e sim pela dedicação, que ele defendia como possível para qualquer pessoa.
Sua carreira de quase três décadas acumula números impressionantes. A ele é atribuída a segunda maior pontuação de um jogador de basquete, 49.737 pontos. Ao ser ultrapassado pelo astro americano LeBron James, em 2024, Oscar celebrou o novo recorde como uma contribuição dos atletas para a evolução da modalidade esportiva.
Em suas cinco participações olímpicas, de 1980 a 1996, o ala brasileiro colecionou marcas como a de maior cestinha da história dos Jogos, com 1.093 pontos. Também é o maior pontuador da seleção verde-amarela, com 7.693 pontos.
Campeão mundial interclubes pelo clube paulista Sírio, em 1979, ele foi brilhar na Europa. Brilhou em 11 temporadas na Itália e duas na Espanha.
Em 1984, Oscar recusou convite do New Jersey Nets, de Nova York, para atuar na maior vitrine do basquete, a liga profissional dos EUA, a NBA. Caso aceitasse, não poderia mais jogar pela seleção brasileira nas principais competições.
Mesmo assim, o potiguar de Natal não deixou de ser reverenciado por homenagens americanas. Em parte, por causa do impacto que ele causou naquele miraculoso triunfo no Pan de Indianápolis.
Candidatos à NBA
Mesmo proibido pelas regras olímpicas de escalar atletas profissionais, os EUA dominavam amplamente o basquete masculino nos Jogos. Só não haviam conquistado o título de 1972, em Munique, diante da arquirrival União Soviética.
Eram representados por jovens dos fortes campeonatos universitários. Muitos deles, prestes a entrar na NBA. Como nada menos que Michael Jordan e Patrick Ewing em 1984.
Nos Jogos Pan-Americanos de 1987, não foi diferente. Todos os 12 convocados jogaram depois na NBA, ainda que brevemente.
Futuro integrante do Dream Team de 1992, o pivô David Robinson, da Academia Naval dos EUA, conquistaria o título em 1999 e 2003 com o San Antonio Spurs. Rex Chapman e Danny Manning também se destacariam na liga.
O multipremiado treinador Denny Crum, da Universidade de Louisville, havia ganhado o ouro na Universíade de 1977, na Bulgária.
Em Indianápolis, seu time estava voando. Venceu Panamá, Argentina, México, Venezuela e Uruguai com uma média de 29 pontos de diferença. Na semifinal, apenas 80 a 75 contra Porto Rico.
Já o Brasil bateu o Uruguai por 111 a 79, Porto Rico por 100 a 99 e Ilhas Virgens por 103 a 98. Perdeu para o Canadá por 91 a 88 e ficou em terceiro lugar no Grupo B, atrás de canadenses e porto-riquenhos.
Nas quartas de final, passou pela Venezuela por 131 a 84. Na semifinal, derrotou o México por 137 a 116.
Medo da humilhação
Um intervalo incomum até a final contra os EUA aumentou a ansiedade. “A gente começou a se sentir mal a cada dia, imaginando que aconteceria o pior. Pensava assim: vamos aproveitar, já conquistamos a medalha de prata, que era nosso objetivo”, relata Ricardo Cardoso Guimarães, o ex-armador Cadum, aos 66 anos.
Como não vinha sendo convocado desde a Olimpíada de 1984, ele não participou do confronto entre brasileiros e americanos na semifinal do Campeonato Mundial, na Espanha, no ano anterior. Mas foi uma rara novidade na lista do treinador Ary Vidal para o Pan.
Por sua vez, apenas Robinson continuava no time americano. Sua lembrança era de uma vitória tranquila por 96 a 80 contra o Brasil, em 17 de julho de 1986, em Madri.
Ele e os demais comandados pelo técnico Lute Olson foram campeões ao ganharem dos soviéticos por 87 a 85 na decisão. Os brasileiros perderam a medalha de bronze para a Iugoslávia de Drazen Petrovic por 117 a 91.
O próprio Oscar reconheceria posteriormente o temor de uma derrota acachapante na partida que encerraria a programação esportiva do Pan e, portanto, atrairia grande atenção.
Outro líder daquela seleção, o ex-ala Marcel, também se angustiava. “A verdade é que eu estava morrendo de medo de tomarmos uma porrada deles, uma derrota de 50 pontos. Todo mundo tinha essa sensação”, confessou, em declaração publicada pela Liga Nacional de Basquete (LNB) em 2012.
“A gente só acreditou que podia vencer quando o jogo terminou. Realmente estava com muito medo de passar vergonha, em rede nacional”, admite Cadum, que esteve nas Olimpíadas de 1980, 1984, 1988 e 1992.
Os primeiros minutos da final confirmaram as previsões. Com muitos erros e uma rápida desvantagem de 6 a 0, o Brasil se mostrou atordoado. “Começou com um passeio para os caras, 14 a 2”, recorda Cadum.
