Uma pauta-bomba que faça jus ao nome tem que ter um ingrediente indispensável: ter o governo contra. Foi assim que Eduardo Cunha feriu o governo Dilma Rousseff, em 2015, quando se sentiu traído por ver avançar contra ele as denúncias da Lava Jato.
Outro ingrediente obrigatório na pauta-bomba é o custo nas contas públicas. A lógica é simples: os congressistas agem de forma populista, atrás do que acreditam ser agrados a eleitores, escolhem grupos de apaniguados e a conta quem paga é você (todos nós). Médicos e dentistas que trabalham no SUS merecem ganhar R$ 13.622? Devem merecer. Os governos têm dinheiro para pagar? Não importa em ano eleitoral.
E será que vão mesmo receber? Reportagem da Folha mostrou que, em Alagoas, nem o piso do professor do ensino básico —o pioneiro dos pisos nacionais— é cumprido pelo não-querer do governante local, que prefere gastar em vaquejadas.
O Senado reeditou nesta semana o cardápio das pautas-bomba. Tem o piso dos médicos e tem também a aberrante aposentadoria especial para agentes comunitários de saúde. São funcionários da base da pirâmide do SUS e merecem boas condições de trabalho. Faz sentido que, para isso, se reverta uma regra do serviço público de 23 anos? Não.
Mas tem um problema conceitual aí. As ditas pautas-bomba receberam o apoio de governistas, inclusive de ministros do governo Lula, e de líderes partidários alinhados ao presidente. Na Câmara, foram 446 votos favoráveis à aposentadoria especial. No Senado, a benesse ao agronegócio teve votação simbólica. Ou seja, foi pacificamente aceita por todos.
O governo não é vítima das pautas-bomba porque o governo assente com tudo isso.
Acreditam Lula, os parlamentares e os seus escolhidos que criam proteções seletivas às intempéries econômicas. A inflação crescente que chega agora aos alimentos mostra que ninguém estará protegido. Às vésperas da eleição, Lula e companhia servem o combo juros altos e inflação alta. Ajustar ganha votos? Há dúvidas. Certamente o desajuste faz perder.
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