Por que a Amazon exigiu três diretores e o retorno de Fernando Meirelles à câmera no maior filme do estúdio

Estreou nesta sexta-feira, 7, o filme nacional Corrida dos Bichos, no Prime Video. Criado por Ernesto Solis, que também dirige a produção ao lado de Rodrigo Pesavento e Fernando Meirelles, o longa retrata um Rio de Janeiro em um futuro distópico, em que pessoas usam máscaras de bichos para disputar uma competição violenta e até mortal por um prêmio milionário. A VEJA, o trio conversou sobre o projeto.

Confira a conversa na íntegra:

VEJA: Como surgiu o desejo de criar essa história, que pega algo tão brasileiro e carioca quanto o jogo do bicho e o transforma em uma narrativa distópica, com uma pegada que lembra outras produções — embora eu saiba que foi concebida antes de Jogos Vorazes e Round 6. E por que se dividiram em seis mãos para fazer a direção do filme?

Ernesto Solis: Originalmente, um produtor franco-português que trabalhava com o Luc Besson viu meu trabalho e se interessou. Na época, eu estava fazendo uma história em quadrinhos futurista no Rio de Janeiro. Ele gostou dessa combinação de futuro com o Rio. Vi aí uma oportunidade de falar do futuro, mas sem querer emular uma estética ou temática estrangeira. Era uma oportunidade de falar de um futuro muito brasileiro. Daí veio a ideia de trazer o jogo do bicho como esse elemento característico. A partir disso, fui desenvolvendo essa história: mais do que prever o futuro, eu queria fazer uma alegoria da nossa sociedade, do presente, do passado e desse jogo social perverso. Funcionou. Depois vieram outros filmes que brincam com essa ideia de jogo. Sobre a divisão de direção, acho que o Fernando pode falar melhor.

Fernando Meirelles: O Ernesto tinha esse conceito há 20 anos, tentou vender de vários jeitos e acabou que finalmente o Prime Video resolveu comprar. O Ernesto fez bastante televisão, mas não tinha experiência em longa-metragem, e as cenas de ação são muito complexas. Então trouxemos o Pesavento para o pacote. O Pesa é um diretor de publicidade e streaming muito bom com câmera e com a gramática de cinema, sendo o cara ideal para a ação. Esse seria o time. Porém, dois meses antes de começar a pré-produção, a Amazon falou: “Nem o Pesa nem o Ernesto fizeram longa, e este é o maior orçamento que temos no momento. Precisamos que você entre para o pessoal em Los Angeles se sentir seguro”. Aí eu entrei com a perspectiva de realizar o projeto do Ernesto — a visão era dele, o roteiro era dele e ele sempre tinha a última palavra. Foi muito prazeroso trabalhar desse jeito. A responsabilidade do conceito era dele, e eu foquei em tentar fazer da melhor forma possível as cenas que assumi. Voltei a operar câmera e a criar imagens, o que foi sensacional, pois fazia muito tempo que eu não operava. Nós loteamos o roteiro: toda a ação era do Pesa, e o drama ficou metade com o Ernesto e metade comigo. Para um filme desse tamanho, foi bom ter três diretores para dividir a responsabilidade sem ninguém enlouquecer, permitindo uma preparação muito maior.

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Ernesto Solis: E tinha que caber em um plano de filmagem apertado, então era importante ter três.

Fernando Meirelles: O filme teria 10 semanas para filmar, que era o que cabia no orçamento. Um pouco antes de começar, perdemos duas semanas. Se não houvesse três diretores, não teríamos dado conta.

VEJA: Fernando, como foi traduzir as ideias do Ernesto para as cenas de ação e drama, tocando em um tema que dialoga muito com o Brasil de hoje, com as apostas e o jogo do bicho?

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Rodrigo Pesavento: Como gaúcho morando em São Paulo, quando eu estava no Rio de Janeiro visitando as locações e tentando ser criativo com as paisagens da cidade — definindo a performance do parkour e por quais momentos da cidade ele passaria —, eu me perguntava: o que tem de mais distópico do que esse Rio de Janeiro que enxergo agora? É um presente distópico. Já existe uma criatividade do brasileiro, e o Rio de Janeiro tem o DNA disso pronto. Para mim, estava pronto.

VEJA: O filme termina de forma um pouco aberta. Já existe conversa para fazer uma sequência?

Ernesto Solis: Temos história para contar e dá para fazer uma trilogia se quiser, mas depende do resultado deste primeiro filme. Não tem nada definido, mas, se funcionar, temos vontade e história.

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Fernando Meirelles: Se funcionar, a gente quer fazer.

VEJA: Para concluir: a questão da desigualdade é muito presente na história. De onde veio a inspiração para abordar esses assuntos, mesmo se tratando de um futuro não tão distante da nossa realidade?

Ernesto Solis: Eu sempre tive vontade de fazer uma alegoria da nossa realidade, mais do que prever o futuro. O jogo do bicho serviu para construir essa alegoria na qual você tem uma elite jogando em um lugar muito confortável, sem nem precisar se mexer, enquanto a população tem que literalmente correr atrás do prejuízo da vida feito bicho. Eu tinha vontade de fazer isso fora do registro do realismo social. O Brasil tem uma tradição no cinema social, mas tentar construir esse tipo de alegoria em cima de uma fábula futurista era algo inédito. Esse foi o desejo inicial: tentar fazer isso nesse registro.

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