Os detalhes estão marcados na sua memória. “Não tem um dia que a gente não lembre daquele jogo, dos momentos que o antecederam, do pós-jogo, da preparação, do sofrimento para conquistar o impossível. É tão vivo, que parece que aconteceu na semana passada, e já são [quase] 40 anos”, diz o ex-atleta.
O primeiro tempo acabou com o placar de 68 a 54. O prejuízo dos visitantes só não foi maior porque, no último segundo, Marcel conseguiu uma cesta de três pontos, quase da metade da quadra.
No início da etapa complementar, os americanos pareciam mais acomodados, administrando a vantagem. Porém, o cenário foi mudando. O Brasil reagiu, com mais intensidade, tentando intimidar os oponentes emocionalmente. Cestas de Oscar deram um entusiasmo.
“Até hoje, a gente não consegue responder qual foi o gatilho que deu para o time virar”, afirma Cadum.
A seleção americana se desestabilizou. Não mantinha a marcação cerrada que dificultava as tentativas dos dois principais arremessadores brasileiros: Oscar e Marcel.
Aos 29 anos, o camisa 14 passou a justificar o indesejado apelido de Mão Santa. Vibrando muito a cada jogada, uma característica típica dele, inflamou os brasileiros em quadra e fora dela.
Cadum conta que a pressão passou para o lado adversário. “Eles eram mais novos e sentiram. A gente segurou o time deles. Mesmo na provocação, de desafiar os caras a jogar, e eles não conseguiram jogar. Sentiram o baque, e a gente foi crescendo. Contagiou o banco de reservas, os torcedores brasileiros. Aquela eletricidade”, analisa.
Seleção feminina na arquibancada
Na partida preliminar, a seleção de Paula e Hortência havia perdido a final feminina para os EUA por 111 a 87. Então, as vice-campeãs estavam na plateia para reforçar a torcida pelos compatriotas na Market Square Arena, que seria demolida em 2001.
No segundo tempo, Oscar, com 35, e Marcel, com 20, contribuíram para os 66 pontos do Brasil. Seus arremessos de três pontos foram fundamentais. Essa inovação na pontuação havia ocorrido em 1984, e os universitários americanos não estavam acostumados com a distância da linha demarcatória.
Nos últimos minutos, mais experientes, os brasileiros controlaram a surpreendente folga no placar, que terminou em 120 a 115. No total, Oscar marcou 46 pontos e terminou como cestinha do Pan com 249.
Foi a primeira derrota da seleção americana masculina de basquete no seu país. Como a organização do evento não cogitava nada menos do que a medalha de ouro, não havia providenciado o hino nacional brasileiro para a cerimônia de premiação, que atrasou.
“Era vitória certa dos EUA. Tiveram que buscar o hino num estádio de futebol relativamente próximo”, explica Cadum.
As comemorações e o choro ainda são lembrados. O êxtase brasileiro contrastava com a estupefação dos americanos. Em comum, havia a incredulidade de todos.
Conseguir o impossível
A escassez de grandes conquistas esportivas do Brasil naquela época ajudou a ressaltar o feito em Indianápolis.
O treinador Ary Vidal e os jogadores ficaram marcados pelo êxito. “Sim, nos imortalizou. Para sempre será lembrado”, opina Cadum, que tinha como colegas Oscar, Marcel, Guerrinha, Israel, Gerson, Rolando, Paulinho Villas Boas, Maury, Sílvio, André e Pipoka.
Ele acredita que o maior legado daquele título foi superar um obstáculo que parecia intransponível. “Trazer isso para nossa vida, de querer sempre mais, de não estar contente com pouco. A gente carrega isso até hoje”, diz.
É uma conclusão compartilhada por aquela geração. “Vencemos o invencível. Depois daquele dia, passei a acreditar que posso fazer qualquer coisa na vida. Não posso mais falar que não dá pra fazer alguma coisa porque dá”, disse Marcel ao site da LNB por ocasião dos 25 anos daquela final.
No aniversário de 36 anos da conquista, em 2023, Oscar escreveu em seus perfis de redes sociais: “O dia em que o nosso time esqueceu da existência da palavra impossível e só lembrou da palavra coragem”. Ele repetia que aquele jogo mudou sua vida.
“Mudou o basquete mundial”, alega Cadum. Não só porque, combinada à decepção com a medalha de bronze dos EUA na Olimpíada do ano seguinte, aquela inédita derrota fez os americanos pressionarem dirigentes pela permissão a atletas da NBA, o que enfim aconteceria nos Jogos de 1992.
Vários personagens do basquete avaliam que aquela final comprovou a nova dinâmica do jogo com o advento da regra dos arremessos de três pontos.
“Abriu a quadra. As defesas não podiam mais ficar no garrafão, tinham que sair. Isso provocou um maior jogo individual, um contra um. E hoje a gente vê na NBA que o jogo um contra um é o que prepondera porque você tem que marcar o arremesso de três pontos”, declarou Marcel ao Globo Esporte em 2017.
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